«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
A porta aberta da Ilha
/Quero-te enquanto corrente de vida ininterrompida, corrente de vida contínua, o olhar líquido que abraça, o abraço mais quente, essas pegadas que deixaste ao sair da ilha, ao fechar a porta. Quero-te enquanto porta aberta que tem o mesmo nome que o meu pai, as mesmas pegadas de saída, ali onde poderia ser areia, mesmo que só para escrever no cimento uma pegada fresca, um nome desenhado com uma chave, um coração, sempre um coração entre dois nomes e qualquer data de qualquer século só para nos tornar mais palpáveis - o número da turma, o nome da escola - dizer os amigos imortais seria um pleonasmo desnecessário. Quero-te livre embora ainda queira estar contigo. Imaginei hoje uma voz que me enchesse o coração e quero essa voz sempre contigo. Quero-te enquanto porta aberta, é nosso dever deixá-la sempre aberta e hoje diria como Safo ao sair de uma das suas melhores noites Quem é belo é belo de ver, e basta; mas quem é bom subitamente será belo.
Ele hoje está cheio, bate ainda mais cheio e é impossível apagar: riscar, parcelar ou interromper uma vida. Nem o caminho é a lápis, nem a vida é uma corda ou fio – nada disto se parte a meio - Amo em em ti esses braços que sobem a paisagem, amo nesta luz os teus dentes, boca, olhos: variantes da mesma luz que aceleram o chão, aqui onde caminham os que aquecem, entre Gaia e Porto, as cinco pontes das voltas que demos a uma cidade que se tornou nossa. Quero-te como sopro de vida que ninguém vai fechar e só te posso dar o que ainda não tenho. Imaginei hoje uma voz que me enchesse o coração e quero essa luz sempre contigo: acelera.
Nuno Brito, Porto, 23 de Fevereiro de 2015.
A Macieira Dos Insones: E uma sugestão de livro
/Disseram-me que arrancaram a macieira porque secou, também eu sequei e nunca ninguém
Me conseguiu arrancar as raízes, mesmo que tenha sido muitas vezes estrangeiro em casa
E preferir a solidão do granito e o desolamento das ruínas dos verões quando a cinza já
Assentou à força da chuva, o lameiro tem tão pouco do que trago, parece mais pequeno
Apesar de terem derrubado a cerca que o dividia, enterraram um poço, o cão já se tinha
Lá afogado, de certeza também a capacidade de ser feliz com um bocado de pão caseiro
Com tulicreme que a tia preparou, a inocência como o amor, cega, mas uma cegueira por
Ausência, a cegueira de quem tem as mãos vazias e está cheio de sonhos, a cegueira
De quem confia na vida como na mãe e é para sempre e capaz de tudo menos de traição,
Cega para a maldade, com os sentidos livres e limpos para receber a felicidade, ou apenas
Estar e ser, ignorando que se é, aquela macieira em cuja sombra me deitei e senti
A novidade da erva seca nas costas como a primeira vez em que li Walt Whitman, frescura
Viva que mais tarde se transformou no cheiro a mijo cristalizado das folhas amarelecidas
Pela experiência e o tempo, sentir o mesmo de forma inversa ao sentir o aroma azedo
Da cerveja estragada no fundo das garrafas quase vazias e a companhia pouco simpática
De outras barbas, eu quase, sentado a consumir-me em copos de plástico, tremendo com as
Chamas das velas ao vento das saudades e uma quase hipocrisia por falar sozinho com a
Memória de quem, espero, me dê o adiamento e a força inata, já que nasci de pouco
E para quase nada, para acabar numa noite de luar, longe disto tido, no lameiro
Daquela macieira onde me arrancaram, hoje tenho amigos poetas, pouco me conheço,
E tenho dias em que quando acordo, demoro horas a encontrar-me por entre os papéis
Manchados pela chuva e pelo carvão do sofrimento adiado pelo medo de mais um
Momento inútil e perdido, para sempre, ao lado do lugar onde esteve a macieira, para nunca
E até sempre, numa garrafa de vinho bordeaux, lá para os lados de Django Reinhardt e dos tios
De França, porque tantas vezes o que procuras é apenas o inesperado, como o sabor daqueles
Gauloises à beira do rio da aldeia, de madrugada, com os pés cheios de vinho tinto e língua
Destravada, pronta para confissões lançadas para a fogueira purificadora da felicidade.
Turku
30.04.2014
Aproveitamos para recomendar vivamente o mais recente livro de João Bosco da Silva, Trepanação de Jerónimo Bosch, publicado pela Mariposa Azual em Abril de 2015. Pedidos por aqui.
Obelisco
/Não há
sem abrir concessões
descidas nem subidas
passando o obelisco
houve um dia e ali estavam
não são
as tuas vantagens
elas se contam no relógio se contam
em elogios
eu preciso abrir uma garrafa com um estaleiro dentro
eu preciso de um projeto a salvar nossas vidas
não há dois pontos que poderemos usar de argumento
-eles se amontoam-
-eles se calcificam-
Exceto o dois pontos de uma linha de ônibus voltaria a dizer a linha o caminho mais curto
entre dois pontos
não há não
são não
dão
A noiva do tradutor (um excerto)
/A velha sorri-me, a palavra não me sai da cabeça, kartofler, maldição para tudo isto, porque é que não penso em Helena agora, neste instante, e sou perturbado por tanta estupidez, coisas inúteis, é de bradar aos céus, um suplício, nasci na época errada ou poderia ter sido uma figura da mitologia grega, um deus caído em desgraça, o salvador da humanidade condenado a eternamente sofrer diante do absurdo, uma gigantesca pedra que rolo, carrego às costas, tudo em mim quer explodir, tremo de frio, a água escorreu-me pelo pescoço, o chapéu no eléctrico, sabe-se lá onde estará agora, terei de averiguar isso.
