«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
decoração
/digo seu nome aos azulejos
do banheiro ecos reverberam
um nome que já esqueci
numa gaveta nunca mais
aberta saem formas lentas
talvez inéditas quem sabe
dizer seu nome como eu disse
já viu o sorriso lunar
pouco a pouco escurecer
é hora amor os sinos dobram
a única canção que sabemos de cor
Da incapacidade de ser dissimulado e escrever
/Adultos sabendo ser adultos
Houve uma altura em que acreditei que um pouco de dissimulação não fazia mal a ninguém, que até era necessária para existir. Quem não mente a si mesmo de maneira a manter um emprego? Quem não sorri quando tem vontade de bater? Provou-me a experiência que a dissimulação pode ser nociva. Para brincar com o fogo é preciso ser dotado de um talento inato, de muitas horas de prática ou de uma capacidade incrível de resistência à dor.
Não é fácil não ter vergonha na cara durante trezentos e sessenta e cinco dias por ano ou conviver com gente odiosa por mera conveniência ou oportunismo. Muitos tentaram e sofreram. Não é fácil por vários motivos. Alguém que pretenda brincar com a dissimulação deve compreender que lida com outros dissimulados, que neste jogo não é possível desistir a meio ou que há consequências para quem desistir do jogo. Interpretando papéis e alimentando mentiras, não esperemos entrar num jogo de máscaras imunes ao asco por terceiros e por nós mesmos. Assaltam-nos perguntas como: para onde foi a dignidade? Valerá a pena o esforço de me ter tornado numa mentira? Se a dissimulação nos rouba o sono, se nos enche de remorsos, arrependimento e culpa, é quase certo que não fomos feitos para esta arte. E isto pouco tem de bom, pois quer dizer que temos dificuldade em aceitar que o mundo existe como existe, em aceitar que nada presta, inclusive a nossa pessoa. Não aceitar estas coisas é o primeiro passo para nos perdermos em termos profissionais e para sermos solitários, escutando aquele silêncio insuportável das frases que insistem em nos martelar o cérebro.
Um conhecido publica na nossa revista sem apreciar nada daquilo que nessa revista se publica. Continuamos a publicá-lo e revoltamo-nos por de nada ele gostar. Não aceitamos que ele exista dessa maneira. Ele não gosta de nós, não gostamos dele, apertamos a mão, sorrimos, publicamo-nos. Privamos com um editor que odiamos de morte. Um tipo enterrado em mediocridade. Desprezamos o seu trabalho. Ainda assim, sendo mediático, estamos dispostos a vender a alma lhe para roubar algum do mediatismo. A nossa obra precisa de publicidade, pensamos, e escrever não basta. Chega o dia em que o editor medíocre nos enterra o punhal nas costas, como se previa, tendo em conta o seu comportamento com todos os que não se submeteram ao seu estilo de zero fanfarrão. Incomoda-nos igualmente que certo parasita deambule de apresentação em apresentação, de festival em festival, motivado pela fama. Apelidar-nos-ão de frustrados, com razão. Um homem que não dorme é muito frustrado. Um homem que pensa nos outros é frustrado. A frustração transcende o parasita: quanto mais queremos fugir da dissimulação que quase nos matou, mais a realidade nos força a constatar que a dissimulação constrói carreiras. Ser livre é importante. E viver de consciência tranquila. Ser talentoso é algo que poderá suscitar inveja ou admiração em muitos. Nada disso é mais relevante para fabricar carreiras do que estar no sítio certo à hora certa, do que ser criterioso nos likes, nos sorrisos. Isto é de cínico. O sucesso parece, por vezes, uma gestão da capacidade de viver de aparências. Mas imaginemos que um dia determinada pessoa que nos perturba chega com a lengalenga do costume e nos afastamos, dizemos que não, recusamos o jogo do vómito, e seguimos caminho, um caminho que até pode ser lento. Que bom poder imaginar.
um copo de vinho pedido na vertical
/senhor v. tem razão, há coisas muito miudinhas a que vamos a nos tornar, nos apegar.
gosto, por exemplo, de reler ‘manhãs desperdiçadas’, dá vontade de comprar cigarros industrializados e fumar, fumar, fumar, até poder arrancar o cancro na unha.
há coisas ainda bem mais miúdas, como a frase ‘está um frio a mais’. um frio a mais também é um cancro que me cresce na garganta, o desejo de uma pastilha muito fina sobre a língua pastosa da manhã.
(detenho-me na primeira frase – e não sei que diabos fazer. decido-me a tomar um carro de aluguel e ir até à praia. levanto as mãos bem alto para trazer a chuva mais pra perto, como nos pés molhados e o suor no solado de borracha gasta. decido-me a subir quatro léguas ao mar e ver a manhã nublada na água a abrir o mais fundo o corpo e ainda mais. ali um riso, ali uns dentes e ali umas palmas muito contidas de quem quer bater e não bate. decido-me os rasgos e desvios. 11h30 não parece uma boa hora para dizer o que não pode ser concreto, uns filhos a cuidar, uma gente a cuidar e toda gente se conhece. decido-me a outro carro de aluguel e um mortal-triplo pela chuva acima.)
há ainda coisas graúdas a que não se deter, senhor v., o caroço da manga no prato, o caroço do abacate no prato, uma xícara imensa que não deveria se dizer xícara cheia de xocoatl bem quente. esse cancro que me sobe ao céu da boca.
a senhora do almoço pensa, um conto do pavese com o nome da ex-mulher que já é de novo sua mulher e então é isso: o amor nos distrai a todos das importâncias e nos torna tão delicados e tristes. coisas muito graúdas - e também das desimportâncias que não estão no roteiro, é certo. e já a altura de dizer não, um rimbaud imenso de graúdo se nos coloca no peito, com toda delicadeza.
a mochila pesa. 500 gramas da primeira carta de sêneca e sua urgência. 200 gramas de um calixto e sua morfina. a mochila é um aglutinador do tempo, eles vivem esse meu tempo desperdiçado, vivem eles o meu mesmo tempo. tenho cá os dois e um espaço entre eles, o que é este espaço desperdiçado? um movimento que não faço, um acontecimento é o que meus dedos tocam, o que me veem os olhos.
a senhora do almoço me deu a importância de um corpo inteiro. um copo de vinho pedido na vertical. e coisas muito miúdas e muito graúdas. detemo-nos na distração?
Hugo Milhanas Machado, Onde fingimos dormir como nos campismos
/Hugo Milhanas Machado
Onde fingimos dormir como nos campismos
poesia
Enfermaria 6, Lisboa, dezembro de 2014, 80 pp.
Capa de João Alves Ferreira
