Livros dos editores (II)

 

 

João Coles

Claire-Louise Bennett é uma escritora inglesa que vive em Galway e estreou-se na ficção em 2015 com  Pond . Na verdade, já havia publicado ensaios e histórias em várias revistas irlandesas;  Pond  é o seu primeiro livro. E foi uma belíssima surpresa. Não se trata de um romance nem de uma recolha de contos. Digamos uma recolha de histórias ou de episódios encadeados, como cada dia que despertamos forma uma história diferente, umas mais outras menos longas. Bennett fala-nos sobre os prazeres e desprazeres da vida solitária contados por uma mulher que vive longe da cidade, dos devaneios e da dispersão da mente enquanto cozinhamos ou cortamos as unhas dos pés ou quando estamos de papo para o ar ou estamos a ler um livro, da relação íntima com a casa e com os objectos que nela habitam, desta poética do espaço de que falava Bachelard e que muitas vezes nos é alheia: “[home as] a stone plant with cosmic roots, a kind of intimate conduit between the subterranean and the aerial” - quando entrevistada à  The Paris Review  ( PR ). O livro é sobretudo isto, um relato da existência da mente em solidão. A solidão que, explica ainda na entrevista à  PR , traz atmosfera a uma obra de ficção; a atmosfera rodeia mais eficazmente uma voz solitária tal como a chama de uma só vela.

Claire-Louise Bennett é uma escritora inglesa que vive em Galway e estreou-se na ficção em 2015 com Pond. Na verdade, já havia publicado ensaios e histórias em várias revistas irlandesas; Pond é o seu primeiro livro. E foi uma belíssima surpresa. Não se trata de um romance nem de uma recolha de contos. Digamos uma recolha de histórias ou de episódios encadeados, como cada dia que despertamos forma uma história diferente, umas mais outras menos longas. Bennett fala-nos sobre os prazeres e desprazeres da vida solitária contados por uma mulher que vive longe da cidade, dos devaneios e da dispersão da mente enquanto cozinhamos ou cortamos as unhas dos pés ou quando estamos de papo para o ar ou estamos a ler um livro, da relação íntima com a casa e com os objectos que nela habitam, desta poética do espaço de que falava Bachelard e que muitas vezes nos é alheia: “[home as] a stone plant with cosmic roots, a kind of intimate conduit between the subterranean and the aerial” - quando entrevistada à The Paris Review (PR). O livro é sobretudo isto, um relato da existência da mente em solidão. A solidão que, explica ainda na entrevista à PR, traz atmosfera a uma obra de ficção; a atmosfera rodeia mais eficazmente uma voz solitária tal como a chama de uma só vela.

Foi o primeiro livro de poesia de Bukowski que li por inteiro. Li sempre poemas soltos como se os lesse das várias revistas aonde ele os mandara. A poesia do velho Buk é, por um lado, como a sua prosa, desconstrói tudo aquilo que a precede (para criar há que destruir primeiro a matéria prima), por outro, é aqui que o vemos no seu melhor. Continuamos no seu imaginário de L.A., a sua linguagem crua, o seu humor aguçado, todo o álcool derramado também, claro, mas vemos com maior clareza o que nos romances e nos contos acaba por se camuflar, ou seja, o Charles Bukowski que em sua casa lê “The Shower” para as câmaras de filmar em pouco menos de 2 minutos. A epígrafe da primeira parte do livro resume-o muito bem: “one more creature dizzy with love”.

Foi o primeiro livro de poesia de Bukowski que li por inteiro. Li sempre poemas soltos como se os lesse das várias revistas aonde ele os mandara. A poesia do velho Buk é, por um lado, como a sua prosa, desconstrói tudo aquilo que a precede (para criar há que destruir primeiro a matéria prima), por outro, é aqui que o vemos no seu melhor. Continuamos no seu imaginário de L.A., a sua linguagem crua, o seu humor aguçado, todo o álcool derramado também, claro, mas vemos com maior clareza o que nos romances e nos contos acaba por se camuflar, ou seja, o Charles Bukowski que em sua casa lê “The Shower” para as câmaras de filmar em pouco menos de 2 minutos. A epígrafe da primeira parte do livro resume-o muito bem: “one more creature dizzy with love”.

