"Quando o osso do sol atinge os campos"

Quando o osso do sol atinge os campos,
e a superfície de água que neles infunde o Inverno
irradia em esquírolas ensanguentadas,
a luz de que são feitas acende nos interstícios da manhã
as imagens fortes da distância.

Está um langor de cemitério,
paira sobre as águas um espírito infernal,
a minha cabeça fervilha na antecipação da fome.

Pôs-se uma manhã limpa como o escárnio,
estou prestes a ser feliz

De João Moita, Uma Pedra Sobre a Boca, Guerra e Paz, 2019

Paul Verlaine, "Passeio no parque"

Tradução de João Moita 

O céu tão pálido e as árvores esguias
Parecem sorrir às nossas roupas claras,
Que flutuam no ar, como movidas
A indolências e a golpes de asas.

E a brisa suave sulca o lago singelo,
E o resplendor do sol, que atenua
A sombra das tílias da avenida,
De livre vontade agoniza e azula.

Hábeis farsantes e belas coquetes,
Do amor cativos, mas das juras libertos,
Com deliciosa lábia cavaqueamos,
E se mãos se insinuam nas amantes,

Como quem não quer respondem por vezes
Com uma bofetada que trocamos
Por um beijo na ponta da falange
Do dedo mindinho, e como a coisa

Já está a passar de todas as marcas
Castigam-nos com um olhar severo,
Que, de resto, contrasta com o amuo
Clemente que a boca faz com esmero.

 Paul Verlaine, Fêtes Galantes, 1869


À la promenade

 Le ciel si pâle et les arbres si grêles
Semblent sourire à nos costumes clairs
Qui vont flottant légers avec des airs
De nonchalance et des mouvements d'ailes.

Et le vent doux ride l'humble bassin,
Et la lueur du soleil qu'atténue
L'ombre des bas tilleuls de l'avenue
Nous parvient bleue et mourante à dessein.

Trompeurs exquis et coquettes charmantes,
Coeurs tendres mais affranchis du serment,
Nous devisons délicieusement,
Et les amants lutinent les amantes,

De qui la main imperceptible sait
Parfois donner un souffle qu'on échange
Contre un baiser sur l'extrême phalange
Du petit doigt, et comme la chose est

Immensément excessive et farouche,
On est puni par un regard très sec,
Lequel contraste, au demeurant, avec
La moue assez clémente de la bouche.

"A minha vontade de poder"

A minha vontade de poder
é instituída por uma lei
de uma inconstância medonha.
Procedimento sumário:
avanço nesta requintada carnificina
até extrair de mim a medula
de uma inspiração.
Palpável, concreta:
destrutível.
Aqui corta cerce a grande fábula:
torno-me legível como um anátema.

De João Moita, Uma Pedra Sobre a Boca, Guerra e Paz, 2019

Autores convidados em Junho

João Moita

João Moita nasceu em Alpiarça em 1984. Publicou O Vento Soprado como Sangue [Cosmorama Edições, 2009], Miasmas [Cosmorama Edições, 2010], Fome [Enfermaria 6, 2015 (1.ª ed.) e 2017 (2.ª ed. revista e aumentada)] e Uma Pedra sobre a Boca [Guerra e Paz Editores, 2019]. Traduziu, entre outros, Antonio Gamoneda, Saint-John Perse, Arthur Rimbaud e Pierre Louÿs.

Sebastião Belfort Cerqueira

Sebastião Belfort Cerqueira nasceu em 1987, em Lisboa, e levaram-no para Azeitão. Hoje vive em Setúbal. Doutorou-se em Teoria da Literatura. Publicou os livros de poesia O Pequeno Mal (Edições Sempre-em-pé, 2011), EL SEGUNDO (edição de autor, 2015) e RSO&SBC (com Ramiro S. Osório, Douda Correria, 2018). Foi organizador e apresentador do ciclo de conferências Poesia no Museu, no Museu Nacional da Música. Foi considerado uma das "vozes dissonantes da novíssima poesia portuguesa" pelo Público, em 2018. Foi estivador. É tradutor. É vendedor de bolas de berlim.
O seu livro novo chama-se Monda e continua a partir do princípio de que a poesia não tem de ser pálida e infeliz.