João Bosco da Silva, Um Tropeço nos Dias Quentes

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João Bosco da Silva

Um Tropeço nos Dias Quentes

poesia

Enfermaria 6, Lisboa
Julho de 2019, 108 pp

Capa de Gustavo Domingues E StudioPilha

10€


As geadas tornaram-se numa memória quente, enquanto o copo aquece,
Longe, perdido, onde só o cabelo e as unhas crescem, sem caixa e pena
E flores secas, velas, por favor, missas, até o nome se tornar um tropeço nos dias quentes.


João Bosco da Silva

João Bosco da Silva nasceu em Bragança (1985). Passou a maior parte da sua infância e adolescência em Torre de Dona Chama. Estudou no Porto. Vive na Finlândia. 

Livros de poesia: Os Poemas de Ninguém (Atelier, 2009), Disse-me António Montes (Mosaico de Palavras, 2010), Bater Palmas E Sete Palmos De Terra Nos Olhos (Mosaico de Palavras, 2011), Saber Esperar Pelo Vazio (Mosaico de Palavras, 2012), Destilações (não edições, 2014), Trepanação de Jerónimo Bosch (Mariposa Azual, 2015), Teoria da Perdição Unificada (Enfermaria 6, 2017).

Algumas participações em antologias e revistas:  Revista Inútil n.2, Meditações Sobre O Fim, HARIEMUJ,  Voo Rasante, Mariposa Azual, Caderno 3, Enfermaria 6, Flanzine 8 - Lol&Pop, Flan de Tal, Bukakke, Copus Dei, Persona, do lado esquerdo.

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La Femme d´Argent 

Hoje escrevi o primeiro poema de Maio e o céu tem a cor daqueles dias tristes 
Dos quais tenho saudades, chovia também nesses dias e as gotas escorriam 
Pelos vidros da Mitsubishi ao ritmo de Mike Oldfield, encostava a cabeça 
E tudo me sabia a mercúrio frio e às pocilgas na Espanha fronteiriça, 
Contudo tinha as mãos vazias e jovens e havia satisfação naquilo tudo, 
Saber que ia morrer, cair num vazio absoluto e que o mundo passaria bem sem mim, 
Que rico me sentia com aquela aconchegante tristeza, 
Aquela verdade que ninguém parecia ver, na cor do céu, em cada sorriso 
A promessa de uma lágrima, muros de pedra ao vento numa aldeia deserta, 
Cujas mãos construtoras há muito uma fotografia apagada pelo sol no cemitério, 
E o poder de acabar isto tudo na sorte e na vontade que esmaga todas as outras, 
Acabar um universo com um murro num espelho de guarda-fatos carunchoso, 
Escrevi o primeiro poema de Maio, engolindo a tristeza sem razão, 
Não culpo o céu de chumbo, o peso do ar entre os goles de cerveja, 
Quente, não culpo a evidente verdade há muito coberta pelo cotão dos bolsos, 
Culpo esta camada fininha de gordura que me reveste a alma 
E me impede de lamber o sabor o cinzento como prata, 
Se algo me falta é a miséria, daí me sentir, talvez, miserável ao Sol de chumbo. 

Turku 


26.05.2019 


Primavera Fria - Haikus


Como o amor 
as nuvens —
certeza de precipitação. 

Que sabem as flores 
do vento 
de tempestade? 

Enquanto se espera 
pelo verão 
secam as flores. 

Num canto escuro 
secam as batatas —
batateiras em flor. 

Cheira a madeira 
ferro e terra —
meu esperma imberbe. 

Vazio o regador 
espera 
os dias secos. 

Cresce apenas o silêncio 
e o vazio dos pipos —
aldeia. 

O verde cheiro 
da infância —
chove. 

Torre de Dona Chama, Abril 2019

Fallout

Não é de ti que tenho saudades, mas das ruas escuras das aldeias
Quase desertas e do cheiro a cona nas casas abandonadas,
Os dedos fatigados pela cerveja empurrada na solidão dos tascos,
A entrar na inocência sem lhe tocar, porque está tudo perdido
Antes da evidência das portas dos carros a trancar verdades submissas,
Têm passado anos sobre mim e só tenho ganho o cansaço
Que cada nome me planta nas têmporas geadas pelas manhãs perdidas,
Que segredos te poderia contar, se não fôssemos só carne e fome,
E sonhos contrariados de joelhos, hóstias e penitência,
A primavera é o cheiro que fica no mento imberbe e sedento,
Quando os joelhos se juntam em direcção a um tecto quase ruína,
Não é de ti que tenho saudades, mas das palmas abertas
Revelando ao luar o caminho até ao oblívio azedo dos dias quentes,
O pecado emprestado à festa da terra, o granito que rasga melhor
Que qualquer beijo, com ou sem vontade, a pele que cede, sempre.

