Esta es la mano que cuida

Yo[1] lo aprendí así:

1. todo árbol es un conjunto de órganos que realizan una función.

2. todo animal es un conjunto de órganos que realizan una función.

3. todo elemento es un conjunto de órganos que realizan una función.

4. antes de exponer la anatomía hay que comprender y esperar lo que vendrá de dentro. [2]

5. todo objeto o animal que se quiera introducir se someterá a la cuarentena. Invasión, daño, plaga,  aquí no es posible la permanencia del riesgo.

6. sin la mano que cuida [3], sin la voz que ordena,  comportamiento y especie están destinados a desaparecer. Este es ellazo innato de unión al mesías y al pastor.

7. al verse amenazados tendrá lugar una verdadera digestión del tejido y del cuerpo de todo lo que se oponga a su paso.

8. vivir en grupo hace más fácil el avistamiento y la detección de los depredadores.

9. cuando se sucedan acontecimientos anormales en el grupo no tendrá lugar ni autopsia ni debate. No se permitirá levantar la vista fuera de[4] los límites establecidos.

10. después de todo esto, creemos que el lector con inquietudes por saber y conocer se encuentra al fin preparado,  en condiciones de comprender el tremendo daño y dolor que ellos, por el bien de los demás, soportan.

 

A mí me[5] lo contaron así:

a)      por lo que todo rebaño es un conjunto de órganos y células realizando la misma función.

b)      todos los elementos que lo integran pueden no tener la misma fisiología ni los mismos mecanismos de voz y digestión.[6] 

c)      aquí es obligatoria la armonía, y el objetivo que se persigue siempre es el mismo: cuidar para que todos al día siguiente sigan siendo los mismos[7] supervivientes.

d)       no podemos afirmar[8] con exactitud cuando apareció dicho comportamiento.

e)      sí alzamos la voz y os decimos que todo está lleno de nosotros.

f)        nosotros [9], especies invasoras, dañinas, inalcanzables. Llegamos alciclo biológico, abordamos el ecosistema, alteramos el orden y los nichos llenándolos de diálogos y de amantes. 

g)      todos saben que un animal en vuelo también puede ser una isla, por eso nunca levantan el rostro.

h)      se dejan acariciar por las mismas manos que confían en la cirugía y en la terapéutica, por las mismas manos[10] que realizan el sacrificio y el desollamiento.

i)        nunca los verás llorar. Nunca los verás gritar a la carroña. Así fue establecido por ellos.

j)         aquí alimentarse de hierba significa[11] lavarse la boca.

 

[1] “Muchas veces pienso en cortarme el pelo, otras en cortarme la garganta, otras en arrancarme los ojos. Disculpe, doctor, es sólo una manera como otra cualquiera de hablar de mí...” Fleur Jaeggy

[2] “El primer síntoma de la debilidad es el de las fructificaciones abundantes.” A. Rupérez Cuéllar

[3] “Y pasé junto a ti y te vi agitándote y te dije:

"¡en tu sangre vive!". Y te dije: "¡en tu sangre vive!".”

Ezequiel 16, 6.

[4] “Hay algo antiestético, sucio, en el alboroto de los muertos que quieren vivir.” Yoram Kaniuk

[5] “Meu órgão de morrer me predomina” Manoel de Barros

[6] “Tenía alas de ángel, pero ya olía, olía mucho.” Gonçalo M. Tavares

[7] ¿Quisiste desmayarte a base de absoluto? Hamutal Bar-Yosef

[8] “Este capítulo de las enfermedades no resiste ni el más ligero examen de un especialista, pero ha sido redactado únicamente para satisfacer la curiosidad de algún lector.” A. Rupérez Cuéllar

[9] https://www.youtube.com/watch?v=JWnX41TBFF4

[10] ¿Quién de ellos me devorará primero? Al Berto

[11] “pueblo pequeño, infierno grande”

 

[ver perfil de María Mercromina]

Nicanor Parra, "O Homem Imaginário" e "Então"

Tradução de Bruno Ministro

O HOMEM IMAGINÁRIO

O homem imaginário
vive numa mansão imaginária
rodeada de árvores imaginárias
na margem de um rio imaginário

Dos muros que são imaginários
pendem antigos quadros imaginários
irreparáveis fendas imaginárias
que representam factos imaginários
ocorridos em mundos imaginários
em lugares e tempos imaginários

