A Morte de António Lobo Antunes

Tropeço Em Crónica

 

Despejavam-se os sacos de roupa no chão e o que mais me incomodava

Era o cheiro a estranho, aquele cheiro típico que é uma mistura da dieta,

Do detergente da roupa, do sabão, dos perfumes, da actividade física

E outros hábitos nocivos, aquele cheiro como uma assinatura,

Como os cheiros a casas alheias, ou até da própria depois de uma ausência prolongada,

Eram calças, camisas, camisolas, t-shirts, quase tudo números acima,

Teria que se esperar por mais uns centímetros de carne e osso,

Isso mais uns meses e dás um pulinho, no calçado colocava-se algodão nas biqueiras

Para não incomodar o ar com as unhas, não me lembro de cuecas,

Já chegava andar com o cu das calças de bombazina roçado por outro cu,

Já bastava aquele cheiro que parecia indomável ao sabão e à água fria do tanque de pedra,

São coisas boas, caras, de marca, e até eram, as peças rejeitadas dos senhores doutores,

Dos emigrantes, dos das cidades grandes, o pedaço de pão que não se acaba por luxo

E se atira aos pombos, mas era uma esmola sempre paga, batatas, azeite, vinho,

Um agradozinho para fazer o papel de pobre, a mim restava-me a vergonha

De se me descalçar um sapato ao andar ou que o antigo cu reconhecesse as calças

E tropeço agora numa crónica do António Lobo Antunes na qual me dou conta

Que fui, sem o ser, um pobrezinho de estimação.

 

Turku

24.01.2017

 

 

 

(A)Parições

 

“a quantidade de criaturas que a nossa destruição vai destruindo uma a uma”

António Lobo Antunes

 

Nascemos em tantos lugares, de tantas formas, para morrer apenas uma definitiva vez,

Num último lugar, nascemos num primeiro beijo, de um olhar espelhado,

Nascemos quando entramos pela primeira vez no desejo de alguém, nascemos na mão

Que aperta a nossa pela primeira vez, nascemos num mergulho no espelho,

Num garfo cheio e estranho que nos explode na língua, nascemos nas asas de uma gaivota

De água doce que nos persegue até de madrugada numa noite branca, nascemos na timidez

Que se ultrapassa num salto e numa gargalhada quase louca, nascemos na queda da pele

Queimada por um Sol equatorial ou nas gotas inesperadas do suor Árctico de uma pele dourada,

Nascemos no gole lento e na sua descida apressada, no calor que se dissipa em nós,

Nascemos no céu de Verão à noite, entre as estrelas no espaço vazio entre a ilusão e o sonho,

Nascemos a cada momento que esquecemos, a cada palavra que nos salva e poderá ser

Sempre a última, este é o útero que nos gera, onde fermentamos, amadurecemos

E amargámos, é o teu berço e todas as faces são a tua, todas as camas a tua,

Todas as portas são apenas um nome, outro nome e outra história, o mesmo fim.

 

Savonlinna

22.06.2015

 

 

Enquanto O Sono Não Vem

 

“de que serve o passado, não temos a certeza se existiu ou nos deram imagens que amontoamos na esperança de conseguir o que se chama vida.”

António Lobo Antunes

 

Já quase nada me comove, as mortes passam por mim e fica apenas um nome a latejar

E um esforço em focar uma cara, confio que trago comigo o essencial daqueles que são

Em mim e não me desiludirão mais, já quase nada me faz engolir sem excesso de saliva

Na boca, uma criança que chora é apenas um aborrecimento, os anos fazem disto,

O uso e abuso tornam tudo duro, deixam calo, no entanto uma lata onde uma garrafa

De whisky há muito bebida morou, comove, bebi dela às escondidas com o amigo

Dos olhos azuis quando ainda garoto, e dentro daquela lata agora os tesouros da minha avó,

Que apesar de não reconhecer muita gente, me viu por trás da barba e dos cabelos brancos,

E tu como é que andas com essa barba, não acreditando que eu já trinta, naquela lata,

Cheia de amolgadelas e com ferrugem onde lascou a tinta, tudo o que restou de uma vida

Modesta em posses, um crucifixo onde se lê, terra de Fátima, numa cápsula pequena,

Um rosário dado pela amiga que não pode ser ela porque velha, um lápis amarelo staedtler

Mal afiado, usado para escrever o nome nos espaços em branco dos jornais da região,

De onde me lê alto o título de notícias antigas, um jornal mais que informação efêmera,

