Oráculo 0

Uma flor selvagem
ou uma subtilíssima rosa de terror a enlaçar-nos o tornozelo
como uma estrela felina
um cordão de sangue subitamente desatado
a empurrar-nos gota a gota contra o verso transbordante
a afiar-nos as navalhas
a compelir-nos docilmente sobre o esforço de cair

Ou o nome,
apenas o nome original
o nome incendiário por entre as vozes ascendentes das mulheres
esquerdinas
e os plátanos dos palácios incendiados
e leopardos que brilhavam ao redor da madrugada

una forma de arder, 7

Dije:
un poema ardiendo es la salvación,

y me golpeaste hasta desfallecer,
me dijiste, observa:

ahora el verso es una gran cicatriz perenne
sin dueño
un cuchillo que cae y se pierde en la herida.


Ángel de la Torre, Córdoba, 1991. Licenciado en Filología Árabe. Este poema pertenece a El río es un decir, publicado en La Bella Varsovia. 


Un animal lame el dolor como lame una pata, un hocico o los restos de
carne en el cuenco. Con la misma insistencia.

Una astilla no grita, no tiembla o se ríe; es la certeza del dolor quien se
Aproxima desnuda, como lo hacen la sed, el hambre o el miedo.


Uxue Juárez,Pamplona, 1981) es escritora y profesora de instituto. Este poema pertenece a Bajo la lengua, bichos, publicado junto a las ilustraciones de Daniela Spoto por Stendhal books.

Agustina e a adopção completa do fogo

João Vuvu, personagem principal de Vai e Vem, de João César Monteiro, diz a Fausta que “o mundo das quimeras” cheira a “mofo”. 

Em Agustina Bessa-Luís, também os discursos emancipadores sofrem um desmantelamento intenso, uma vez que postulam uma redução do humano que, mais do que absurda, é perigosa: a amálgama, pretensamente generosa e benéfica da igualdade, aniquila a capacidade de transfiguração, em grande medida assente nas estrias provocadas pelo atrito. A individualidade, e não o individualismo como algumas leituras precipitadas fazem crer, é o que aparece preservado na obra da autora.

Por definição, todos as incontáveis rotas levadas a cabo nos livros de Agustina só admitem uma aproximação que se faça de frente, i.e., a transversalidade acarreta sempre a desconsideração de algumas características demasiado importantes: passar por cima do caos não é, no fundo, relacionarmo-nos com ele. Escolhemos, por isso, a personagem Amélia, de O Sermão do Fogo (1962). 

Lemos que “(...) a vida humana significa só duas coisas: resistência e desistência. Entre uma e outra, quanta palavra inútil e sentimentos escusados” (p. 162). Ora, essa é a inscrição de Amélia no mundo: resistência que é levada a cabo enquanto prerrogativa, ou seja, como potencialidade ou hipótese. O que não a faz desaguar na mera gratuitidade da abertura que tudo se dispõe a agregar: Amélia vai densificando a sua experimentação tendo como “bandeira” a “esperança”.

Prometeu, segundo Ésquilo, deu aos humanos não apenas o fogo mas também, muito especialmente, a esperança; e a esperança e o fogo (aqui, esperança-fogo) animam igualmente a questionação do Logos por parte de Heráclito. Todavia, aí - e neste Sermão - “esperança” não se insere num autismo ou sequer paliativo como resposta à realidade: é pela esperança, pelo assumir da liberdade e dos seus riscos, que Amélia incorpora o Pathos e fustiga os alicerces do determinismo. Daí que o combate por parte dessa pulsão de rompimento em Amélia se trave quer contra lógicas de eficácia – pós-modernismo e o apagar da diferença graças ao significante –, quer contra enunciados mitificadores – oráculo inquestionável e o dogma hermenêutico da essencialidade. Mas também não será o meio-termo: é “irromper pelo meio”, pegando na expressão de Deleuze.

Com efeito, Amélia ao perguntar “Mas o que é natural senão a uniformidade, e, de qualquer maneira, o descentrarmo-nos do fogo?” (p. 229), identifica com clareza aquele que é para si o motivo do amesquinhamento do carácter humano. E só uma personagem em constante contacto com o Outro consegue aperceber-se disso mesmo, daí que a postura de Amélia seja tudo menos alheada: é, pelo contrário, comprometida. 

