ENSAIO SOBRE ELE

we must love one another or die

w. h. auden

so only one life can't be enough
para esperar o teu regresso
(qual penélope, qual quê)

numa casa sem telhado
pergunto-me o que fazer com o frasco
de nescafé, a tua caneta da sorte, 
os teus dentes de leite, o teu postal
dos jardins de butchart, do katmandu,
o teu petit larousse, 
                        os teus óculos

dói-me o corpo todo e esta cidade
nada mais me trouxe do que uma dúzia
de charros numa noite perdida:
i should learn to look at
an empty sky and feel its total
dark sublime, though this might
take me a little time

não há muito a fazer, my dear.
aguardar é tudo por agora
tecer, adiar um dia de desordem
e acreditar que a vista para o pátio
é o teu tapete de chegada

PRIMO LEVI EM TEMPOS DE CÓLERA

    Ler Platão é uma actividade que se persegue com tempo entre mãos. Um amigo meu, um académico dinamarquês que está a escrever uma tese sobre Platão, tende a racionalizar qualquer problema pensando em Platão. Durante uma longa parte do tempo em que ambos estávamos a escrever as nossas teses no mesmo país, adquirimos o costume de nos encontrarmos todas as manhãs. Ele, assumia o papel de Sócrates, falava-me em Platão e eu respondia-lhe em Homero. Platão tinha questões com poetas, como reagiria ele à capa de hoje do inenarrável Daily Mirror (talvez em modo Bukowski: I see where I have made plenty of poets/ but not so very much/ poetry)? O sistema político em que vivemos hoje é uma democracia? Não, Platão descreveria isto como uma oligarquia. Mas concordarias que um poeta pode descrever uma mesa ou uma cadeira mas não construí-la? 

    Perguntas deste tipo povoavam as nossas sessões e estas sessões às vezes levavam a becos sem saída, quando tínhamos sorte, a discussões sobre os problemas mais concretos, sobre coisas que mais nos interessavam, ou que na altura nos preocupavam profundamente. Porquê ler Platão? Platão é um autor que nos obriga a perguntarmo-nos todas as perguntas que importam: o que é justo?, qual a melhor maneira de viver na cidade?, qual a melhor maneira de governar a cidade?, como podemos viver bem a nossa vida?, como devemos vivê-la?, qual o papel do amor nas nossas vidas?, na nossa moral? Se suspeitarmos de Platão nas doses certas, nas quantidades certas, vamos amá-lo para o resto da vida. Quando somos ainda muito jovens e lemos o Fédon não temos como não acreditar que Sócrates inventou o espírito humano. Não importa tudo o que vamos aprender a seguir, não importa se depois disso não temos como não amar a chateza sóbria, pragmática e honesta de Aristóteles, que ao contrário de Platão tinha uma fé inabalável na habilidade dos humanos para aprender a bondade, o que às vezes penso é o único grande ponto de ruptura entre Aristóteles e Platão, o motivo pelo qual o discípulo se afasta do mestre.  

    Ler Platão é uma actividade que devemos perseguir sobretudo no que um amigo meu costuma definir com recurso a Ruy Belo, em tempo detergente. Uma porção considerável das nossas vidas decorre em tempo detergente. Devemos ler Platão em qualquer altura, mas sobretudo em tempo detergente. Quando estamos deprimidos, quando carregamos connosco a humilhação de uma dor cinzenta, os nossos sonhos quando morrem, a esperança de um tempo inteiramente de portas fechadas, um amor que reconhecemos ao olhar para a sua cara doente que ele vai apodrecer até se tornar na nossa maldade, quando nos sentimos rodeados de mediocridade e a única resposta ao nosso alcance é a da reciprocidade básica de todos os nossos instintos banais, esta desarrumação em que temos dissipado os dias, é aí que mais precisamos de Platão. Devemos ler Platão quando reconhecemos o pior de nós ao virar de cada esquina, Platão pode ajudar-nos a combater o pior da nossa personalidade, conceder-nos, se mais nada, a distância vital da ironia. 