Conserva-os para treinar uma capacidade adquirida com quase oitenta anos,

Na lata ainda, dois carrilhos de linhas, um preto e outro vermelho e uma agulha que se perdeu,

Um molho de medalhas de santos que se tornou demasiado pesada para andar ao peito,

Travessas para o cabelo, algumas sem dentes, um cartão com a imagem da Senhora da Serra

E uma oração por trás com letra miudinha, dois elásticos brancos que servem de ligas

Para as meias de vidro, e a família toda, fotos de gente que ainda não era gente

E da que já não é, todos felizes, onde se esconderá a tristeza e a miséria nas fotos de família,

O meu avô ainda não bêbado, ninguém doente, ninguém morto, a vida ainda não cansada

De ninguém e ninguém cansado da vida, já quase nada me comove, mas depois abre-se

Uma lata contra a dureza dos anos e aquele tão pouco, sendo tudo, mostrando-me

O último esforço da memória em se agarrar aos objectos que restaram, quando a vida

Uma paisagem longínqua por trás das costas, e naquele lápis o mundo todo enquanto o sono não vem.

 

Turku

20/08/2015

 

 

Advertências Tropicais 

 

Podia falar de Lisboa, mas apenas dois ou três amigos e umas noites raras, 

Que parecem ter sido um sonho estrangeiro, podia falar de como gosto 

De trazer comigo o António Lobo Antunes para a beira de doenças tropicais, 

Nórdicas queimadas do Sol com um fogo que de dentro se apaga, 

Mas hoje prefiro falar do perigo que é deixar russas à vista das aves de rapina, 

Corujas sorridentes, filhos do sul e de Janus, forjados a chico-espertismo 

E pasteis de nata, o amigo nórdico piscou um olho, quando os dois abertos, 

Um esvoaçar violento, um espasmo de rapto e a russa de papo cheio 

Sacode a areia dos joelhos enquanto o mar desenrola histórias futuras. 

 

Canggu 

10.02.2019 

 

O Cemitério Somos Nós

“pobres girândulas finais dos destinos anónimos.”

António Lobo Antunes

 

O cemitério somos nós, enchemos num dia de chuva, todos os papéis

Que se perderam, todos os sorrisos que se lavaram, todos os nomes

E acima de tudo, todos os que nos foram e aqueles que não quiseram

Que fôssemos neles, todas as portas fechadas com flores podres à entrada,

Os autocarros que partiram para a felicidade que se lhes imagina

E os que ficaram avariados nas garagens colonizadas por aranhas,

Todos os porcos nas manhãs geadas e o sangue quente a fumegar

Nos olhos dos vivos que fogos fátuos no verão, todos ao cemitério

Num dia de chuva entre dias quentes, todos os amigos a quem

Lhes falhou o tempo ou a vontade ou a vida, todas as curvas da estrada

E dos rios, todas as noites estreladas e as manhãs do mergulho no nevoeiro

Em direção aos bons-dias sempre quentes sem ponta de nariz,

O cemitério somos nós, onde todas as cidades convergem e se esmagam

Todas as ruas os mesmos segredos, cada árvore um gemido de madrugada,

Cada sonho uma derrota acordada, e todos os lábios nos olhos fechados

Em forma de lápide que muda de cor sob o céu que se desfaz numa tristeza universal.

 

16.06.2016 

Turku

 

 

A Poupança Das Lágrimas

Custa a acreditar que aqui alguém chore, à noite há animais que o fazem pela gente
E de dia o Sol não permite certos desperdícios, mesmo quando tentam decifrar
O sentido da vida nas sombras vertidas pelo sangue seco fora. O António Lobo Antunes
Fala de uma África de gotas ou pingos em lábios de musgo, os joelhos falam mais que gente
E lágrimas as dos outros, os que ficaram com o vazio das que sem mais tempo,
Cortado a catanadas, granadas e a alemã passa, numa frescura quente de ancas fartas
Numa proporção de tesão fácil e diz-me com o azul loiro dos seus olhos, que à noite,
Na tenda que faz de casa de banho, escondidos na vibração de uma cidade febril,
Quando se calarem as desgarradas dos profetas e o pecado souber a animalesco
E se apague na descarga de um autoclismo, como se lágrimas poupadas,
Levando com elas o papel higiénico do gesto apressado, quase um desprezo
Depois da carne que fica nos dentes, um incómodo a presença e um beijo mais
Que um adeus, desaparece, até nunca, mas obrigado na mesma pelo alívio das lágrimas
Que não pingam, explodem espessas nas nádegas rosadas e anónimas, que o Sol
Não permite certos desperdícios e os animais que se envergonhem também
Da marca branca no anelar, promessas de metal numa ironia preciosa que se escondeu.