Todas as tardes tardes imaginárias
sobe as escadas imaginárias
e debruça-se na varanda imaginária
a contemplar a paisagem imaginária
que consiste num vale imaginário
circundado por colinas imaginárias

Sombras imaginárias
vêm pelo caminho imaginário
entoando canções imaginárias
ao morrer o sol imaginário

E nas noites de lua imaginária
sonha com a mulher imaginária
que o brindou com o seu amor imaginário
volta a sentir essa mesma dor
esse mesmo prazer imaginário
e volta a palpitar
o coração do homem imaginário

 

De Hojas de Paja (1985)

 

 

ENTÃO

não estranhem
se me vêem simultaneamente
em duas cidades distintas

ouvindo missa numa capela do Kremlin
ou comendo um hot-dog
num aeroporto de Nova York

em ambos os casos sou exactamente o mesmo
ainda que não pareça sou o mesmo

 

De Hojas de Paja (1985)

 

The wind

Apocalyptic  screams,  enraptured  visions  yelled  at  the  moving air,  they  pronounce  obscenities  and  biblical  quotes,  whores eternally damned wander the streets, are they crazy, drunkards or just regular people, not even they know it for sure, freaks all around  me,  pink,  purple and rainbow  hair falling  over  pierced faces,  an  old  man  talks  about  the  wind  in  French,  he  barely walks,  his  foe  never  lies  down  to  rest,  a  tattooed guy  has  the dog on the leash, man, your dog is picking some shit from the floor,  on  the  sidewalk  open  hands  mingled  with  restaurant tables, «un peu money, s'il vous plait», blonde women all legs getting out of erotic clubs, the peep shows are on sale, pop-rock music  in  French  is  the  main  theme,  but  they're  playing deathrock at the Dollorama store, the second hand cd-dvd-book establishment overwhelms you, but not so much as the no-name trendy shop where they offer you a glass of vodka that can also be  tap  water,  stuffed  animals  and  used  clothes  only  sold  at weekends, the sun coming down on the city, a sofa just left near your  building,  its  color  goes  nicely  with  the  grass,  the  cold enemy  relentlessly  blows  and  you  know  an  afternoon in Montreal has just gone with the fucking wind.

A lebre na barriga

Quando fugi da colina sem o aviso prévio dos 15 dias, sem dar um ciao aos animais 

o homem do monte, aliado à Liga dos Direitos dos Bichos 

pôs a polícia no meu encalço por abandono premeditado. 

Desse modo, antes de mergulhar no doce anonimato da cidade, tive de mudar algumas das minhas características pessoais. Para começar, não que isso interesse, tornei-me platinada e mudei de nome. 

No centro de emprego onde me desloquei perguntaram-me o que sabia fazer,  

olhar e escutar, venho do campo, acrescentei envergonhada. 

Não havia nada para quem chega do campo e sabe olhar e escutar, falaram-me da crise. 

Imaginava lá que a crise era argumento, na colina, no campo é sempre crise, não há fins-de-semana, há sempre o que fazer, todos os dias são luta pela sobrevivência. 

Aí ela lembrou-se: tenho vidros para lavar se achar que pode usar os braços,  

eu achava e usei-os tão bem que me recomendou a outras senhoras. 

Pagam-me em arroz e embalagens de comida que sobram dos jantares que dão. 

Nada me atinge. 

Boas senhoras, oferecem-me por pura gentileza, para além do pagamento que me é devido, outro suplementar e afogam-me em écharpes de seda coloridas azuis verdes laranjas estampadas 

a minha saudade traduz: asas de colibri borboleta bico de lacre 

lavo com elas os vidros. 

Quando me encontro pensativa e me interrogo sobre o tão famigerado sentido da vida sinto uma coisa na barriga aos pulos, mas logo passa 

quem comeu a companheira das caminhadas não tem nada que pensar. 

 

[ver perfil de Sara Monteiro]

O poeta no supermercado

para o Fernando Assis Pacheco

 

 

repara bem, não foi a promoção
da beringela
que me trouxe até aqui
muito menos
a alface da manhã

 

confesso, eu vim pra te ver
e comprar muesli foi
o pretexto mais credível
que encontrei até hoje

 

apaixonar-me é o meu signo diário.
exato, fechar janelas, abrir portas
ao destino e pressagiar o amor:       
essa forte probabilidade
de um dia o preço combinar
com o meu sorriso amarelo
e dar-te o meu número num talão