    Enquanto a lenta abolição de uma educação em artes liberais não for inteiramente substituída pelo cenário catastrófico de um treino escolar que sirva simplesmente as necessidades de um mercado de trabalho, uma educação que não permita a um indivíduo inventar-se a ele próprio, que incentive apenas a demagogia triste de estudos que inspirem uma mentalidade meramente utilitária, o Banquete continuará a povoar a imaginação de adolescentes pelo mundo fora, com respeitáveis figuras públicas da Atenas do século V em versão drunk & horny men invent love, e o inegável sex appeal de Sócrates, definido por Alcibíades como inversamente proporcional à sua aparência física, continuará a inspirar esperanças talvez pouco razoáveis em todos os adolescentes que não lograram ficar bem em nenhuma fotografia. 

Capa do Better Book Titles para o Symposium. 

Capa do Better Book Titles para o Symposium. 

    Ler o Banquete é como adoecer. Não é uma descrição apelativa, esta, mas é o que é. Outras coisas nos serão dadas enquanto a maleita faz o seu trabalho. A mais importante delas relaciona-se com a descrição que se pode ler na capa da edição deste discurso para a série Penguin Books Great Ideas: “our human race can only achieve happiness if love reaches its conclusion.” Esta edição contém uma das traduções mais agradáveis e mais bem conseguidas do texto platónico, a de Christopher Gill. É possível adquiri-la por cinquenta cêntimos de libra, um preço que, já agora, nos lembra o quão saudável é desprezar livros.

    O que é que se discute neste diálogo? O papel do amor na formação moral do indivíduo (qualquer introdução à obra dirá que, mais do que prescrições pronunciadas a partir de uma posição de autoridade moral, o que preocupa Platão é o processo, como é que o amor faz parte desse processo), o seu papel na felicidade, na criatividade, no (re)conhecimento da nossa natureza e no (re)conhecimento da dos outros. O papel do amor na vida da mente, na vida social e política. Quando chegarmos ao fim do diálogo, e estivermos mesmo nas últimas páginas, outro pensamento terá ganhado raiz. Enquanto Sócrates se diverte a desfazer a ingenuidade de Ágaton (o amor é um deus belo), com a perícia do professor que será sempre percebido pelos seus alunos como o super-herói, a ideia básica na sequência lógica de todas as que a precederam ganha forma. O amor é uma forma de desejo, a necessidade de alguma coisa. Uma das personagens, o tragediógrafo Aristófanes, já tinha aludido a isto ao narrar o mito das almas gémeas: os humanos são apenas metade dos humanos originais (um crítico da BBC em tempos imaginou estes humanos como sendo um pouco como o homem de Leonardo Da Vinci e esta ideia agrada-me), e foram separados ao meio pelos deuses, porque estes temem a arrogância da criatura. Assim, os humanos não se podem reunir como dantes, e morrem com a ausência do outro. Os deuses resolvem isto com uma modificação nos orgãos genitais, permitindo a cada alma gémea que esta se reúna à sua, uma vez encontrada. Esta abstracção tão literal encerra outra, mais vaga. O desejo é uma coisa que move a nossa perseguição de cada descoberta, os caminhos que escolhemos. 

Platão, Banquete, Penguin Books Great Ideas, Christopher Gill (trad.)

Platão, Banquete, Penguin Books Great Ideas, Christopher Gill (trad.)

    Há lugares a que vamos chegar sem escolha. Num dos poemas mais belos do século passado, “I dream I am the death of Orpheus”, a poeta americana Adrienne Rich explica a sensação que isto causa:

I am a woman in the prime of life, with certain powers
and those powers severely limited
by authorities whose faces I rarely see. 
I am a woman in the prime of life
driving her dead poet in a black Rolls-Royce
through a landscape of twilight and thorns.

Adrienne Rich em The Will to Change, Norton, 1971.