Outra vez Bukowski. Foi um ano passado em sua companhia, de maneira que repeti-lo é inevitável. Na correspondência com Sheri Martinelli, e não ocorria com muitos, segundo o editor deste livro, Bukowski deixa cair a máscara e envolve-se em discussões intensas sobre arte e literatura e estética. Sim, entrevê-se nestas cartas uma espécie de crítico literário desconhecido escondido entre o beberrolas e o durão das ruas de Los Angeles, ofuscado por Henry Chinaski. Sheri Martinelli foi das primeiras pessoas a publicar a obra de Bukowski, e a sua revista a primeira a recenseá-la. Tudo isto não antes de a chumbar numa primeira abordagem com uma carta de rejeição muito singular na qual lhe dá conselhos gratuitos num tom condescendente, o que, claro, leva Bukowski a reagir tempestuosamente, defendendo a sua estética e o seu estilo, o seu meio de expressão que não obedecia a quaisquer regras a não ser as dele. É assim que começa este livro, com as duas cartas que criaram a centelha desta relação improvável entre estes dois extremos opostos e que se manteve viva durante sete anos.

Outra vez Bukowski. Foi um ano passado em sua companhia, de maneira que repeti-lo é inevitável. Na correspondência com Sheri Martinelli, e não ocorria com muitos, segundo o editor deste livro, Bukowski deixa cair a máscara e envolve-se em discussões intensas sobre arte e literatura e estética. Sim, entrevê-se nestas cartas uma espécie de crítico literário desconhecido escondido entre o beberrolas e o durão das ruas de Los Angeles, ofuscado por Henry Chinaski. Sheri Martinelli foi das primeiras pessoas a publicar a obra de Bukowski, e a sua revista a primeira a recenseá-la. Tudo isto não antes de a chumbar numa primeira abordagem com uma carta de rejeição muito singular na qual lhe dá conselhos gratuitos num tom condescendente, o que, claro, leva Bukowski a reagir tempestuosamente, defendendo a sua estética e o seu estilo, o seu meio de expressão que não obedecia a quaisquer regras a não ser as dele. É assim que começa este livro, com as duas cartas que criaram a centelha desta relação improvável entre estes dois extremos opostos e que se manteve viva durante sete anos.

José Pedro Moreira

Todos temos livros a que precisamos de regressar. Não são necessariamente os melhores livros que lemos, mas são os livros que conseguem verbalizar impressões e sentimentos que nos acompanham, mas aos quais temos dificuldade em dar forma. Não são tanto um porto de abrigo, antes uma cidade estrangeira onde nos sentimos surpreendentemente em casa. No início de 2017, o Brexit e a eleição de Trump anunciavam um mundo mais sujo, mais desigual e mais indecente. Talvez por isso tenha sentido a necessidade de reler  Antigos Mestres . Um velho crítico de arte misantropo tenta não se matar depois da morte da sua companheira, a única pessoa que tornava a existência tolerável. Thomas Bernhard escolheu, como subtítulo,  comédia .

Todos temos livros a que precisamos de regressar. Não são necessariamente os melhores livros que lemos, mas são os livros que conseguem verbalizar impressões e sentimentos que nos acompanham, mas aos quais temos dificuldade em dar forma. Não são tanto um porto de abrigo, antes uma cidade estrangeira onde nos sentimos surpreendentemente em casa. No início de 2017, o Brexit e a eleição de Trump anunciavam um mundo mais sujo, mais desigual e mais indecente. Talvez por isso tenha sentido a necessidade de reler Antigos Mestres. Um velho crítico de arte misantropo tenta não se matar depois da morte da sua companheira, a única pessoa que tornava a existência tolerável. Thomas Bernhard escolheu, como subtítulo, comédia.

De como a literatura pode mudar um homem, ou de como a literatura nos pode fazer homens. Com alguma intriga académica pelo meio. Recomendado pelo Paulo Rodrigues Ferreira. Não lhe poderia estar mais grato.

De como a literatura pode mudar um homem, ou de como a literatura nos pode fazer homens. Com alguma intriga académica pelo meio. Recomendado pelo Paulo Rodrigues Ferreira. Não lhe poderia estar mais grato.

O melhor escritor de humor português escreve sobre o humor. O que raio é, para que serve, como fazer rir. Pelo meio cita-se Shakespeare, Beckett, Camilo Castelo Branco, Sartre, Chesterton e George Foreman. Sim, é bastante divertido.

O melhor escritor de humor português escreve sobre o humor. O que raio é, para que serve, como fazer rir. Pelo meio cita-se Shakespeare, Beckett, Camilo Castelo Branco, Sartre, Chesterton e George Foreman. Sim, é bastante divertido.

