O Homem de barbas grisalhas

O homem de barbas grisalhas, crespas  pela humidade do suor, dos passos chegados da viagem, entrou na taberna. Tirou um banco de uma mesa de madeira e sentou-se, observando em redor, a cela ocupada por homens - todos eles finíssimos exemplares de mediocridade. Alguns não eram mais do que avestruzes, com incontinência urinária e escassez existencial. Inflamavam-se orações tiranas ao sabor de ginja, dos rosés, e água ardente. O homem de barbas grisalhas rodou o corpo, dirigiu-se ao balcão e pediu, num tom grave, o chamado vinho de mesa. Espreitou os bolsos das calças de linho manchadas de tristeza, a apalpar o dinheiro e encontrou três migalhas de pão. Com um gesto medido deixou as esmolas de pão, ali, naquele balcão barrento e chegaram não pombos, mas animais necrófagos atraídos pelo odor da morte. Essa (a morte) adiantou-se, e veio ver os homens podres dentro da cela. O grito dos corvos, o som do ar assombrado debaixo das montanhas, penetrou nas grades ferrugentas da taberna; por entre o ar e a luz difusa, uivos cruzaram risos zombeteiros. Subitamente a floração do luar, pálido e frio. Não saberiam dizer, mas todos sentiram a passagem da inquietação vinda das trevas, e na manhã seguinte urinaram sangue, para espanto das lavadeiras do rio de águas puras e cristalinas.

[Ver perfil de Liliana Gonçalves]

Niilismo 1/c. 10 Selfies

Las Meninas, 1970, Equipo Crónica

Cont. http://www.enfermaria6.com/blog/2015/7/26/niilismo-0c-10

O narcisismo, até pelo mito epónimo que o originou, é um indício quase incontestável de decadência, deslocamento maníaco do valor da alteridade para a mesmidade, hipertrofia do eu. Sócrates não se venerava e Cristo tinha mais que fazer, ambos viveram, embora com estilos e objectivos diferentes, para salvar os outros. Esta dupla matriz do Ocidente não foi, contudo, capaz de resistir às pulsões de auto-adoração, e aqui estamos nós no paroxismo da auto-representação como forma de niilismo, isto é, da valoração espasmódica de si-mesmo, exaurindo para isso os valores mais tradicionais do cuidado pelos outros e pelo mundo.

Chegamos então à Selfie (fotografia que alguém toma de si mesmo, em geral com um smartphone ou uma webcam, partilhada depois numa rede social). Se alguns consideram esta prática uma moda passageira (passe o pleonasmo), outros vêem nela a atitude fotográfica mais representativa da actual expressão visual. Filha do auto-retrato, na pintura ou na fotografia, a moda Selfie expandiu-se com a massificação do smartphone e o uso das redes sociais, mas foram os utilizadores que forçaram a conexão entre o 3G e a Selfie, os gurus da internet não imaginaram essa tendência. Neste sentido, ela foi uma invenção plebeia. Popular e jovem, sobretudo para a “geração Y” dos 14-25 anos, adita ao exercício de auto-representação e divulgação na webesfera (comunicar-se sem entraves), imitando algumas estrelas do star system. Ora, como todos sabem, os jovens fazem sempre tudo mal, desconstroem a bela ordem social, aburguesada, e experimentam coisas que os mais velhos e sérios ridicularizam.

Mas, coisa estranha, a partir de 2012/2013 a Selfie conquista outras faixas etárias, complexifica-se, incorpora a ironia, torna-se tendencialmente auto-irrisória, define, muitas vezes em contracorrente, certos traços estéticos... Assume a dificuldade da eficiência, retira-se do “eu” e abraça a sociabilidade (o colectivo começa a predominar). Embaraça assim os críticos que viam nela apenas uma manifestação oca de narcisismo (a propósito, Baudelaire, 1859, denunciando o daguerreotipo: “A sociedade imunda dirigiu-se com um só Narciso para contemplar a sua imagem trivial sobre o metal.”). Por outro lado, se muitas Selfies representam seres irrealmente formosos (formosura tecnológica mais do que ontológica), talvez o critério estético do belo seja nelas cada vez menos relevante. Na maioria dos casos, vêm a nós como rastilho para a interacção discursiva, uma Selfie desenquadrada, estranha, disforme, bem nutrida de auto-irrisão... terá mais sucesso do que outra imaculada. Uma estética falhada sublinha quase sempre a sua dimensão pessoal e autêntica.

Desta forma, o narcisismo niilista da Selfie transmutou-se, nas devidas proporções é claro, numa forma de comunicação que busca a autenticidade e o bom humor de não nos levarmos muito a sério e nos comunicarmos em veracidade. Houve, pois, mais uma descoberta, ou criação de valores saudáveis do que a rejeição estéril de antigos valores humanistas (recato, abnegação, interioridade, altruísmo...). 

nuvens, etc

1 

curtido todo o dia 
procurando a personalidade 
nos pingos da chuva  

você se atreveria 
a apontar qual gota 
mais impressionou?  

2 

um par de nuvens brinca 
com os esplêndidos futuros que teriam 
caso fossem ursos 
 
enquanto eu e você e um pensamento insistente 
passeamos curiosamente distraídos 
com a despreocupação que teríamos 
caso fôssemos nuvens.  

3 

como se no negro do céu 
fôssemos encontrar a Solução 
investigávamos os detalhes 
por infinitos instantes 

que como o depois ou o antes 
viriam a ser todos 

& nenhum.  

4 

é tão claro e evidente 
quanto potencialmente falso 
que as nuvens vagueiam e desvanecem 
quase como a memória foge 
bêbados se equilibram 
espasmos deixam rastros 
acidentes espreitam.  

5  

seja imitação de Bartleby 
seja prática do wu-wei 
seja cortejo à preguiça 
ou deixar o nada acontecer:  

antes de pensar em fazer algo 
prefiro pensar em não fazer.