    Aos lugares a que vamos chegar sem escolha, importa o nosso percurso, para nos lembrarmos bem de quem julgamos que somos, para sermos capazes de sobreviver à imposição dos factos da vida sobre a nossa personalidade. Não o que é esperado de nós, não as expectativas das “authorities whose faces I rarely see”, mas o que carregamos connosco. No alongado olhar que Platão demora sobre o espírito humano no Banquete pode ler-se que o amor (Eros) nasceu de um encontro fortuito entre a Pobreza e o Recurso (sendo que o Recurso etava embriagado e a Pobreza tira vantagem). Segundo Sócrates, é por isso que o amor é sempre pobre, não é nem sensível nem belo, como a ingenuidade de Ágaton sugere, mas seco, com a pele endurecida, sem sapatos nem casa. E Sócrates diz-nos que o amor dorme no chão, sem cama, nos limiares das portas ou pelos caminhos. E porque ele partilha da natureza da mãe, ele tem sempre necessidade de alguma coisa. No que se parece com o pai, ele anseia por apoderar-se do que é bom e belo. Sócrates diz: o amor é corajoso, impetuoso e intenso, um caçador formidável, sempre a preparar o próximo truque. E conclui: um amante da sabedoria para sempre, esperto a manipular magia, drogas e sofismas. O amor, segundo Platão/ Sócrates, é a nossa mente colorida no grau mais interessante. O amor é o desejo, constantemente. E há nele algo de intrinsecamente divertido, vindo do lado do riso (a embriaguez do recurso, essa metáfora que explica o lado hermético do amor), um pendor do estado de ser livre quando este se parece com a descoberta da alegria, com as fontes da felicidade.  

    Sobre Sócrates circulam anedotas acerca de quando ele cumpriu o serviço militar, de como ele era capaz de passar um dia e uma noite parado no mesmo sítio, a meditar sobre um assunto em pleno tempo de batalha. A vida moral de um indivíduo exige uma imensa quantidade de tempo para se desenvolver, uma imensa quantidade de solidão para que se chegue a distinguir com nitidez os contornos do vasto continente da nossa imaginação que pode ser iluminado pelo nosso amor. O discurso de Platão é um tributo a isso. Sócrates, se acreditarmos no relato em terceira pessoa de Platão, vislumbrou-o numa noite de vinho e insónia em Atenas, na casa de Ágaton, talvez sobretudo na antecipação da humilhação despeitada e desajeitada de um amante que não consegue instilar nele a quantidade necessária de igualdade para que o amor funcione. Sócrates não ama Alcibíades, e enche a noite com um discurso assente sobre a sabedoria de uma amante anterior, Diotima, com a memória de uma longa conversa, que abunda na lógica da dialéctica, pela qual é hábito examinar-se alguém a uma certa distância. Há que amar o bom senso de Platão, que na presença e no discurso de Alcibíades desautoriza Sócrates apenas o suficiente para que nos lembremos o que é um amante, e que também o super-herói vive à escala humana. 

Orfeu e Eurídice, Rodin, 1893. Orfeu é descartado por Platão como exemplo negativo de amante. Os deuses pensavam que ele era soft: tratava-se apenas de um músico, que não teve a coragem de morrer de verdade por Eurídice, recorrendo a um su…

Orfeu e Eurídice, Rodin, 1893. Orfeu é descartado por Platão como exemplo negativo de amante. Os deuses pensavam que ele era soft: tratava-se apenas de um músico, que não teve a coragem de morrer de verdade por Eurídice, recorrendo a um subterfúgio para descer ao Hades que lhe permitiu entrar no submundo sem estar de facto morto (cf. a este respeito o conto de M. Kundera, "Symposium": "No fim do verdadeiro amor está a morte, e só o amor que termina na morte é amor."). Segundo Platão, o castigo que os deuses reservam a Orfeu pela transgressão é a morte às mãos de mulheres. 

    Em A Tabela Periódica, Primo Levi no capítulo dedicado ao elemento do fósforo, recorda um amor de juventude. Sobre o momento da separação definitiva, quando o que não pôde ser evitado, regressa, à distância de anos, no trabalho da examinação tardia, como uma revelação, Levi escreve:

I felt growing within me, perhaps for the first time, a nauseating sensation of emptiness: so this is what it meant to be different: this was the price for being the salt of the earth. To carry on your cross bar a girl you desire and be so far from her as not to be able even to fall in love with her: carry her on your crossbar along Viale Gorizia to help her belong to someone else, and vanish from my life. 