Uma história da Filosofia Ocidental, desde a Grécia Antiga até ao Renascimento. Sem ser chato ou abstruso, sem intimidar o leitor com longas notas biográficas, mas sem esconder as lacunas nem tratar os leitores como idiotas. Gottlieb é erudito, claro, um guia sóbrio e com sentido de humor.  The Dream of Enlightment , a continuação, fará certamente parte das minhas leituras de 2018.

Uma história da Filosofia Ocidental, desde a Grécia Antiga até ao Renascimento. Sem ser chato ou abstruso, sem intimidar o leitor com longas notas biográficas, mas sem esconder as lacunas nem tratar os leitores como idiotas. Gottlieb é erudito, claro, um guia sóbrio e com sentido de humor. The Dream of Enlightment, a continuação, fará certamente parte das minhas leituras de 2018.

As referências constantes a Bukowski na poesia do João Bosco da Silva e as excelentes traduções que o João Coles tem publicado na Enfermaria tornaram inevitável que o lesse mais este ano. O João Coles escreve sobre o livro em cima muito melhor do que eu seria capaz. Basta-me dizer que  Love is a dog from hell  foi o meu livro de poesia favorito do ano.

As referências constantes a Bukowski na poesia do João Bosco da Silva e as excelentes traduções que o João Coles tem publicado na Enfermaria tornaram inevitável que o lesse mais este ano. O João Coles escreve sobre o livro em cima muito melhor do que eu seria capaz. Basta-me dizer que Love is a dog from hell foi o meu livro de poesia favorito do ano.

Jason Schreier é um dos editores do site  Kotaku . Inteligente, liberal e provocador, é também uma das  bêtes noires  do movimento Gamergate (uma ramificação do fenómeno Alt Right), e uma das vozes mais interessantes a falar sobre videojogos.  Apesar de muitos de nós passarmos umas quantas horas por semana a jogar videojogos, sabemos muito pouco de como são feitos.  Blood, sweat and pixels  acompanha o longo e quase sempre tortuoso processo de criação de dez jogos recentes. Schreier é um jornalista exímio, e cada capítulo está apoiado em horas e horas de entrevistas. É também um bom contador de histórias, que consegue transportar-nos para o meio do caos que é um projecto criativo que envolve centenas de pessoas, pressionadas por prazos e expectativas irrealistas. Há tanta peripécia que por vezes nos esquecemos que não estamos a ler um livro de contos. Dei por mim a encontrar  pathos  onde menos esperava: o capítulo sobre  Stardew Valley , por exemplo, obra solitária de Eric Barone (também conhecido Concerned Ape), lê-se como uma história de obsessão, amor, tolerância e desejo irracional de criar algo único, e é difícil não sentir empatia pela figura.

Jason Schreier é um dos editores do site Kotaku. Inteligente, liberal e provocador, é também uma das bêtes noires do movimento Gamergate (uma ramificação do fenómeno Alt Right), e uma das vozes mais interessantes a falar sobre videojogos.  Apesar de muitos de nós passarmos umas quantas horas por semana a jogar videojogos, sabemos muito pouco de como são feitos. Blood, sweat and pixels acompanha o longo e quase sempre tortuoso processo de criação de dez jogos recentes. Schreier é um jornalista exímio, e cada capítulo está apoiado em horas e horas de entrevistas. É também um bom contador de histórias, que consegue transportar-nos para o meio do caos que é um projecto criativo que envolve centenas de pessoas, pressionadas por prazos e expectativas irrealistas. Há tanta peripécia que por vezes nos esquecemos que não estamos a ler um livro de contos. Dei por mim a encontrar pathos onde menos esperava: o capítulo sobre Stardew Valley, por exemplo, obra solitária de Eric Barone (também conhecido Concerned Ape), lê-se como uma história de obsessão, amor, tolerância e desejo irracional de criar algo único, e é difícil não sentir empatia pela figura.

Em termos de banda desenhada, o meu 2017 foi marcado por finalmente ter lido a totalidade dos volumes de  Preacher .  Preacher  conta a história de Jesse Custer, um pastor que adquire poderes sobrenaturais, e parte numa  roadtrip  pela América fora, na companhia da sua namorada e do seu amigo vampiro. Vão à procura de busca de deus – que parece ter deixado os céus e estar a fugir deles.  Sabia que era uma das colecções mais importantes dos anos 90, e parece ser impossível descrever os livros sem usar as expressões  “iconoclástico” e “ridiculamente violento”. Não são desadequadas,  Preacher  compraz-se em chocar os leitores, mas minimizam a elegância de como a obra aborda temas de amizade, amor e religião. Que uma meditação humanista sobre deus coexista com uma personagem chamada Arseface ou um vilão que parece um caralho andante sem se perder num riso pueril atesta a qualidade da escrita de Garth Ennis.

