Vestido Azul

“There´s things I wanna talk about, but I´ll just let you live”

Lana del Rey


Não há nada mais triste que acordar com o sabor
Da tua silhueta recortada pelo Sol através daquele vestido azul,
Nunca saberei se também tu, voltaste a sonhar comigo,
As tuas mãos nas minhas, antes de qualquer poesia,
Acordar depois de termos brincado no chão da sala da casa
Onde nunca entraste e já pouco me encontro nas fotografias,
Eu debaixo de ti a assegurar-te que só amigos
E da tua boca as palavras da minha vontade,
E se te fizesse um broche, cai uma carta pesada no chão
E acordo, um catálogo qualquer, maldito carteiro,
Aquele bater no chão como quando li a tua última carta,
Só amigos, e acordo, cai-me algo que nem sabia que tinha,
Nem vi sequer o que era, as mãos nunca me pareceram
Tão vazias, sabendo que nunca mais os teus dedos longos
Entre os meus, quanto dedo no cu, nenhum teu,
Acordar sempre, até ao adormecimento último,
Com a poesia no lugar de um amor no qual só os sonhos acreditam.

Turku

10.09.2019

Vestido Vermelho 

 Nunca serás aquela loira de vestido vermelho a desaparecer na distância 

Como uma brisa fresca, apesar dos quase quarenta graus atenienses, 

Nunca terás todos os nomes possíveis, nem serás a manic pixie dream girl 

Que o tempo desfez, ama-se mais a ilusão que a verdade, 

Nunca te vi de vestido sem estares toda cinzenta, uns minutos e depois, 

Não tu,  um sol impossível nos metálicos invernos nórdicos, 

Nunca serás o que te sonhei, mas a culpa dos sonhos é de quem os sonha, 

Não de quem com um olhar, planta ilusões, que crescem em vazio, 

Maior ainda do que antes da semente, nunca serás aquela loira de vestido vermelho, 

Porque os filmes acabam sempre antes do roer das unhas se entranhar nos nervos, 

Antes do nome carregar toda a frustração e desprezo que os pós-créditos trazem, 

Se se esperar tempo suficiente, nunca serás aquela loira de vestido vermelho, 

Mesmo que tenhas sido aquela loira de vestido vermelho, mesmo que isto 

Quase seja um poema de amor, que nunca será, porque tudo uma vela curta, 

Numa noite de incêndio. 

 

Atenas 

 

09.07.2019 

 

Essi

 

 

inspirado no poema "Lisa" de Roberto Bolaño, 

 

 

Mal acabamos de foder, disse-me que tinha estado com outro 
Havia dois dias, um gajo que conheço, já o tínhamos feito antes, 
Só te digo porque não quero que haja dúvidas, 
Não éramos namorados, mas tínhamos fodido 
Nas últimas semanas, saído juntos e quase feito amor, 
Naquela noite saí da cama e fui deitar-me no sofá do outro lado 
Do quarto, ela perguntou se eu queria que se fosse embora 
E eu disse que não, às tantas ela atravessa a escuridão 
E deita-se ao meu lado envolvendo-me num abraço, 
Como se me amasse, não percebi que dúvidas ela queria esclarecer, 
Eu virado para a parede, entre o desejo e o ódio,  
Sem saber por qual me deixar dominar, apenas com uma certeza, 
Que nada magoa mais que a honestidade crua do que amamos.  

 

Turku 

 

08.08.2019 

João Bosco da Silva, Um Tropeço nos Dias Quentes

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João Bosco da Silva

Um Tropeço nos Dias Quentes

poesia

Enfermaria 6, Lisboa
Julho de 2019, 108 pp

Capa de Gustavo Domingues E StudioPilha

10€


As geadas tornaram-se numa memória quente, enquanto o copo aquece,
Longe, perdido, onde só o cabelo e as unhas crescem, sem caixa e pena
E flores secas, velas, por favor, missas, até o nome se tornar um tropeço nos dias quentes.


João Bosco da Silva

João Bosco da Silva nasceu em Bragança (1985). Passou a maior parte da sua infância e adolescência em Torre de Dona Chama. Estudou no Porto. Vive na Finlândia. 

Livros de poesia: Os Poemas de Ninguém (Atelier, 2009), Disse-me António Montes (Mosaico de Palavras, 2010), Bater Palmas E Sete Palmos De Terra Nos Olhos (Mosaico de Palavras, 2011), Saber Esperar Pelo Vazio (Mosaico de Palavras, 2012), Destilações (não edições, 2014), Trepanação de Jerónimo Bosch (Mariposa Azual, 2015), Teoria da Perdição Unificada (Enfermaria 6, 2017).

Algumas participações em antologias e revistas:  Revista Inútil n.2, Meditações Sobre O Fim, HARIEMUJ,  Voo Rasante, Mariposa Azual, Caderno 3, Enfermaria 6, Flanzine 8 - Lol&Pop, Flan de Tal, Bukakke, Copus Dei, Persona, do lado esquerdo.

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La Femme d´Argent 

Hoje escrevi o primeiro poema de Maio e o céu tem a cor daqueles dias tristes 
Dos quais tenho saudades, chovia também nesses dias e as gotas escorriam 
Pelos vidros da Mitsubishi ao ritmo de Mike Oldfield, encostava a cabeça 
E tudo me sabia a mercúrio frio e às pocilgas na Espanha fronteiriça, 
Contudo tinha as mãos vazias e jovens e havia satisfação naquilo tudo, 
Saber que ia morrer, cair num vazio absoluto e que o mundo passaria bem sem mim, 
Que rico me sentia com aquela aconchegante tristeza, 
Aquela verdade que ninguém parecia ver, na cor do céu, em cada sorriso 
A promessa de uma lágrima, muros de pedra ao vento numa aldeia deserta, 
Cujas mãos construtoras há muito uma fotografia apagada pelo sol no cemitério, 
E o poder de acabar isto tudo na sorte e na vontade que esmaga todas as outras, 
Acabar um universo com um murro num espelho de guarda-fatos carunchoso, 
Escrevi o primeiro poema de Maio, engolindo a tristeza sem razão, 
Não culpo o céu de chumbo, o peso do ar entre os goles de cerveja, 
Quente, não culpo a evidente verdade há muito coberta pelo cotão dos bolsos, 
Culpo esta camada fininha de gordura que me reveste a alma 
E me impede de lamber o sabor o cinzento como prata, 
Se algo me falta é a miséria, daí me sentir, talvez, miserável ao Sol de chumbo. 

Turku 


26.05.2019