Primo Levi, The Periodic Table, Raymond Rosenthal (trad.), Penguin Books,  2000.

    Platão é o autor a quem se atribui aquela máxima sobre a vida que não é examinada não valer a pena ser vivida (o contrário é ainda verdade, uma vida insuportavelmente examinada também não pode ser vivida). Primo Levi é outro autor que merece ser lido em tempo de crise. A única coisa para que o exame das perguntas de Sócrates, as suas soluções, não nos preparam, podemos encontrá-la extremely loud & incredibly close na autobiografia de Primo Levi, que o carácter moral de um homem pode estar certo, ser certo (a escrita de Primo Levi obedece ao critério da tríade platónica: bom, belo (mais do que tudo talvez na ideia da redenção do horror pela intuição de que tudo o que é humano não nos é alheio e o que é digno de condenação precisa de ser olhado de frente, de olhos bem abertos) e justo), ser de uma qualidade na ordem do que o discurso de Platão pretende inspirar, e ainda assim o resultado continuar a ser a dor inesgotável cuja única condição para ser experimentada é estar vivo. Mas, é também neste aspecto que a nemesis de Platão pode ser encontrada. Ao ler Primo Levi em tempos de cólera, lembramo-nos à distância do eco de outro escritor judeu, Saul Bellow em As Aventuras de Augie March, naquela cena em que uma das personagens diz a Augie que, no fim das contas, não é possível salvar a vida ou o espírito por pensar, mas, se pensarmos, o mínimo dos prémios de consolação é o mundo. 

    Não existe absolutamente nada de frívolo ou de acessório no Banquete de Platão. Continuará a ser, antes e depois da tonalidade de qualquer tempo, uma dessas ferramentas preciosas para a perseguição do lento e difícil trabalho de nos mantermos humanos. E se vocês se estão a perguntar porquê, aqui podíamos acabar com o Banquete de Kundera:

Just because it is groundless. If there had been a reason, it would have been possible to find it in advance, and it would have been possible to determine my action in advance. It’s just because of this groundlessness that a tiny scrap of freedom is granted us, for which we must untiringly reach out, so that in this world of iron laws there should remain a little human disorder. 

Milan Kundera, “Symposium”, Laughable Loves, Suzanne Rappaport (trad.), Faber & Faber,  1999. 

 Oxford, 6 de Agosto de 2015 & 17 de Agosto de 2015

outros nós – nós nas bolhas

como um bebê 
eu haveria de passar pelos dias  
sentir cócegas nos ossos  
não enxergar a tradução dos letreiros  
subir as escadas pelos olhos dos outros
engatinhando para apanhar o frasco de aspirinas  
os ansiolíticos  
vomitar no álbum de lembranças que não são minhas  
esperar que cresçam unhas nas pontas dos dedos  
e arranhar as gengivas  
brincar com as pernas no ar  
dar nós nas bolhas de baba  
morder o dedo do médico  
não enxergar a tradução no que dizem  
vomitar no teu ombro  
me cagar de dez em dez minutos  
chorar só um pouquinho  
engolir moedas  

não enxergar a tradução no que dançam e cantam
ter os sentimentos cercados de barras
e tomar um bom trago de vodca barata no fim da manhã 
antes da papinha cheia de saliva da mamãe
 
como um poeta
eu haveria de passar pelos dias 

Eu e as minhas irmãs

I. Quando o Algarve era só sul e os casamentos duravam para sempre

 

Eu e as minhas irmãs nunca distinguimos o barlavento do sotavento. Durante muito tempo nenhuma de nós sabia qual era qual e o Algarve era só um para nós.

Tanto podia o barlavento ser sotavento como o sotavento barlavento, eram duas palavras que não nos diziam absolutamente nada. Foi só depois de começarmos a amar assolapadamente o algarve das ilhas e das noites sem vento que eu finalmente me comecei a preocupar com tal assunto e hoje posso dizer que sei onde começa um e acaba o outro. E nunca mais me enganei.