Em termos de banda desenhada, o meu 2017 foi marcado por finalmente ter lido a totalidade dos volumes de Preacher. Preacher conta a história de Jesse Custer, um pastor que adquire poderes sobrenaturais, e parte numa roadtrip pela América fora, na companhia da sua namorada e do seu amigo vampiro. Vão à procura de busca de deus – que parece ter deixado os céus e estar a fugir deles.

Sabia que era uma das colecções mais importantes dos anos 90, e parece ser impossível descrever os livros sem usar as expressões  “iconoclástico” e “ridiculamente violento”. Não são desadequadas, Preacher compraz-se em chocar os leitores, mas minimizam a elegância de como a obra aborda temas de amizade, amor e religião. Que uma meditação humanista sobre deus coexista com uma personagem chamada Arseface ou um vilão que parece um caralho andante sem se perder num riso pueril atesta a qualidade da escrita de Garth Ennis.

Tatiana Faia (continuação)

Elizabeth Costello  de J. M. Coetzee. Coetzee é um dos meus escritores favoritos. Acho que se pode ler qualquer coisa dele de uma assentada. Não sendo imediatamente evidente como é que um romance sobre uma escritora de idade avançada, apologista de um vegetarianismo radical, que num dado momento a leva a estabelecer uma comparação entre o abate de animais e o holocausto, termina num ensaio sobre as raízes clássicas e bizantinas do mundo em que vivemos, sobre a religião, sobre África, sobre Kafka como autor fundamental do nosso tempo, sobre o vazio da vida de escritor, que surge como uma profissão que exige um compromisso e uma honestidade de pendor quase espiritual, quase uma independência sobre-humana. Perturbador, profundo, impecavelmente bem escrito. Não há neste livro nada que não seja relevante para pensarmos o que seja viver eticamente. 

Elizabeth Costello de J. M. Coetzee. Coetzee é um dos meus escritores favoritos. Acho que se pode ler qualquer coisa dele de uma assentada. Não sendo imediatamente evidente como é que um romance sobre uma escritora de idade avançada, apologista de um vegetarianismo radical, que num dado momento a leva a estabelecer uma comparação entre o abate de animais e o holocausto, termina num ensaio sobre as raízes clássicas e bizantinas do mundo em que vivemos, sobre a religião, sobre África, sobre Kafka como autor fundamental do nosso tempo, sobre o vazio da vida de escritor, que surge como uma profissão que exige um compromisso e uma honestidade de pendor quase espiritual, quase uma independência sobre-humana. Perturbador, profundo, impecavelmente bem escrito. Não há neste livro nada que não seja relevante para pensarmos o que seja viver eticamente. 

Aftermath. On Marriage  and Separation  de Rachel Cusk. Há no princípio deste livro uma citação do Agamemnon de Ésquilo, daquele passo muito debatido por classicistas, em que se lê, Zeus has led us on to know,/ The Helmsman lays it down as law / That we must suffer, suffer into truth. Uma das unidades sociais mais básicas do mundo em que vivemos continua a ser o casamento. Não há nada de escandaloso ou chocante neste livro de Rachel Cusk, ainda que o livro tenha sido violentamente atacado.  Aftermath  é sobretudo um ensaio sobre o violento colapso de uma ordem, sobre feridas e cicatrização. Como arrancar um dente.  The last supper, Outline, A life’s work, Aftermath . De um modo quase discreto, capturando o que parecem ser as situações mais comuns que estruturam as vidas de mulheres, o parto, o casamento, trabalhos e férias de família, os livros de Rachel Cusk lembram-nos que há na literatura um poder testemunhal que nos ajuda a viver um pouco melhor.

