Lançamento de São Luís dos Portugueses em Chamas e Outros Textos

Gastão Cruz e Tatiana Faia

Gastão Cruz e Tatiana Faia

Ontem, 27 de Maio, no Bar Irreal, ao Poço dos Negros, Lisboa, a Enfermaria 6 lançou mais um livro (já lá vão 7, mais 3 cadernos). Desta feita, o trabalho de escrita da Tatiana Faia que temos vindo a anunciar aqui: São Luís dos Portugueses em Chamas e Outros Textos.

Lança-se um livro como se lança o martelo? Nietzsche diria que sim, ambos são armas que amassam os velhos edifícios enferrujados para que a sucata dê lugar a organismos vitais imbricados com o espírito do tempo (o velhíssimo Zeitgeist sempre actual).

Lança-se um livro como se lança o dardo? Longe, tanto que a autora nem vê onde ele aterra e se alguém o apanha e atira para outro continente.

Lança-se um livro como se lança uma seta? Perigosa e vibrante, nunca em linha recta, que assim viaja-se menos.

Talvez uma mistura dos três, e mais outros tantos modos, ninguém sabe realmente como se lança um livro, mal se liberta das mãos da autora e lançadores dá-se à sua maneira aos leitores, e estes, por sua vez, apanham-no e chegam a virá-lo do avesso, quando não lhes acontece isso a eles.

O que disse eu, trivial mestre de cerimónias: “li este livro admirável mais do que uma vez e com finalidades hermenêuticas diferentes, nunca me deixou triste e amplificou sempre a minha visão do mundo. Por outro lado, evita a simplicidade de orbitar à volta de uma espécie de pan-ansiedade que hoje tornou metade da população frenética e cumpridora, enquanto a outra metade é empurrada ou se empurra a si mesma para um pessimismo indolente. O São Luís... contém uma extraordinária galeria de personagens, o que lhe permite testar um alargadíssimo campo de vida, dissecando amostras significativas e pondo a funcionar novos dispositivos, orgânicos e inorgânicos. Tatiana é uma demiurga e comentadora da vida, mas dispõe-se também a um descentramento que privilegia o exterior, deixando-o muitas vezes tomar conta da narrativa, introduzindo deslizamentos, abanões e suplementos vitais. É por tudo isto que se deve cumprir o talento de Tatiana Faia. Finalmente, referi que o seu mundo da escrita se inspira e trabalha na Grécia Antiga, ao mesmo tempo que ama criticamente a actualidade e o nosso autocontentamento racional; a vertiginosa variação do tom, dos temas e do estilo permite a Tatiana Faia produzir uma espécie de mitologia vazia, onde clichés presunçosos e infrutíferos, ou desenhos clássicos, se transformam em nada.”

Gastão Cruz, magnífico poeta e crítico rigoroso, partilhou connosco a sua leitura de São Luís..., falou do sentimento de exílio, ele também esteve em Inglaterra, como leitor de português no King’s College, das referências cinematográficas e literárias, do jogo narrativo que Tatiana produz a partir de uma inscrição comprometida com a realidade. Mas deixou sobretudo duas pistas de leitura: uma é a incomunicabilidade, as personagens de São Luís... não conseguem tecer sentidos comuns, há uma barreira que impede fusões compreensivas entre o eu e o outro, entre o isto e o aquilo, o aqui e o além. As distâncias tornam-se, as palavras são minhas, incomensuráveis. Mesmo assim, com a ajuda da autora, soubemos que tudo é preferível à solidão, que “mais vale mal acompanhado do que só”. Gastão Cruz pôs a segunda pista de leitura nas relações, múltiplas relações que constantemente se tecem, nem sempre para o melhor, entre a narradora e as suas personagens e outras coisas e animais (escafandros ou gatos, por exemplo), e no interior dos textos, com a autonomia que a escrita foi ganhando (a própria Tatiana revelou esta condição do seu trabalho, os planos prévios são rudimentares sem determinações). Pode parecer contraditório justapor incomunicabilidade e relacionismo (permitam-me o neologismo, foneticamente bizarro, eu sei), mas trata-se de uma aposta, misturando a esperança pessoal e a literária, as várias Tatianas que acreditam em formas de redenção ligadas ao cuidado e a estima pela alteridade.

Gastão Cruz disse ao jornal Público, 5/4/2015, que: “Já me sinto um sobrevivente. Tive a sorte de ter amigos que admirava – e que continuo a admirar – e que pude acompanhar e ler à medida que iam fazendo as suas obras, algumas delas fundamentais na história da poesia portuguesa. E depois fui vendo esses amigos desaparecerem.” A esta delicada oração fúnebre juntou-se ontem, no entanto, a crença em que Tatiana Faia faz parte de um movimento de renovação da literatura portuguesa (cito de cor). E assim se cumpre outro desígnio (estas são ilações totalmente minhas) o de abrirmos as portas a uma nova escrita, menos sujeita a histórias encantadas, cheias de mistérios e truques estilísticos, mais inclinada para desafiar o estatuto e o lugar de autores e leitores, de críticos e editores, porque é uma escrita, como disse Gastão Cruz, quase impossível de catalogar.