Pensavanisto enquanto olhava para as pequeninas ondas que rebentavam na areia da praia de um qualquer barlavento. O marido, preso na paisagem,  mesmo em frente à água, andava à cata de condelipas para o nosso jantar.

É um marido como deve ser: ama-me com o seu amor de marido. É um amor honesto, dentro dos limites canónicos. Ama-me porque sou mulher, a sua mulher; mas não me pode admirar porque a sua mulher não é um homem. Caso fosse, admirar-me-ia mas não me poderiaamar (estas nuances são como nuvens). Falta então, pela força das circunstâncias, admiração ao seu amor e faltando essa admiração fica a faltar o amor.

Mas à noite ele abre as condelipas, põe a mesa e despeja o vinho. Porque isso pode um marido fazer pela mulher que ama mas não admira.

E eu, enquanto como e bebo o vinho, fico a pensar nas mulheres em geral. Nas minhas irmãs e na nossa dificuldade de anos em chamar barlavento ao barlavento, sotavento ao sotavento. Penso nas condelipas que ele desenterrou e trouxe e cozinhou, e devia estar tão feliz e estou, mas penso nas mulheres em geral e pergunto:

- Porque é que ainda estamos juntos?

- Porque gostamos de comer condelipas e beber vinho.

Ele é prático como um homem que sabe que no fim do dia o que conta é o que se come e o que se bebe.

- Se o amor já se foi… - insisto, algo descabelada, com o desnorteamento próprio de quem não sabe onde ficam os mais básicos pontos cardeais.

- Mas ficou a amizade, a admiração…

Pela janela entra uma metade de lua a fazer-me cócegas na planta dos pés, o que me provocade imediato uma tremendavontade de rir.

 

II

 

Eu e as minhas irmãs comprámos uma quinta a cair aos bocados. Tínhamos vendido a casa da cidade e estávamos a nadar em dinheiro.

Assim que chegámos, empregámos pessoal para arar, plantar, regar e dar de comer às galinhas; comprámos tratores, debulhadoras, foices, pregos, tesouras, tudo o que é suposto haver numa quinta.

Depois, sem sabermos o que fazer, despedimos os empregados, despachámos os animais e só sobrou o jardineiro que cuida das rosas.

Estamos espantadas com a vida no campo. Que adoramos, não há dúvida. Mas tem os seus quês. A irmã do meio preocupa-nos: anda pálida e com olheiras fundas. A gente pinta-a para disfarçar, a ver se não aparece assim às pessoas da aldeia, mas não serve de grande coisa. Parece que se vai partir a cada passo que dá. Tudo a enerva no campo, desde o silêncio ao mais pequeno barulho, acho que ela ainda morre por cá.

A casa está a cair. Toda presa por fios e fita-cola, por assim dizer. Quando tomamos o pequeno-almoço, uma de nós agarra a parede para as outras duas comerem o pão em paz. E quando acabamos, uma de nós duas toma a vez da outra para que ela possa comer sem sobressaltos . Nunca a das olheiras. Essa vai estender-seao comprido, esgotada, numa chaise longue toda rota.

Alimentamo-nos de pão e água. Não precisamos de mais nada. Às vezes, um vizinho mata um pato e vem oferecê-lo, rodeado de arroze chouriço bravo, mas não gostamos de violência e mortandade e a irmã das olheiras começa a vomitar ainda o cheiro da carne vem longe.

Sou eu a mais velha e sendo a mais velha sou também a mais responsável; a irmã mais nova é membro de uma associação de observadores de nuvens e para ela está sempre tudo bem.

A cada dia que passa, o campo e a quinta trazem-nos novas descobertas e até a irmã das olheiras quando tem forças para falar diz que gosta muito da natureza.

Quem nos visita espanta-se connosco e com o que por aqui encontra. Mas somos tão bonitas, uma de nós tão pálida, outra tão sonhadora,  e eu tão responsável que ninguém se atreve a comentar coisa alguma sobre o que quer que seja.

Pequena arte de amar

1.