Aftermath. On Marriage  and Separation de Rachel Cusk. Há no princípio deste livro uma citação do Agamemnon de Ésquilo, daquele passo muito debatido por classicistas, em que se lê, Zeus has led us on to know,/ The Helmsman lays it down as law / That we must suffer, suffer into truth. Uma das unidades sociais mais básicas do mundo em que vivemos continua a ser o casamento. Não há nada de escandaloso ou chocante neste livro de Rachel Cusk, ainda que o livro tenha sido violentamente atacado. Aftermath é sobretudo um ensaio sobre o violento colapso de uma ordem, sobre feridas e cicatrização. Como arrancar um dente. The last supper, Outline, A life’s work, Aftermath. De um modo quase discreto, capturando o que parecem ser as situações mais comuns que estruturam as vidas de mulheres, o parto, o casamento, trabalhos e férias de família, os livros de Rachel Cusk lembram-nos que há na literatura um poder testemunhal que nos ajuda a viver um pouco melhor.

Livros dos editores (I)

Três dos editores da Enfermaria 6 trazem aqui alguns dos livros preferidos de 2017.

A lista continuará na próxima semana.

 

Victor Gonçalves

O melhor ensaio sobre Nietzsche publicado, pelo menos, nos últimos 10 anos. Depois dos grandes comentadores do século XX (Martin Heidegger, Karl Löwith, Gilles Deleuze, Giorgio Colli, Arthur Danto, Michel Haar, Cur Paul Janz, Peter Sloterdijk, Jean Wahl, Walter Kaufmann, Wolfgang Müller-Lauter), Dorian Astor mostra uma inteligência hermenêutica e um conhecimento da obra nietzschiana capazes de renovar o interesse, sem fetichismos, pelo solitário de Sils Maria. A sua escrita alia clareza e profundidade, o melhor de dois mundos, pois. 

O melhor ensaio sobre Nietzsche publicado, pelo menos, nos últimos 10 anos. Depois dos grandes comentadores do século XX (Martin Heidegger, Karl Löwith, Gilles Deleuze, Giorgio Colli, Arthur Danto, Michel Haar, Cur Paul Janz, Peter Sloterdijk, Jean Wahl, Walter Kaufmann, Wolfgang Müller-Lauter), Dorian Astor mostra uma inteligência hermenêutica e um conhecimento da obra nietzschiana capazes de renovar o interesse, sem fetichismos, pelo solitário de Sils Maria. A sua escrita alia clareza e profundidade, o melhor de dois mundos, pois. 

O "nosso"  Modos de Escrever , cheio de autores elegantes, capazes de olhar, como Janus, para o passado e o futuro, de se distanciarem dos seus próprios gestos de escrita e segredarem-nos receitas  infalíveis  ou reflectirem e suspeitarem desta velha tecnologia de comunicação. Que tanto serve para tecer emoções como para geometrizar o mundo. Traduzir, expor o interior do corpo, refazer as relações sociais, programar o desaparecimento, repensar a escrita, anotar partituras, listar as tarefas diárias, versejar palavras banais... De tantos modos de escrever fala (ou escreve) esta obra. 

O "nosso" Modos de Escrever, cheio de autores elegantes, capazes de olhar, como Janus, para o passado e o futuro, de se distanciarem dos seus próprios gestos de escrita e segredarem-nos receitas infalíveis ou reflectirem e suspeitarem desta velha tecnologia de comunicação. Que tanto serve para tecer emoções como para geometrizar o mundo. Traduzir, expor o interior do corpo, refazer as relações sociais, programar o desaparecimento, repensar a escrita, anotar partituras, listar as tarefas diárias, versejar palavras banais... De tantos modos de escrever fala (ou escreve) esta obra. 

Uma magnífica descoberta, um encontro que mudou a maneira como pensava a ficção, uma extraordinária mistura de jornalismo e... Mas sobretudo um olhar desassombrado sobre o ser humano, as misérias das suas expectivas e a imensa corrupção das convicções. Como se pode a partir de uma frase ou de uma imagem contaminar sem remissão a beleza e a grandeza da vida temerária. Um livro de história e um livro de antropologia, deixando que se encaixem nesses dois universais as pequenas histórias cheias de euforia e de disforia, uma a seguir à outra. Imprescindível. 

Uma magnífica descoberta, um encontro que mudou a maneira como pensava a ficção, uma extraordinária mistura de jornalismo e... Mas sobretudo um olhar desassombrado sobre o ser humano, as misérias das suas expectivas e a imensa corrupção das convicções. Como se pode a partir de uma frase ou de uma imagem contaminar sem remissão a beleza e a grandeza da vida temerária. Um livro de história e um livro de antropologia, deixando que se encaixem nesses dois universais as pequenas histórias cheias de euforia e de disforia, uma a seguir à outra. Imprescindível. 