Turku

08/04/2019

Seis Juncos


1.

Na relva o gato
descansa
os anos futuros.

Embalado pelo vento
balança vazio
o baloiço enferrujado.

Dois garotos
na água - 
eu nenhum.

Um mosquito
pica-me - 
obrigado amigo.

Esta mesa onde escrevo
tive-a já
em sonhos.

Logo a água esquece
os barcos
que passaram.

Nunca me deixou ficar
a água que
pelo corpo passou.

Tanta carne
familiar
onde não entrei.

Uma mesa à janela
virada para o mar - 
um tesouro.

Este céu que vejo
o mesmo 
onde adormecemos longe.

Quase se revela
a Lua
e já seca o esperma.

A pequena bandeira
tão estrangeira
como as outras.

Indiferentes os mosquitos
voam por entre
as gotas de chuva.

Tantas voltas
para se acabar
na mesma escuridão.

Kaskinen, Agosto 2018

2.

A caminho da montanha
sempre 
o verde.

Não esperes a borboleta
enquanto a vaca
pasta.

Pela estrada fora
sempre
enquanto há pernas.

Ignorando as nuvens
as vacas
pastam.

Desconhecendo distâncias
o abraço eterno
das montanhas.

Debaixo da macieira
a sombra vazia
espera.

Sob a macieira
espera
a sombra.

Cheira a estrume - 
primeira
felicidade.

Cheira a estrume
a infância
tão verde.

Música de incontáveis
chocalhos
na montanha.

Mil aldeias
pequeninas - 
tocam os sinos.

Que jovem
a eternidade
dos homens.

No pequeno ribeiro
corre a vida
toda.

Esta partida
para lado nenhum -
vida.

Sem a memória
dos olhos
as pedras mudas.

Suíça, Agosto 2018

3.

O mar apaga
os corações
desenhados na areia.

Escritas na areia
as promessas de amor
que o mar apaga.

O azul que não coube
nos teus olhos - 
o mar.

Quando pequeno
as cidades
como as ondas.

Grão de areia
um aborrecimento
como o tempo.

Este grão de areia
toda a minha
vida.

Numa mão cheia
de areia
toda a humanidade.

Também o pôr do sol
um punhado
de areia.

Moledo/Vila Praia de Âncora, Agosto 2018

4.

Voam as libélulas
a hipocrisia
afoga-se no vinho.

Nesta casa pequena
podia haver
mais um copo.

Sempre difícil partir
quando se chega
tão pouco.

Não tentes apagar
o que não podes
esquecer.

O poeta escreve
na máquina - 
estão a fazer pipocas.

Canta um galo
e regresso
verdadeiramente.

Ainda os lagares
tão vazios
e as moscas desesperadas.

Ao Sol da manhã
não precisa de açúcar
o café.

O deslumbramento 
dos tolos 
fascina-me.

Quem cortará
o presunto - 
vespa no dedo.

Aberta a melancia
sobre a mesa - 
quem a esqueceu?

Longe, tudo
sempre - 
a vontade.

Pastam as mulas
o Sol
que a terra guarda.

Tantas portas
se abriram 
pela fome.

Enquanto parto
três juncos
o rio passa.

A vespa pica
até as mãos
mais inocentes.

Em frente ao rio
de joelhos
nasce um haiku.

Passa o rio
com ele
nós também.

Quantas vezes
só o exosqueleto
parte.

Cidões, Agosto 2018

5.

Só a fome
não esquece
os amigos.

Sempre do mesmo tamanho
aos olhos
de uma mãe.

Cantam os grilos - 
quantos anos
perdidos.

Noite de Lua Cheia -
tudo o perdido
o que somos.

Houvesse silêncio
para escutar
os grilos.

Basta o luar
para iluminar
este caminho.

Não temas
o esquecimento
pouca a máquina.

Não percas tempo
comigo - 
ouve os grilos.

Nos grilos
a voz
da eternidade.

Sê constante
como o luar
e os grilos.

No canto dum grilo
não cabe
o orgulho.

Resiste-se a tudo
menos
à má vontade.

Chove sobre
a terra quente -
renascer.

Cai a chuva
sobre a terra quente -
pescoço de mulher.

A tua pele dourada
gotas de chuva
sobre terra quente.

Na língua a tua pele
dourada -
chuva de verão.

Mijar à chuva
acrescentar nada
ao resto.

No rumor da brisa
nos pinheiros
a infância ainda.

Alguém racha lenha
na canícula - 
inverno tão longe.

A minha fé
pelas rochas
toscas.

Na pedra intocada
pelo homem
a minha devoção.

Torre de Dona Chama, Agosto 2018

6.

Que familiar cheiro
o daquele corpo
estranho.

Mais um ano
acabado - 
fim de verão

Turku, Agosto 2018