O poder da relação dialógica com Maria Consolata é outro testemunho das cesuras através das quais Amélia vivencia o mundo: “O seu demónio mais pertinaz tinha sido enfim domado, e ela sabia que com ele se retiravam as mais profundas cláusulas do medo e da tristeza. A inconstância deixava enfim o seu coração, e havia nela agora uma identidade com Maria Consolata (…)” (p. 271). Aqui, não parece ser à derrota que se alude mas sim à superação da volatilidade dos temperamentos débeis. A criação de linhas de vida exige a elasticidade da deriva e, simultaneamente, a prudência anti-dissolução, uma vez que a desmesura anula, originando linhas de morte: a vontade de experienciar – obrigatória - convive com a imprevisibilidade.

Assim, a protagonista do romance O Sermão do Fogo ao fugir da tipificação literária canónica, serve de paradigma da insubmissão: “A vida, porém, aceite nessa nudez, a adopção completa do fogo, sem nomes líricos e sem fraternidades, a vida destacada em cada um na sua forma absoluta, isso é que faz as criaturas fantasmas divagadores.” (p. 192). Amélia, anti-Medusa, move-se pela procura instransigente do “ verdadeiro estado, alucinante estado de liberdade em que só o amor pode salvar” (p. 277).

Obra de paradoxo e de desafios éticos, a escrita de Agustina Bessa-Luís tem somente uma lição a dar-nos: a de que a atitude de recusa, para ter amplitude, carece da disponibilidade para o inapropriável, como acontece com a vida e com a Literatura

As Aventuras do Senhor Lourenço (§5 entre revoluções copernicanas e sexo)

(cont.)

Um dia, Lourenço olhou para o Sol e decidiu fazer uma revolução copernicana ao contrário (de Kant): tudo passaria a girar em torno de uma pedra angular situada imprecisamente numa qualquer constelação de alteridades, preenchida por coisas, pessoas e outros organismos. Ele seria o não-centro central, um ponto de ausência que ainda assim definiria, através de uma extremada discrepância ontológica, o núcleo de atracção fora de si. Talvez os buracos negros funcionem desta forma. Em qualquer dos casos, era isto que lhe apetecia imaginar ser.

[caros leitores, relato este episódio sem o perceber muito bem, mas a intensidade compensa a obscuridade. Por outro lado, como dizia Sartre, enquanto houver liberdade, o pior dos crápulas pode tornar-se digno e a pessoa mais corajosa ficar ignóbil]

Durante algum tempo, Lourenço foi a pessoa mais amável que alguma vez conheci. Todo ele era cortesia, ajudava como podia uma associação animalista, limpava praias, dava prioridade aos outros automóveis (normalmente atribuo sentimentos a estes objectos animados), enfim, era um buraco negro virado do avesso, expelindo simpatia e generosidade sem contar. Esta metamorfose teve consequências. Muitos passaram a gostar do Lourenço, rendidos à sua nova bondade e, talvez a maioria, sossegados pela mansidão que o tinha capturado.

Mas não foram só as relações sociais que se alteraram. Fisicamente, Lourenço ficou com o corpo mais roliço, ganhou um brilho nos olhos e, coisa estranha e nunca explicada, a face harmonizou-se de tal forma que alguns suspeitaram de bisturi estético.

– Lourenço, Lourenço, espera!

Era a Manuela, amiga do João e divorciada há pouco tempo de um marido meio toureiro meio gestor, capaz de esvaziar uma grade de cervejas sem qualquer remorso ou desequilíbrio. Um verdadeiro campeão. Mas esgotado na vida familiar, não brincava com as filhas nem comia a mulher. A porta de casa era uma figura de Janus de valor antagónico: o lado da entrada deprimia-o, o da saída exaltava-o.

– Olá, Manuela, vens para baixo?  – A escola ficava num pequeno alto, como se tivesse sido pensada à maneira da Academia platónica (Portugal tem a mania das grandezas académicas).

– Vou, posso acompanhar-te... Olha, sabes que o 10.º C [turma de alunos] anda a portar-se mal?

– Como?

– Então não é que a Júlia estava aos beijos ao Ricardo em plena aula [Física e Química]!

– Coisas da idade. – Respondeu Lourenço, usando a ideia estafada, mas agradável, do cio associal adolescente.

– Sim, continuou Manuela num tom ligeiramente esganiçado, mas isso não se faz, pu-los na rua e dei um sermão à turma.

– Sermão para quê?