Não sei se é, como diz a publicidade, um "livro de combate pela liberdade e pela dignidade humanas", parece-me mais um livro sobre as imperfeições pérfidas do ser humano. A queda da grande utopia absolutista (é o absoluto que apodrece o utópico) comunista, um igualitarismo (pelo menos para a grande maioria) imposto à lei da bala e da prisão. Despir homens e mulheres da sua pele cultural e olhar directamente para as estratégias mais elementares, amorais, de sobrevivência, já sem raiva ou alimentados pelo espírito de vingança, em puro para lá bem e mal. E depois, uma extraordinária desvalorização da vida em favor da marcha da história, um caminho visionário que alguns acharam por bem, caprichosamente, elevar a lei cósmica. Uma Teodiceia ao contrário. 

Não sei se é, como diz a publicidade, um "livro de combate pela liberdade e pela dignidade humanas", parece-me mais um livro sobre as imperfeições pérfidas do ser humano. A queda da grande utopia absolutista (é o absoluto que apodrece o utópico) comunista, um igualitarismo (pelo menos para a grande maioria) imposto à lei da bala e da prisão. Despir homens e mulheres da sua pele cultural e olhar directamente para as estratégias mais elementares, amorais, de sobrevivência, já sem raiva ou alimentados pelo espírito de vingança, em puro para lá bem e mal. E depois, uma extraordinária desvalorização da vida em favor da marcha da história, um caminho visionário que alguns acharam por bem, caprichosamente, elevar a lei cósmica. Uma Teodiceia ao contrário. 

Paulo Rodrigues Ferreira

Ler  El Pasado,  do argentino Alan Pauls, é das mais belas experiências que um leitor de livros pode ter. Depois de treze anos juntos, Sofía e Rímini separam-se. Este acontecimento banal dá origem a uma profunda reflexão sobre o amor, sobre não se saber estar no mundo sem a pessoa amada, apesar de todas as zangas e defeitos. Quinhentas e tal páginas, longuíssimas frases, reflexões sobre a vida, o amor e a dor, tudo para dizer que Sofía e Rímini não se conseguem afastar. Por mais que se afastem, estarão para sempre juntos. E acabam juntos. Este é um livro para leitores a sério.

Ler El Pasado, do argentino Alan Pauls, é das mais belas experiências que um leitor de livros pode ter. Depois de treze anos juntos, Sofía e Rímini separam-se. Este acontecimento banal dá origem a uma profunda reflexão sobre o amor, sobre não se saber estar no mundo sem a pessoa amada, apesar de todas as zangas e defeitos. Quinhentas e tal páginas, longuíssimas frases, reflexões sobre a vida, o amor e a dor, tudo para dizer que Sofía e Rímini não se conseguem afastar. Por mais que se afastem, estarão para sempre juntos. E acabam juntos. Este é um livro para leitores a sério.

  Este conjunto de palestras permite compreender o pensamento de um autor que, não sendo Borges, é das criaturas mais fascinantes que a Argentina viu nascer. Cortázar não se limita a dar opiniões sobre o que gosta e o que não gosta na literatura, lê e comenta atentamente os seus próprios contos. Explica, por exemplo, que lhe interessa o universo do “fantástico”, na medida em que o fantástico é, ao contrário do que possamos pensar, algo que tem como objectivo fazer pensar. Acompanhar o pensamento de Cortázar é uma forma de regressar aos seus contos, de relê-los, de vê-los a partir de outros pontos de vista. 

 Este conjunto de palestras permite compreender o pensamento de um autor que, não sendo Borges, é das criaturas mais fascinantes que a Argentina viu nascer. Cortázar não se limita a dar opiniões sobre o que gosta e o que não gosta na literatura, lê e comenta atentamente os seus próprios contos. Explica, por exemplo, que lhe interessa o universo do “fantástico”, na medida em que o fantástico é, ao contrário do que possamos pensar, algo que tem como objectivo fazer pensar. Acompanhar o pensamento de Cortázar é uma forma de regressar aos seus contos, de relê-los, de vê-los a partir de outros pontos de vista. 

Ler Alberto Manguel é quase como não ler, ou melhor, é como ouvir, falar ininterruptamente sobre livros, sobre literatura, sobre aspectos mais corriqueiros que quem possui livros sente agudamente (as tristezas e alegrias de comprar livros, de arrumá-los, de não ter mais espaço, por exemplo). Em Manguel passamos de Homero a Borges sem darmos pela passagem de duzentas páginas. 

