Poesia

Comemorou-se há pouco o dia da poesia. Sabemos bem que dedicar um dia a isto e outro àquilo é uma convenção muitas vezes próxima do patético, mas fica a substância, que neste caso é a própria poesia, que diariamente, por necessidade vital, é homenageada aqui na Enfermaria.

Ontem encontrei, em puro e santo acaso, um haiku que servirá para abraçar espiritualmente, mas talvez atabalhoadamente, os bons poetas que generosamente aqui colocam os seus poemas, também para meu deleite. 

Antes de relançar o achado no mundo, confesso-me um admirador sem reservas da forma haiku, que a partir do qualquer coisa ou fenómeno, por mais insignificante que seja, numa enorme economia discursiva, permite entrar num campo mais abrangente, no "todo" ou no "nada", no limite a mesma coisa. Um haiku age como uma espécie de gota de chuva que cai sobre um ramo, provocando um frisson inicial que é rapidamente superado. Em boa verdade, um haiku não transforma nada, mas aumenta a sensação de se estar no mundo profundamente ancorado na vida. E não será esta a finalidade de toda a poesia?

"Tenho um fio de vida

Parece partir-se a cada instante

Mas persiste"

Técnica P-40

1. Quisiera escribirle un poema a Von Hagens como hizo Anne Carson a Audubon. Ambos perfeccionaron un nuevo método que declararon como suyo: Llevar el cuerpo a la observación de cualquier persona. Animal abatido y sin sangre, bañándolo una y otra vez en agua, defectos y heridas dejan de tener olor.

¿Sigue siendo animal esta cavidad vacía? Coloco trapos en el lugar del corazón y los pulmones.

Pero ambos se equivocaban en lo mismo:

donde no hay nada que ver,

hay algo que tocar.

2. Yo nunca quise este animal en la garganta. ¿Acaso esta atrocidad es el centro de todo? Tumbada sobre el acero soy yo ahora el objeto de estudio. ¿Es el animal menos hábil por dejarse morir?, ¿por dejarse tocar? Pero toda la carne que palpan es pared. Bata blanca y manos frías apretando mi frente sentencian: estado orgásmico de los clásicos=entrega pasiva de la parte lesionada.

 ¿Serán estos síntomas cicatrices o manchas de nacimiento? Pero él grita que un síntoma siempre indica un hecho patológico. Siguen palpando pared. Pero soy defecto y herida, y como el poeta, sigo tocando y amando todo aquello que se prepara para morir.

tarde chuvosa sombria com

tarde chuvosa sombria com
Las Vegas como destino de sonho
ideal, de pelúcia e flamingos
ouvindo pink martinis e vendo cowboys de neon
fumando lucky strikes deleitando-se com o striptease
de showgirls manhosas Barbies à procura do seu ELVIS

por entre as nuvens de fumo
de hotéis de luxo decadente
com lustres estilhaçados onde todos
os princípios barrocos são cortados
ou terminados no tapete ou na cama

dormir ou não dormir

eis a velha e eterna questão
que termina num cabide com ou sem roupa
de perfil por cima de igrejas coloridas
com casamentos ou farsas de tule
cultos mediáticos católicos ou talvez não
Serão eles marítimos?
embarcações drifting up no meio de um mar de cimento

marés vivas com pin ups de vermelho
e canastrões embrutecidos

por que me escreves?
Quem és?
Será que importa? Talvez!

sim ou não?
mas como a curiosidade e os gatos são eternos
amigos amantes e ou rivais
eu estou morta ou talvez não
por saber as respostas ou perguntas!
O puro prazer da escrita e leitura suplanta por vezes o seu objectivo
velha questão literária
a forma ou o conteúdo
batalha campal entre formalistas
russos
ou talvez não.

De Memória em Memoriã

meu velho

o poder com que movia os olhos, já doentes, diante da angústia que o medo da ausência lhe trazia.

um corpo moribundo. não havia um sol que lhe cobrisse as sombras. seguia sozinho ou já sem ninguém. não sabia os lugares. não conhecia os regressos. perdia as palavras ao longo dos dias. e desaparecia na imprecisão de quem procura ainda um verão, algo de puro, longe das vozes. longe do silêncio. 

a tristeza inútil das flores. o abandono com que me atiraste contra silêncios.

agora somos inúteis. e não há palavras que nos matem a fome. e temos de ficar de olhar intenso a rezar para não sofrer.

e se ao menos a morte te aliviasse a dor. 

tudo acabou na lastimável carência de palavras. inválido dos olhos resta o que ficou: a lembrança de beleza.

encosto as mãos ao teu silêncio e debaixo do mundo olhamo-nos até que a morte nos derrube a solidão. 

Um funcionário

Agora que voltei ao escritório, voltarei também ao lirismo?
Dobrar-me-ão de passagem para a copa
as vergas
d'O Cântico dos Cânticos, As Mil e Uma Noites,
certa nota de jornal enfiada à carteira

a versar sobre a infinita divisibilidade de Homero
agora com postulados algébricos?
Ora, merda.
A quem cantarei agora estas maravilhas?
pergunto-me
fixando abobado um glossário de termos petrolíferos
uma fotocópia
largada sobre minha mesa, encarquilhada de manuseio
 
(falando-me do manuseio, falando-me a muitas mãos. Quase tomando-a por algo belo)
gongo à garganta da ascensorista
“desce”
uma malha de corredores vazios, espalha-se a ordem por
lajotas de mármore
maravilhas?
Coisas tão miscíveis em seu próprio tempo,

que tipo de operação as dissociaria de tão entramada geral?
Eu tratava o divórcio entre as coisas.
Eu tinha tempo.
Estava ainda por topar a palavra Absoluto
em meio a uma interminável lista de aromatizantes...

(Era embasbacá-la –, era um dever moral).
A quem cantarei agora
                                    Óleo absoluto de rosa damascena

                                    Óleo absoluto de rosa damascena?                                   
Bem que me disseram que esta era a cidade das coincidências,
que não havia meios de escapar,
que, como toda a gente, eu ainda reencontraria no metrô algum velho conhecido dos tempos de colégio
abotoado dos pés à cabeça,
que eu seria levado a pensar, forçosamente, na fraternidade dos homens,
nestas partilhas ásperas,
minuciosas,
levadas a cabo no mais entalado silêncio.
Eu sabia destas coisas,
julgava-me – em alguma medida – preparado,
inclinava as pupilas com a luz branca,
recebia dócil, alegre até, o beco trabalhado em minha testa.
Mas eu olho para baixo e o que vejo, ao fim do dia, são os sapatos de um outro.
O verniz de um outro.