– Para quê?! Eles têm de saber que numa sala de aulas não pode haver determinados comportamentos. Que não estamos sozinhos, que têm de respeitar o professor...

Lourenço conhecia bem esta ladainha, ouvira-a centenas de vezes. Noutros tempos ainda atendia às pequeníssimas variações que faziam com que cada relato ganhasse alguma individualidade. Agora não, punha uma face de interlocutor interessado e fingia escutar.

Talvez o leitor se pergunte se isto não prova que Lourenço nunca ultrapassou o estrato do cinismo, dissimulando o desdém por detrás de uma bondade encenada. Não saberei responder, eu próprio, o seu amigo mais consistente, guardo dúvidas sobre a autenticidade deste período. Ao mesmo tempo, acredito que Lourenço se achava totalmente honesto no estilo de vida angélico que adoptou. A existir fingimento, é como se houvesse algo que mentisse nele apesar dele. Um terceiro elemento acima, e ao lado, de si e dos outros, um vector cósmico com preocupações sociais que tivesse escolhido este rumo para salvar Lourenço de si mesmo.

Naquela tarde lanchou com a Manuela e depois fodeu-a, ou melhor, fez amor com ela, mas estava tão preocupado com os seus orgasmos que não chegou a vir-se.

Tudo começou na pastelaria. Havia dois pretos manganões na mesa do lado, falavam uma língua estranha e o empregado nunca mais se despachava com a conta. Lourenço começou a sentir a velha indisposição de misantropo suburbano (pode-se viver em Lisboa e ser suburbano, até aldeão), que raio de africanos incultos, com corpos inchados por músculos exibicionistas e lábios demasiado carnudos que apetece espremer, não sabiam estar num espaço público sem esmagarem a linguagem com os seus vozeirões. E os empregados sem fibra para emigrarem à procura de vidas a sério arrastavam-se, fingindo trabalhar, prontos a lançar o ressentimento de medíocres licenciados em cima do primeiro cliente atípico. Foi isto, mais do que a beleza ou a libido, que o levou a perguntar a Manuela se não era melhor irem até casa dele acabar a conversa do 10.º C. Manuela ficou embaraçada, mas acabou pode dizer “pode ser”. Mal saíram da pastelaria, Lourenço sentiu um alívio profundo, como quando se volta a respirar depois de alguém nos apertar o pescoço durante um bom minuto. Sabia que a proposta era estúpida, a casa ficava num prédio degradado, estava imunda e nada tinha valor para além de uma estante carregada de livros de filosofia, que pouco deviam interessar a Manuela (e ao Menino Jesus, que pelo vistos não sabia ler). Tudo era velho e barato, até a televisão seguia o formato cubo. Antecipou o olhar de desagrado, preparou desculpas e pôs o ar de intelectual indiferente às coisas terrenas. Quando abriu a porta ouviu: “que giro, mesmo giro, parece confortável”.

– Senta-te, queres alguma coisa para beber ou comer?

– Não, estou bem, muito bem.

– Então fala lá do 10.º C.

– Tens razão, disse Manuela, são coisas da idade, talvez não valha a pena perdermos tempo com isso.

– Como queiras, e a vida como vai?

– Soubeste do meu divórcio?

– Sim, lamento.

– Porquê? Ele era uma besta, um bêbado, estúpido de merda, vou ficar com tudo, tudinho, nem a mota lhe deixo levar.

Silêncio. Lourenço olhava para a lombada da Crítica da Razão Pura, livro infinito que nos vem dizer que o conhecimento é finito, que não podemos conhecer tudo, que ignoraremos para sempre por que razão a alma é imortal, porque somos livres, o que é o mundo... Recordava que o tinha lido na íntegra aos 30 anos de idade, sem perceber muita coisa, mas era um feito assinalável, quantas pessoas se podiam gabar de tal vertigem?

– Desculpa Lourenço, vim perturbar a tua calma, se calhar até tens coisas para fazer, trazemos sempre trabalho para casa...

– Não, não, estava aqui a pensar... – a pensar no quê, não lhe podia falar da Crítica, nem no embaraço que sentia por tê-la ali, bem vestida e bonita, na sua espelunca –, estava a pensar que talvez... não sei, gostava muito...

– Sim, de quê?

– ... de te beijar...

