ECOGRAFIA#3 de Luís Quintais lido por André Domingues

O poema pode ser encontrado aqui e no Caderno 3

A porta aberta da Ilha

 Quero-te enquanto corrente de vida ininterrompida, corrente de vida contínua, o olhar líquido que abraça, o abraço mais quente, essas pegadas que deixaste ao sair da ilha, ao fechar a porta. Quero-te enquanto porta aberta que tem o mesmo nome que o meu pai, as mesmas pegadas de saída, ali onde poderia ser areia, mesmo que só para escrever no cimento uma pegada fresca, um nome desenhado com uma chave, um coração, sempre um coração entre dois nomes e qualquer data de qualquer século só para nos tornar mais palpáveis - o número da turma, o nome da escola - dizer os amigos imortais seria um pleonasmo desnecessário. Quero-te livre embora ainda queira estar contigo. Imaginei hoje uma voz que me enchesse o coração e quero essa voz sempre contigo. Quero-te enquanto porta aberta, é nosso dever deixá-la sempre aberta e hoje diria como Safo ao sair de uma das suas melhores noites Quem é belo é belo de ver, e basta; mas quem é bom subitamente será belo.

Ele hoje está cheio, bate ainda mais cheio e é impossível apagar: riscar, parcelar ou interromper uma vida. Nem o caminho é a lápis, nem a vida é uma corda ou fio – nada disto se parte a meio - Amo em em ti esses braços que sobem a paisagem, amo nesta luz os teus dentes, boca, olhos: variantes da mesma luz que aceleram o chão, aqui onde caminham os que aquecem, entre Gaia e Porto, as cinco pontes das voltas que demos a uma cidade que se tornou nossa. Quero-te como sopro de vida que ninguém vai fechar e só te posso dar o que ainda não tenho. Imaginei hoje uma voz que me enchesse o coração e quero essa luz sempre contigo: acelera.

Nuno Brito, Porto, 23 de Fevereiro de 2015.

A Macieira Dos Insones: E uma sugestão de livro

Disseram-me que arrancaram a macieira porque secou, também eu sequei e nunca ninguém 
Me conseguiu arrancar as raízes, mesmo que tenha sido muitas vezes estrangeiro em casa 
E preferir a solidão do granito e o desolamento das ruínas dos verões quando a cinza já 
Assentou à força da chuva, o lameiro tem tão pouco do que trago, parece mais pequeno 
Apesar de terem derrubado a cerca que o dividia, enterraram um poço, o cão já se tinha 
Lá afogado, de certeza também a capacidade de ser feliz com um bocado de pão caseiro 
Com tulicreme que a tia preparou, a inocência como o amor, cega, mas uma cegueira por 
Ausência, a cegueira de quem tem as mãos vazias e está cheio de sonhos, a cegueira 
De quem confia na vida como na mãe e é para sempre e capaz de tudo menos de traição,  
Cega para a maldade, com os sentidos livres e limpos para receber a felicidade, ou apenas 
Estar e ser, ignorando que se é, aquela macieira em cuja sombra me deitei e senti 
A novidade da erva seca nas costas como a primeira vez em que li Walt Whitman, frescura 
Viva que mais tarde se transformou no cheiro a mijo cristalizado das folhas amarelecidas 
Pela experiência e o tempo, sentir o mesmo de forma inversa ao sentir o aroma azedo 
Da cerveja estragada no fundo das garrafas quase vazias e a companhia pouco simpática 
De outras barbas, eu quase, sentado a consumir-me em copos de plástico, tremendo com as 
Chamas das velas ao vento das saudades e uma quase hipocrisia por falar sozinho com a 
Memória de quem, espero, me dê o adiamento e a força inata, já que nasci de pouco 
E para quase nada, para acabar numa noite de luar, longe disto tido, no lameiro 
Daquela macieira onde me arrancaram, hoje tenho amigos poetas, pouco me conheço, 
E tenho dias em que quando acordo, demoro horas a encontrar-me por entre os papéis 
Manchados pela chuva e pelo carvão do sofrimento adiado pelo medo de mais um 
Momento inútil e perdido, para sempre, ao lado do lugar onde esteve a macieira, para nunca 
E até sempre, numa garrafa de vinho bordeaux, lá para os lados de Django Reinhardt e dos tios 
De França, porque tantas vezes o que procuras é apenas o inesperado, como o sabor daqueles 
Gauloises à beira do rio da aldeia, de madrugada, com os pés cheios de vinho tinto e língua 
Destravada, pronta para confissões lançadas para a fogueira purificadora da felicidade.  

Turku 

30.04.2014


Aproveitamos para recomendar vivamente o mais recente livro de João Bosco da Silva, Trepanação de Jerónimo Bosch, publicado pela Mariposa Azual em Abril de 2015. Pedidos por aqui. 

Obelisco

Não há 
sem abrir concessões
descidas nem subidas
passando o obelisco
houve um dia e ali estavam
não são
as tuas vantagens 
elas se contam no relógio se contam 
em elogios
eu preciso abrir uma garrafa com um estaleiro dentro
eu preciso de um projeto a salvar nossas vidas
não há dois pontos que poderemos usar de argumento
-eles se amontoam-
-eles se calcificam-
Exceto o dois pontos de uma linha de ônibus voltaria a dizer a linha o caminho mais curto 
entre dois pontos
não há não 
são não 
dão