26.02.2012
Nairobi



Boca Cheia

 

Noites perdidas no sono inconsolável

De nostalgias inúteis como as folhas

Apodrecidas aos pés de nórdicos gigantes

Hibernados numa longa noite sem recreio,

Vira o disco e toca o mesmo cinzento

Denso que um dia inspirava liberdades

Mais abertas que ceder à verdadeira vontade,

As restrições de mão na porta

E outra na carne que se rouba por despeito

Numa oração de murmúrios viscosos

À perdição de uma alma que nunca

Nos foi verdadeiramente limpa,

Cair por fim despejado nas saudades

De um pó quase dourado de uma familiar

Encruzilhada rodeada de figueiras oliveiras videiras,

A esta distância o verão parece a impossibilidade

Da juventude e engolem-se remorsos

Como sonhos mãos vazias desejos inapagáveis.

 

Turku

02.12.2025

Florzinhas de Estufa

São tudo saudades, portugal, ou memória curta,

Esse ódio carunchoso a tudo o que é outro,

Mais frágil quando na verdade igual, porque há estrangeiros

E estrangeiros, a uns beija-se o cu de bom grado,

Com olho no que brilha, tentam espremer-se ao máximo

Os barracos e as ruínas, o very typical, o provincianismo

Urbano como autenticidade, sempre orgulhosos

Do grandioso passado de descobridores do descoberto,

Sem nos dignarmos a esconder os nomes das ruas

Da vergonha, esclavagistas que detestamos quem

Nos alimenta a preguiça e a boa vida,

Adoradores de chico-espertismo e chauvinismo,

Racistas por ódio ao próprio sangue, machistas por sensibilidade

E tradição, não há maior florzinha de estufa que um fascista,

Tudo o incomoda, o pior é a paz dos outros, a felicidade então,

Deixa-o cego de raiva, só o eu está certo, cego, virado para dentro,

Se pudesse enrababa-se a ele mesmo e tinha pequenos

Clones fascistas, o outro é tudo o que está mal na sua vidinha,

Para quem só vê o próprio umbigo, esquece-se de olhar o espelho

E ver que o problema, na verdade, está nele, fechado

Na saudadezinha com cheiro a mofo, criando a realidade

Mentira a mentira, esfolando um pobre bode de cada vez,

Até que, sem se dar conta, no fim, só sobra ele e a faca na mão

Do adorado líder, o tal que dizia as verdades ou o que se queria ouvir,

Até ser a hora de se tornar, inevitavelmente, também ele no outro,

E afinal, a falange que julgava ser, apenas mais carne para canhão.

 

11.06.2025

 

Turku

 

Haikus

Relâmpago –

No vazio de um balde

Água esquecida

 

Shiki

 

 

também na solidão

existe felicidade –

crepúsculo de outono

 

Buson

 

 

ave engaiolada

olhando invejosamente

para as borboletas

 

Issa

 

 

mal chega para cobrir

merda de cão –

primeira neve

 

Issa

 

 

ignorando a morte

contudo todos nós

temos que morrer

 

Betenshi

 

 

deixando para trás

todas aquelas preocupações ­–

dia de folga

 

Yasui

 

 

diospiros tão verdes

que nem os corvos

os olham

 

Bokusui

 

 

metido todo

cinco ou seis polegadas

sentem-se como um perfeito dez

 

Kikô

 

 

na pequena ameijoa dela

a quente malagueta dele –

brincar às casinhas

 

Shōki

 

 

sabem os céus e a terra

toda a vizinhança sabe

só os pais dela não sabem

 

Shishōshi

 

 

numa beldade

nem mesmo a rata

mete nojo

 

Yashû

 

 

vindo-se de verdade

a servente

irá guinchar como um porco

 

Konjin

 

 

do buraco nasces

no buraco gozas

para o buraco irás

 

Aryū

 

Traduzido do inglês, a partir do “The Penguin Book of Haiku” (Penguin Classics, 2018)

Fermentações

Trincar as romãs abertas

tocadas pelo orvalho –

manhã de Outubro.

 

Antes do longo sono

as folhas aproveitam

o último Sol.

 

Terão também emigrado

as rãs do poço? –

verde silêncio.