– Mas é claro, tudo para agradar os meus hóspedes! Ah, isto não é um verdadeiro negócio, mas sim uma família, não há quem mais bem trate aqueles que acolhe sob o seu tecto.
Uma alma radiante a desta senhora Lucrécia, trata-nos como família, sem dúvida, acolhe pobres desamparados sob o seu tecto, desde que lhe paguem o devido a tempo e horas, não se lhe pode exigir mais do que isso, é certo, a velha afasta-se alguns passos e, com uma das chaves que traz presas num molho atado à larga cintura, abre uma gaveta, tem lá dentro dúzias de velas.
– Tente poupá-la, por favor, estão ao preço do ouro e já é a segunda que lhe dou esta semana.
– Bem sei, dona Lucrécia, mas tenho de trabalhar, um homem tem de ganhar a vida!
– Sim, essa sua ocupação é muito desagradável, consome-o. Nunca pensou em procurar outro trabalho, algum em que tenha de sair de casa, ficar num escritório todo o dia, numa loja, aí o patrão paga-lhe o ordenado e as velas!
– Quem sabe, dona Lucrécia, talvez um dia, tenho pensado nisso mas esta é a única coisa que sei realmente fazer, não sou forte de braços, a bronquite ataca-me muito, mas pode ser que na Primavera, depois das chuvas…
Dona Lucrécia sorri em aprovação, eu afasto-me lentamente enquanto falo, tenho já um pé no primeiro degrau, ela lança-me ainda palavras esbaforidas.
– O almoço será uma delícia, já o estou a preparar.
– Obrigado, dona Lucrécia. Diga-me, por favor: que horas são?
– São agora precisamente oito e meia.
– Muito obrigado, dona Lucrécia, é uma fonte de inesgotável sabedoria. Só uma última coisa…
A velha aproxima-se, eu debruço-me sobre o corrimão, estou curvado no segundo degrau, molho o tapete, todo o meu corpo escorre água, tirito de frio, não consigo evitá-lo, é mais forte do que eu, terei de consultar um especialista sobre estes fenómenos, terá de existir uma explicação, a gorda viúva estica o pescoço, aproximo o meu rosto, sinto-lhe o hálito dos pesados assados de domingo, ainda não os digeriu, a noite não foi suficiente, ela aguarda ansiosamente, eu grito-lhe ao ouvido.
– Kartofler, kartofler, kartofler!
Dona Lucrécia olha para mim incrédula, não sabe o que dizer, o ouvido provavelmente retine ainda, sofreu sob o meu grito, que hei-de fazer, não controlo tudo o que se passa no mundo, o meu corpo faz parte dele, não há como o dominar por completo, nem sequer em parte, estou aliviado, sinto-me muito melhor, a maldita palavra não me saiu da cabeça, não recordo o que significa, porém, soltá-la bem alto parece ter ajudado, quebrou um feitiço que tinha sobre mim, hesito diante do rosto da velha, ela não fala, eu ainda menos, decido subir rapidamente as escadas e falar sobre o ombro.
– Obrigado, dona Lucrécia, Deus lhe pague! Foi um alívio, acredite-me. Vemo-nos ao almoço.
Subo as escadas a correr, a vela na mão, não olho para trás, a minha senhoria estará ainda pasmada ao fundo da escadaria, todos os degraus gemem sob os meus pés gelados, retiro a chave do bolso das calças, a minha mão continua uma pedra, os dedos mal se mexem, abro a porta, estou de volta ao meu quarto, tremo de frio, não tenho aquecimento, apenas uma cama, uma cadeira, um armário, uma secretária cheia de papéis e livros, um alguidar com água, já me basta de água, pouca luz entra no quarto, fecho a porta, atiro a chave e a vela para cima da cama, que frio está aqui dentro, um homem trabalha para isto, vive uma vida triste, miserável, atura imbecis o dia todo, nem um pouco de calor recebe ao voltar a casa, começo a despir-me, tiro uma toalha lavada do armário, seco o corpo, que frio, nunca mais aquecerei, talvez morra aqui, já sinto a pneumonia, sim, afecta-me, arderei de febre até à morte, dona Lucrécia não chamará o médico, tem medo, pode ser ela a pagar, não, daqui só saio num caixão, sinto vontade de tossir, a doença é galopante, fulminante, estou todo nu, só a toalha me protege, a chuva cai agora mais esparsamente, o céu aparenta querer clarear, sim, vê-se o sol romper entre as nuvens, estivesse eu na rua e talvez assim não fosse, o universo conjuga-se para me matar, não tenho sorte, o infortúnio persegue-me, em vez de nascer iluminado por uma estrela, o meu nascimento foi acompanhado de um corno, um grande corno de boi, retorcido, branco e negro na ponta, que absurdo, não sei em que penso, a palavra volta, o alívio foi temporário, será que ela se sente bem?, o mar estará revolto, ela nunca andou de navio, ainda tem tantos dias de viagem, meu Deus, morrerei aqui, tenho de me vestir, ninguém olha pela minha saúde, tenho o estômago vazio desde o jantar de ontem, nada comi na rua, sinto-me fraco, visto roupas secas e esfrego o cabelo com a toalha, meto-me na cama, tapo-me com os cobertores, pela janela entra a luz de um sol tímido.
A Noiva do Tradutor de João Reis estará disponível na primeira quinzena de Maio, sob a chancela da Companhia das Ilhas.