Ler Alberto Manguel é quase como não ler, ou melhor, é como ouvir, falar ininterruptamente sobre livros, sobre literatura, sobre aspectos mais corriqueiros que quem possui livros sente agudamente (as tristezas e alegrias de comprar livros, de arrumá-los, de não ter mais espaço, por exemplo). Em Manguel passamos de Homero a Borges sem darmos pela passagem de duzentas páginas. 

Este foi um ano em que descobri que amo a literatura argentina, que os escritores argentinos que tenho lido vão todos beber a Borges e, consequentemente, apresentam uma profundidade intelectual e inteligência que não são assim tão usuais em tudo o resto que tenho lido. Este livro é uma criação genial de Piglia, uma investigação de Emilio Renzi, conhecida personagem ficcional, sobre um tio intelectual a tender para o libertário, que largou uma mulher rica para fugir com uma mulher de má fama e viver no mais puro anonimato. 

Este foi um ano em que descobri que amo a literatura argentina, que os escritores argentinos que tenho lido vão todos beber a Borges e, consequentemente, apresentam uma profundidade intelectual e inteligência que não são assim tão usuais em tudo o resto que tenho lido. Este livro é uma criação genial de Piglia, uma investigação de Emilio Renzi, conhecida personagem ficcional, sobre um tio intelectual a tender para o libertário, que largou uma mulher rica para fugir com uma mulher de má fama e viver no mais puro anonimato. 

Tatiana Faia

A Sport and a Pastime  de James Salter, originalmente publicado em 1967, é uma breve novela. O narrador evoca o percurso de Philip Dean, um jovem americano que desistira da universidade. Dean muda-se para Paris, aí apaixona-se, para ceder depois à pressão de regressar à América, ao destino convencional e medíocre a que primeiro tentara escapar.  A Sport and a Pastime  tem uma segunda parte aparentemente repetitiva, seguimos Dean e Anne-Marie, a rapariga por quem ele se apaixona, de hotel de província em hotel de província, noite após noite, em círculo, até que quando chegamos às últimas páginas entendemos que  A Sport and a Pastime  é um romance sobre a natureza e a fragilidade da felicidade, do veneno de sucumbir a convenções, abdicar de sonhos, abdicar de nós próprios, uma espécie de carta de resistência, tendo por cenário a beleza das pequenas cidades provinciais de França, intacta, espécie de sinal ao alto da potência da vida.

A Sport and a Pastime de James Salter, originalmente publicado em 1967, é uma breve novela. O narrador evoca o percurso de Philip Dean, um jovem americano que desistira da universidade. Dean muda-se para Paris, aí apaixona-se, para ceder depois à pressão de regressar à América, ao destino convencional e medíocre a que primeiro tentara escapar. A Sport and a Pastime tem uma segunda parte aparentemente repetitiva, seguimos Dean e Anne-Marie, a rapariga por quem ele se apaixona, de hotel de província em hotel de província, noite após noite, em círculo, até que quando chegamos às últimas páginas entendemos que A Sport and a Pastime é um romance sobre a natureza e a fragilidade da felicidade, do veneno de sucumbir a convenções, abdicar de sonhos, abdicar de nós próprios, uma espécie de carta de resistência, tendo por cenário a beleza das pequenas cidades provinciais de França, intacta, espécie de sinal ao alto da potência da vida.

Luc Sante é um jornalista nascido na Bélgica que emigrou na infância para Nova Iorque e se radicou em Paris na década de 80. Em Novembro de 2015 publicou um livro intitulado  The Other Paris: An Illustrated Journey through a City’s Poor and Bohemian Past  que a  Paris Review , na entrevista feita ao autor, definiu como colossalmente sórdido. É um livro sobre os bairros de Paris mais afastados da circunferência imediata do Quartier Latin e do Boulevard Saint Michel. É de alguma forma um guia ilustrado sobre a formação da identidade contemporânea de Paris, particularmente concentrado nos séculos XVIII e XIX e nos bairros periféricos.  The Other Paris  é povoado de flânerie, personagens bizarras, ruas e cafés onde se deram os encontros e os acontecimentos mais estranhos. Um livro indispensável, não só porque amar Paris é indispensável, mas porque cada ano merece pelo menos um belíssimo livro sórdido.