Se alguém, na idade em que se encontra, desconhece a arte de amar, não vá ao médico. O médico fará incidir sobre o seu corpo solteiro e despido da cintura para cima o olhar de quem não ama os poetas, mas a seu tempo os leu, para verificar a universalidade de sensações e eventos fisiológicos. O médico não despreza o diagnóstico da poesia para males sem nome ou gestação. Vir-lhe-á à lembrança o dístico

A água quente lembra-me todas as manhãs
que não tenho mais nada vivo ao pé de mim.,

a perturbadora ilusão de contacto que os elementos naturais e alguns objectos concedem às pessoas solitárias. O médico perguntar-te-á se alguma vez sais de casa, se sais à noite, e tu dirás: Caminho com o vento no rosto. Essa impressão de toque é essencial, gentil e áspera, um equilíbrio natural de impulsos que sossega, que comove até.
E, enquanto escuta o lasso tumulto do teu coração, o médico pensará que tem diante de si uma pessoa solitária. Que és culpada da tua solidão – de outro modo não te queixarias dela. Terá piedade de ti e recomendar-te-á que optes pelo duche rápido no polibã, por oposição ao erótico e meditativo banho de imersão.

*

Se for irreprimível o desejo de contacto, fuma um cigarro ou procura um salão de beleza, um cabeleireiro de bairro onde te lavem a cabeça. As massagens no couro cabeludo são um excelente bálsamo contra a angústia e contra a solidão. São geralmente hábeis as moças que lavam cabelos, quando afinal apenas queremos que nos toquem habilmente, que a velha e ferrugenta fechadura em nós se abra com um único som estremunhado (essa rotação tão íntima, perguntaria o médico, é difícil ao teu corpo reconhecê-la?).
É-se muitas vezes surpreendida pelas mãos másculas da moça que nos lava os cabelos. Confiamos nos gestos lisos e impessoais. Entregamo-nos com alegria e desdém, como não nos entregaríamos a nenhum amante. E, como depois do amor, fechamos os olhos e caímos na antecâmara do sono. O mundo é um lento céu sem nuvens, gira como um carrossel vazio, máquina nova e por estrear, com as suas formas muito argutas e recortadas que se oferecem ao nosso desejo; um carrossel vazio e contemplado sem ciúme ou cobiça, porque existe para nós apenas e ninguém o montará, aos seus cavalos e cisnes. Para nós existe o seu aprumo, o seu fulgor. Por nós roda eternamente e vaza a pachorrenta melodia. E o nosso desejo, liberto de avidez, não é dor, não sofre humilhação.

*

Penso no desejo como um homem incapacitado contemplando os girassóis. Penso no desejo como um homem prostrado na sua cadeira de rodas – um animal mitológico contemplando os girassóis. Um homem que se compromete solitariamente, por capricho, ao comprar os girassóis e, numa banca de artesanato mesmo ali ao lado, um anel muito simples, nem sequer de prata. Esse anel impende melancolicamente sobre todos os seus gestos. É a prova de um matrimónio de que o tempo e o hábito se encarregaram das cerimónias, mas lhe não trouxeram o par.

The other fervor leaves us
at risk, in love, and alone.
Married sometimes forever.