 

São agora os únicos

moradores do poço –

peixes cor-de-laranja.

 

Quem terá à noite

deixado diamantes

sobre as couves?

 

Florescem agora

as flores de alecrim –

folhas caídas.

 

Sobre o verde musgo

brilha o sol –

manhã de Primavera?

 

Pedra sobre pedra

sonho sobre sonho –

a universal queda.

 

Como flores abertas

as romãs

ao sol orvalhado.

 

Ignorando a roupa estendida

a borboleta

chega ao alecrim.

 

Vinda das pequenas mãos

a primeira oferta

é uma flor de alecrim.

 

Onde foram as montanhas

que vi

ao amanhecer?

 

As montanhas que vi

ao amanhecer

onde agora?

 

A mimosa secou

chegou à rocha

ou à hora.

 

As uvas esperaram

a chegada de longe

agora secam na videira.

 

Na pipa de castanho

o vinho novo

aos poucos adormece.

 

No pipo de castanho

o vinho novo –

não tardam as castanhas.

 

No dedo queimado

pulsa a lembrança

do pequeno descuido.

 

Ao lado da vinha nova

a minha nova vida

e eu.

 

Para uma próxima volta

seca ao sol

a dorna.

 

Canta o galo –

há horas

as carícias da bebé.

 

Pequenino toque na couve –

gotas de orvalho

como estrelas dançarinas.

 

Lenha queimada

no ar da vila –

anoitecer de Outono.

 

Acordam as lareiras

da vila –

manhã de Outono.

 

Ainda à sombra

da videira

uvas e moscas.

 

Não cheguei a tempo

das amoras –

vinho na barrica.

 

Túmulo de pedra

quebrado

pelo arcaico progresso.

 

Como a juventude

é agora o mosto

apenas uma memória.

 

Cães à solta

nas ruas da vila –

liberdade ou abandono.

 

Lava-se a pipa

à sombra

do fantasma do negrilho.

 

Onde ficou a juventude

da vizinha

que vem das compras?

 

Na mão da bebé

o trevo

tem outra sorte.

 

No colo da avó

prova o mundo

a bebé jardineira.

 

No monte

vestígios da infância

cobertos de musgo.

 

Enquanto componho um haiku

o velho carteiro

lavra um olival.

 

À beira deste lago temporário

o silencioso eco

de quem me acompanhou.

 

Quanto muito

seremos ecos

uma pegada ilegível.

 

Na companhia das moscas

e do silêncio

despeço-me deste Sol.

 

Em cima desta fraga

volto a ser

inteiro.

 

Antes do longo inverno

uma última visita

da primavera.

 

São estas as ondas

que procuro

nos estrangeiros mares?

 

Torre de Dona Chama

 

Uma a uma

acordam as chaminés

da aldeia.

 

No monte

retalho dourado –

manhã de Outono.

 

Ao meu colo

dorme a bebé –

alguém corta lenha.

 

Folhas caiem

cabelos empalidecem

dorme e cresce a bebé.

 

Lenha cortada

bebé acordada –

Sol de meio-dia.

 

Sobre o livro do mestre

a chupeta

aguarda o despertar.

 

A carrinha do pão

chegou –

aldeia reunida.

 

À sombra da figueira

o avô

colhe cogumelos.

 

Pergunta-me o nome

dos dióspiros

ainda verdes.

 

Antes que o orvalho

evapore

lavo os olhos.

 

Dorme ainda a aldeia

ou manhã quente –

chaminés sem fumo.

 

Preferes o ruim?

“Não! Gosto de dar

O melhor aos outros.”

 

Nas couves orvalhadas

o Sol da manhã –

memórias e nostalgia.

 

“Ao descer deste caminho

sente-se a brisa

como no mar.”

 

“Valha-me deus”

grita a beata –

será penico entornado?

 

Contra o vidro da janela

a vespa asiática

dá uma cabeçada.

 

Folhas amarelas

e roupa estendida –

Sol de Outono.

 

Numa ilusão de infinito

fundem-se três cores –

anoitecer de outono.

 

Rodeado de crucifixos

hoje neste quarto

durmo sozinho.

 

Cidões

 

Dissipa-se aos poucos

a neblina –

dia de meditação.

 

Em breve secarão

estas malaguetas

à lareira.

 

Como um marmelo maduro

a bebé ao colo –

tarde de Outono.

 

No tanque da roupa

o cheiro a sabão

lava-me os cabelos brancos.

 

Torre de Dona Chama

 

Outubro 2024