Luc Sante é um jornalista nascido na Bélgica que emigrou na infância para Nova Iorque e se radicou em Paris na década de 80. Em Novembro de 2015 publicou um livro intitulado The Other Paris: An Illustrated Journey through a City’s Poor and Bohemian Past que a Paris Review, na entrevista feita ao autor, definiu como colossalmente sórdido. É um livro sobre os bairros de Paris mais afastados da circunferência imediata do Quartier Latin e do Boulevard Saint Michel. É de alguma forma um guia ilustrado sobre a formação da identidade contemporânea de Paris, particularmente concentrado nos séculos XVIII e XIX e nos bairros periféricos. The Other Paris é povoado de flânerie, personagens bizarras, ruas e cafés onde se deram os encontros e os acontecimentos mais estranhos. Um livro indispensável, não só porque amar Paris é indispensável, mas porque cada ano merece pelo menos um belíssimo livro sórdido.

Autumn  de Ali Smith, o primeiro romance inglês do pós-Brexit, o que quer que isso queira dizer. No centro de  Autumn  está a amizade entre Elizabeth e David, um alemão emigrado em Inglaterra que carrega com ele a memória de um século.  Autumn  lança um olhar crítico à precariedade de Inglaterra para pensar no valor da arte, da fotografia, da cultura em criar pontes entre as pessoas, em treinar a empatia. É um livro fundamental sobre a ligação entre actos de decência básica, ausência de preconceito, beleza e amizade. Neste país tão amado, que parece à superfície estar condenado a virar-se para dentro, há aqui um voraz olhar para fora, acto sem o qual nunca estaremos exatamente vivos. Redescobrimos ainda aqui a arte das colagens de Pauline Boty. 

Autumn de Ali Smith, o primeiro romance inglês do pós-Brexit, o que quer que isso queira dizer. No centro de Autumn está a amizade entre Elizabeth e David, um alemão emigrado em Inglaterra que carrega com ele a memória de um século. Autumn lança um olhar crítico à precariedade de Inglaterra para pensar no valor da arte, da fotografia, da cultura em criar pontes entre as pessoas, em treinar a empatia. É um livro fundamental sobre a ligação entre actos de decência básica, ausência de preconceito, beleza e amizade. Neste país tão amado, que parece à superfície estar condenado a virar-se para dentro, há aqui um voraz olhar para fora, acto sem o qual nunca estaremos exatamente vivos. Redescobrimos ainda aqui a arte das colagens de Pauline Boty. 

Within the Walls  de Giorgio Bassani é um dos volumes da edição   completa   do  Romanzo di Ferrara ,   presentemente   a ser   editado   pela Penguin,   nas     brilhantes   traduções de Jamie McKendrick. Bassani podia   levar     anos   até dar um conto   relativamente   breve   por     terminado  , num   desses     processos   de   escrita     que   são   afinal   o   que     a   expressão “o   poema   contínuo”   pretende     definir  , a noção de   uma     obra     nunca     acabada  ,   que   continua a   trabalhar   no   autor     muito     depois   do   ponto   de publicação. O título é   uma   alusão ao facto de   todas   as histórias   se     passarem     dentro   dos   muros   de Ferrara. Escritas no pós-  guerra  ,   quase     todas   as histórias são   marcadas   pela memória   violenta     desse   período. A   vida   de   uma     cidade   de província   que   é   uma   epítome da história da Europa, da história do   mundo  . Num dos   contos   lê-  se  : “The truth is that the places where you have wept, where you’ve suffered, where you’ve had to find the many inner resources to keep hoping and resisting, are the ones you grow fondest of.” Assim Ferrara para Bassani. 

Within the Walls de Giorgio Bassani é um dos volumes da edição completa do Romanzo di Ferrara, presentemente a ser editado pela Penguin, nas brilhantes traduções de Jamie McKendrick. Bassani podia levar anos até dar um conto relativamente breve por terminado, num desses processos de escrita que são afinal o que a expressão “o poema contínuo” pretende definir, a noção de uma obra nunca acabada, que continua a trabalhar no autor muito depois do ponto de publicação. O título é uma alusão ao facto de todas as histórias se passarem dentro dos muros de Ferrara. Escritas no pós-guerra, quase todas as histórias são marcadas pela memória violenta desse período. A vida de uma cidade de província que é uma epítome da história da Europa, da história do mundo. Num dos contos lê-se: “The truth is that the places where you have wept, where you’ve suffered, where you’ve had to find the many inner resources to keep hoping and resisting, are the ones you grow fondest of.” Assim Ferrara para Bassani.