O homem sozinho e aleijado lê poesia, nisso consiste parte do hábito e da intimidade. Anoitece no vidro da janela do comboio. Os lábios próximos do vidro, a respiração acre de muitas horas sem comer ou beber – um homem sozinho esquece-se de comer, parece-lhe indigno comer, e fá-lo apenas em casa, apenas quando necessário.
Lá fora, nos campos por onde o caminho-de-ferro abre passagem, ele vê as chaminés das fábricas e as bocas de rega, os ribeiros, as pontes, os cabos de alta tensão. A própria cadeira de rodas, de onde se ergue já sozinho para sentar-se no lugar de passageiro que lhe está reservado, e que dobra para não atravancar o corredor de passagem – há em tudo uma inegável simetria. O homem nada pode contra a existência solidária das coisas. Nada pode contra a plenitude de uma peça que se encaixa noutra peça, nada pode contra a arquitectura, contra a engenharia, contra as asas das borboletas, contra o próprio rosto dos homens e dos animais. Contra as preferências do mundo, este homem sabe que tem de render-se.
Lá fora a noite caiu bruscamente – é Inverno – e assim, com os óculos de ler – porque tenta ler durante as viagens de comboio, mas acaba sempre por distrair-se a olhar pela janela – e os girassóis abraçados ao peito, parece outra pessoa. Sobressalta-se – estão há tantas horas com os rostos juntos e calados que o homem sente que começa a desejá-lo, a esse outro que o olha a partir do vidro.
O desejo e a menor arte são filhos do homem incapacitado que contempla os girassóis, e o flanco da mulher nasce quando o homem abre a mão e reconhece nela o golpe que ergue o antúrio. Ah, o desejo é uma colagem: cuspinhar anjos em papel pardo, enfiar mãos nos bolsos, apalpar discretamente o forro dos vestidos, analogia vã da seda dos gatos que amámos na infância e dos quais aos rapazes, às actrizes que sorriem nas revistas, rasgamos os olhos pela semelhança, a macilenta dor que investigamos sem que se descubra a imperfeição da causa.

*

Falava então da grande vantagem de usar os cabelos longos. Se te sentes só e carente deixa que te cresçam os cabelos, para que te comovam os movimentos de avanço e recuo da moça que tos lava. Se estiveres de bom humor, encontrarás nestes movimentos o consolo de um equívoco jogo de sedução.
Deixa derramarem-se nas mãos da rapariga os teus longos cabelos molhados. Ela apartar-te-á da boca os fios soltos, unindo-os num feixe como se se preparasse para o galope. Os teus lábios começarão a pulsar. Alguém respira perto de ti. Tu inspiras o ar que ela sobre ti expira e prendes nos pulmões o monóxido desse estranho beijo, devolves-lho para recebê-lo mais quente, ardente, saturado, até ao desmaio. Procurarás ocultar da rapariga o desejo que afinal não sentes (a verdade é que estás só um pouco carente), mas ela pousa a sombra da sua atenção sobre a tua garganta arqueada com a silenciosa persistência de uma Hallelujah.
Ainda que a moça que te lava o cabelo nos fundos de um salão de bairro demonstre a ordinária compaixão das moças que lavam cabelos e dos médicos, ainda que tagarele um pouco, em todo o caso mais alegremente que o médico, ela vai deixar-te comovida, confusa, rubra de um pudor inesperado. Partirás convicta de que um prazer novo e ilícito teve ali lugar, como o de duas meninas que brincam juntas no pomar e provam as primeiras carícias. Sobretudo se és mulher de rosto limpo ou rapaz que sonha com o amor cortês, se não sabes o que é o amor e há muito que andas à procura dele, é também possível que partas mais confusa e desesperada do que quando entraste.

*

Regressas a casa a pé. Caminhar imprime o justo ritmo aos pensamentos. Enquanto caminhas rememoras a ocasião mais pura e já petrificada da tua existência. Consegues senti-la ainda como uma promessa, como uma aventura. Essa ocasião é o amor, e ainda não aconteceu.
Chegas ao apartamento quando a noite já caiu, não porque sintas tal prazer ao caminhar que percas a noção das horas – o prazer está-te interdito, o prazer nunca te foi mais do que uma irritação – mas porque é Inverno e o Inverno, como um mover de ancas mais brusco, como um mal calculado lance de sedução, traz a cada dia prematuramente a noite e a tristeza.
Preparas o que comer e em seguida deitas-te na banheira cheia de água quente. Parada, escutas os ruídos cristalinos da água. O teu corpo surge acompanhado pela transparência, pela ondulação, pela presença ampliada e distorcida de si mesmo. Algo na carne serena e livre de perigo que é a tua faz pensar em mutilações antigas, em cicatrizes brancas. A ideia é disparatada ou mesmo obscena, pensas. Vives num tempo sensato, numa cidade segura, rodeada de todos os confortos, e o perigo é para ti uma história tão distante e inofensiva quanto as histórias de ciganos e de monstros que te contavam na infância os teus pais, para te obrigarem a comer. Nunca correste perigo. Não combateste nem desertaste da frente da batalha, nem tão simplesmente, como se o ar, a casa, a mesa e a cama se tivessem tornado insalubres, desapareceste um dia sem deixar rasto. Mas o teu próprio corpo nu e vencido é avistamento tão raro que não podes impedir-te de contemplá-lo. Vives numa cidade pacata, mas é como se o teu corpo regressasse ferido de uma batalha e fosse, como víscera ou borra de café, um oráculo. Quando as feridas cicatrizarem, pensas, quando os cotos sararem e a pele nova tapar a carne como se a emudecesse serás um animal submerso, trazendo aos homens e às mulheres notícias quietas do fundo do mar, já não capazes de esclarecê-los mas de infundir-lhes, pelo medo, outra espécie de prazer.