Silêncio, agora de outro tipo, aquele que parece precipitar uma explosão. Lourenço preparava-se para a fúria ou, pior, a ironia: “quem és tu para me pedires um beijo, já olhaste bem para o espelho, és ridículo...” Preparava-se e nada acontecia. Cada segundo adensava mais o seu pavor, quis que os lábios da Manuela se colassem para sempre, que mais nenhuma palavra pudesse sair da sua boca. Quis até que um raio rasgasse o apartamento ao meio, ele para um lado ela para outro, esturricados até à medula. Mas não.

– Então anda cá. – Disse Manuela enquanto fazia um ligeiríssimo gesto condizente com o dedo, parcela de filme lamechas.

E Lourenço foi, e depois de ser apalpado, apalpou por sua vez. Tudo lhe parecia de óptima qualidade debaixo da roupa. Ela pôs-lhe a mão entre as pernas e Lourenço sentiu pela primeira vez que o céu existe, mas não o anódino que nos ensinam na Igreja, um outro cheio de almas prontas a estourar. Depois, despiram-se, um pouco à pressa, ela a deixar ver um corpo belo e espasmódico, ele encolhido, com a sua barriguinha irrecuperável e uma pelugem que não podia esconder o branco enfermaria da pele. Já no quarto, abriram a cama, cada um do seu lado. Lourenço espreitou os seios nus e pendentes da Manuela dobrada, uma mão a puxar a colcha e o lençol para trás, outra ligeiramente afastada do corpo com a responsabilidade de o equilibrar. Creio que nenhum pintor alguma vez se inspirou nestes momentos sem som, nunca ninguém viu o poder imagético, axiológico e fisiológico desta antecâmara sexual. Só Lourenço, só ele podia parar o tempo e desenhar mentalmente clichés eternos e mudos que depois de somados estabeleceriam o campo completo de categorias da vida.

Deitaram-se, a cama estava fria. Encostaram-se, de frente não dá muito jeito. Beijaram-se, e o Lourenço que por vezes cheirava um pouco mal da boca. Manuela não, tinha a boca mais fresca da escola, apetecia ir lá buscar comida. A mão esquerda do Lourenço no seio direito da Manuela. Manuela a puxá-lo, com força, um pouco de unhas (de gel). Lourenço atado pelo medo de se vir já ali, ainda nos preliminares dos preliminares. Manuela com a vagina a humidificar-se. Lourenço com o pénis a rebentar por todos os lados.

– Gostas de sexo oral. – Perguntou Lourenço.

– Claro, anda cá.

E Lourenço foi. Também a vagina sabia e cheirava bem, Manuela era pura. Esta parte demorou, tanto que depois foi só deixar que a Manuela fosse para cima, pusesse o pénis dentro dela, subisse e descesse algumas vezes, e aí estava ela a contorcer-se de prazer, gritando que “era isso”, “era isso”, “era isso!”

Tempo verbal estranho, pensou Lourenço. E ela a sair, a tirar o instrumento (ao arrepio do “trata sempre um pénis com um fim e nunca como um meio”), a deixar-se cair para o lado direito da cama. Lourenço puxou o lençol e ficou mais quieto e silencioso do que uma pedra. “E agora?”, pensou, pensou novamente, repensou, deixando-se colonizar totalmente pelo futuro próximo.

[moral provisória da história, que costumo repetir a mim mesmo: a bondade compensa mais do que ver pornografia ou fazer tatuagens; menos do que um BMW potente, é verdade, mas mais do que o velho marialvismo de pacotilha]

(cont.)

Amo volucres, Lydia, sic breves

Amo volucres, Lydia, sic breves
rosas eas quae hoc simul in die  
        quo terra de hortis Adonis
        progenuit, proxime necantur.  

nascentibus lux permanet semper haec  
rosis ubi iam sol natus et ortus est
        et antequam cursus Apollo
        visibiles radians relinquit   

mox finiunt hic. Vita dies ita
nobis sit unus sponteque, Lydia, 
        nil nesciamus post et ante
        futtile tempus in quo moremur.   

Ricardo Reis, 

Ode I.2 

Adaptação ao latim de Pedro Braga Falcão (em estrofe alcaica)


As rosas amo dos jardins de Adónis

As rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
        Que em o dia em que nascem,
        Em esse dia morrem.


A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o Sol, e acabam
        Antes que Apolo deixe
        O seu curso visível.


Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
        Que há noite antes e após
        O pouco que duramos.


11-7-1914

Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994), p. 34.


1ª publ. in Atena , nº 1. Lisboa: Out. 1924.