Notas sobre o real

Professora bem instalada no mundo académico (vide as pernas varicosas, o perfume de mau gosto e a roupa formal que os anos oitenta não souberam reter) assiste a palestra jogando uma espécie de tetris para o século XXI num ipad.

O director do centro de estudos literários aterra com a testa no tampo da secretária, não resistindo ao garrote infligido pela gravata. Sonhando com a ascensão social, os professores presentes na reunião demoram a acudir o desmaiado.

O grande especialista em cinema contemporâneo desfila com uma echarpe do preço de um T-0 na Costa da Caparica, deixando entranhada na casa de banho uma grotesca fragrância de fezes.

O melhor aluno do curso cantava e dançava numa boy band e lia Paulo Coelho e ainda massajava as costas da professora de história dos descobrimentos.

O professor mais respeitado da faculdade não lava as mãos depois de sacudir as gotas de urina do pénis. 

Para detectar o carteirista disfarçado de turista basta olhar-lhe para as mãos. A alma do ladrão reside nas manápulas tatuadas. 

A pessoa que em Portugal mais escreveu sobre uma obra de Foster Wallace não leu mais do que duas páginas dessa mesma obra. Assim vive um país, ignorando.

Constituíram um grupo de estudos, organizaram o colóquio, candidataram-se a financiamento para publicação das actas do dito colóquio. O dinheiro ganho foi desbaratado num hotel, jantando e bebendo whisky. O livro não chegou a sair. 

Mais de metade das pessoas presentes na palestra sobre o monarca assassinado adormeceu. Dormir de olhos abertos é a sesta dos académicos.

A professora doutora leva com vários "acorda" no ouvido mas, como esse ouvido é o mais afectado por AVC recente, a excelsa académica não deixa de roncar.

"As Abelhas Produzem Sol" de Nuno Brito

traduz tu Ajax ou deus pastoral
a minha sede em água
as linhas da minha vida em rios
da minha medula faz nascentes de ribeiros frescos
— põe dois pastores em cada lado e um guarda-rios
mais a sua família feliz e o doce lar em que habitam
e que eles velem a minha descida pelas montanhas —,
desço por ti, fertilizo-te a terra
dos meus joelhos faz barcos,
das rótulas as velas, dos ossos dos dedos: canoas, o tronco seco
e do meu sopro os que nela andem e que neles remem.

Que os aldeões vejam o rio engrossar o seu leito
na medida proporcional da sua sede
e na medida proporcional da sua sede abram poços,
traduz, pois, Ajax ou deus pastoral os meus olhos negros
em poços fundos, para que eles venham com os seus baldes
beber-me um pouco mais

(...)

As Abelhas Produzem Sol , de que aqui se reproduz um excerto, é o mais recente livro de Nuno Brito, colaborador assíduo aqui na Enfermaria 6. O livro sai sob a chancela da Editora Exclamação e será apresentado no dia 28 de Maio pelas 18.30 no Teatro Rivoli, no Porto. Aqui fica a sugestão.  

Repetição

tudo está às voltas
no lastro de teu gesto 

tudo se repete
num fazer que

descortina: 

compre
uma flor
no mercado
e sê Monet

jardinando em
Giverny – 

refaça
no entulho
de uma casa
o dia que os
mesopotâmios

recensearam
seus deuses
mortos

não basta ao ato
bastar-se a si:
todo agir interpõe

teu agora e teu antes 

voltei-me a mime
parti mais além

fui-me aqui e
assim por diante

– toda tessitura
é a vela na
gávea de Cabral

e o trapo no
torso de
Zumbi –

sê olhar do rei cruel e indigesto
sê o olho que temeu a guilhotina

tudo se repete
num fazer que
descortina 

tudo está às voltas
no lastro de teu gesto

Michael Symmons Roberts, Jairo

Tradução de Hugo Pinto Santos

Então, Deus leva a tua filha pela mão 
e arranca-a do leito de morte. 
E diz: «Dá-lhe de comer, está esfaimada.» 
 
Dás-lhe frutos com exteriores espessos  
– romã, meloa – 
comida dotada de peso, que a mantenha aqui. 
 
Esperas que, se ela comer o suficiente, 
a luz e o pó e o amor 
que tecem a matriz do seu corpo  
 
não se desfiem, nem fiquem tão puídos  
que o sol da manhã a trespasse, 
sem qualquer sombra, completa. 
 
De alguma forma, esta reanimação 
cortou cerce o medo da morte 
o choque da presença. Dá-lhe a comer 

o cordeiro, ovos, pão ázimo: 
põe de lado as ervas, ela tem um doloroso 
jejum a quebrar. Senta-te junto a ela, 

aparta-lhe as peles para que ela possa engolir, 
e repara como a alvorada  
desperta cores no seu rosto recentemente beijado. 

Michael Symmons Roberts, Corpus, Jonathan Cape, 2004 

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