*

Apercebes-te de que é a encenação do teu corpo perante si mesmo que te leva a ver as feridas, a sofrê-las e a aceitar sem contradição a longevidade que para ele se adivinha.
Não é por isso urgente que descubras o objecto do teu amor. Não terás por certo, desde que os alvores da adolescência tomaram de assalto as tuas coxas, feito mais do que procurá-lo. Julgas tê-lo experimentado sob diversas formas. Mas o amor é dissipação. Se pudesses guardá-lo tempo suficiente para dele fazer prova, não encontrarias prova de coisa alguma. A menos que estendas à janela do teu quarto um lençol tingido de sangue ou de esperma, ninguém fará registo do teu amor. Porque do amor, como de qualquer negócio, há que tirar lucro; mesmo um desgosto ou uma traição, sob certa perspectiva, significam lucro. Menos do que isso nem serve o florescente exercício da confissão entre amigos às primeiras horas da madrugada.

 

2.

Acreditei que rejeitá-lo me faria digna do amor. Acreditava que o amor fosse o vento açoitando o tronco da nossa natureza. Acreditava em Deus – Deus é uma grande tentação para os solitários. Mas que não procure um padre quem procura amar. O padre dir-te-á: “Hás-de amar. É teu dever amar”. E tu não o compreenderás de imediato. Tais palavras não servirão de consolo à tua incapacidade de amar – essa incapacidade tem uma precisão cortante, definitiva, e um sentido inequívoco, o da solidão, de que se regozija o padre, mas não tu.

*

Depois, caminhando pelas zonas altas da cidade, procurando as melhores vistas sobre o rio, espantei-me que não tivessem ainda derrubado os bairros insalubres da encosta para construir condomínios de luxo – quem vivesse dormiria de olhos limpos pelo rio e de costas para a pobreza da cidade. É por causa dos aluimentos, pensei. Chove muito e o terreno é instável. No Inverno há sempre notícias de derrocadas e de gente soterrada. Pensei que o amor não seria a criação de um espaço mas o afundamento do que existe já. Que o amor é um acidente, a terra dobrada, a supressão do lugar.

*


“Prosterna-te”, dizia o padre, “esse é já um estilo de amar. E tu hás-de amar. É teu dever amar”. E eu pedi a Deus que me mostrasse o amor frugal ao próximo, o amor do filho pela casa, do cordeiro pela lâmina. Mas pensava no conhecimento cruel que cada amigo tem do seu amigo. Pensava nos dedos ásperos e deformados do meu amante, nas varizes da minha mãe, no suor enegrecido pela fuligem das fábricas nas camisas do meu pai. Pensava nos operários de todo o mundo regressando a casa de camioneta ao fim do dia. Pensava no hálito forte deste homem, na verruga no rosto daquela mulher, na fácil e traiçoeira compaixão que se sente às vezes por um desconhecido.
Tinha dito o padre que o amor é um imperativo. Não uma aptidão, uma faculdade. Nem sequer mencionara a hipótese de uma humilde aprendizagem.
O padre tinha razão. Com o tempo também eu deixei de acreditar no amor que, como uma gramática, se decora, obediente e sereno. Deixei de acreditar na espera e no gosto adquirido. Soube que o amor viria como veio, sem qualquer cedência da minha parte, sem paciência, ou então não viria.