 

Tatiana Faia, uma escrita em devir

O São Luís dos Portugueses em Chamas e Outros Textos da Tatiana Faia é um livro de um só fôlego, sempre a lutar contra a opressiva perfeição da linguagem (há alguma coisa que ela não possa dizer?). Rasga com precisão, e alguma crueldade, os véus que ocultam o agon arcaico que preside, sem que muitos o saibam, a todos os jogos florais do entretenimento social. Antes da domesticação dos humanos só havia centauros, cada um com o seu hibridismo particular. Pegando nisto, Tatiana Faia bane os clichés, cada figura, cada frase, cada palavra, cada gesto, cada silêncio… determina por si só um mundo inteiro. A sua escrita, comprometida, abraça-nos, com compaixão ou erotismo, às vezes as duas, cada uma a seu tempo, e deixa que nos enterneçamos, mas subitamente desloca-se dos afectos para um criticismo que incendeia tudo. É, por isso, uma escrita em devir que nos obriga a sair da toca.

Projecta uma voz polifónica, mas não foge da órbita, embora imperfeita, onde se dá a conhecer como puzzle ou patchwork identitário. Dizemos facilmente, e simploriamente: “é a voz da Tatiana!”. Apesar dos cambiantes que uma só jornada aventureira imprime em cada estrato dos seus textos. Viaja-se através do tempo para experimentar uma androginia pouco comum (talvez se aproxime do Orlando de Virginia Woolf). Vai-se mesmo, se ansiarmos por explicações, para além, ou aquém, do humano, acompanhados pela sabedoria grega, que muito antes de Darwin já sabia que toda a vida se misturava. Tatiana Faia é uma autora/narradora em devir, devém gato, ou homem, mulher ou coisas inorgânicas... Esta capacidade e vontade de ser outra, outra coisa, permite-lhe escrever sem muitas condições, mesmo estilísticas, Tatiana ainda vive embriagada pela liberdade artística. Além disso, vindo e indo da poesia, a sua escrita não se presta facilmente nem ao comentário nem à discussão, ela agarra-nos num gesto rápido de lutadores de judo e atira-nos ao tapete. Mesmo se depois concede algum espaço para a análise crítica, a sua vitalidade é de pegar ou largar, sem mediações. Quanto a ela, a “vida que não é examinada não vale a pena ser vivida.” É isto que faz, examina a vida. Mesmo quando o delírio toma conta das suas personagens, trata-se de examinação. Olhar para cada pormenor a partir de todos os ângulos com mil olhos, como queria Nietzsche. E isto exige mestria e coragem, uma vertigem analítica que conduz para lá do bem e mal, isto é, um lugar onde até os santos podem ir para o inferno, ou os assassinos para o céu.

            Estes contos são simultaneamente actuais e inactuais, intempestivos, no sentido em que sopram sobre as brasas que ateiam labaredas no interior da normalidade quotidiana, e ao mesmo tempo procuram oxigénio noutros sítios. Por outro lado, Tatiana Faia usa bem a liberdade que o conto consente, quase tudo é permitido neste género, até a lentidão da hesitação interminável, mesmo se nos parece à primeira vista, e dentro de preconceitos muito resistentes, que aí se deve ser rápido e surpreendente.

Finalmente, Tatiana Faia deixa-nos uma magnífica colecção de máximas, ela conhece a arte de concentrar numa frase visões que demoraram séculos a serem formuladas e explicadas, recorrendo-se normalmente a livros inteiros. Por exemplo: “Errar serve para nos lembrar de que precisamos de merecer o amor dos outros.” Nesta frase condensa-se uma ética completa; ou “O mundo vai estar sempre cheio de gente disposta a dançar no escuro e vai sempre haver amendoeiras em flor ao longo de certos caminhos.”; ou “a única inteligência que importa é a amadora.”; ou “Algum amor pelo precipício é necessário para passar dos limites.” E tantas outras, ao virar de cada página, prontas a sacudir os leitores mais atentos. Faltando falar de vós, leitores, sugiro que entrem destemidos, por qualquer porta, está tudo acordado e pronto a receber-vos. 

As Aventuras do Senhor Lourenço (§19 música álcool e Dioniso, Bacanal parte II)

(cont.)

À meia noite, a discoteca começou a encher. Lourenço estava perto do balcão, virado para a pista com a Manuela ao seu lado. Os colegas cumprimentavam-no depois de entrarem, todos o fizeram com sinceridade. O Dj tinha uma playlist entre The Neighbourhood e Artic Monkeys, talvez recomendada por Lourenço, mas não estou seguro disso. Manuela irradiava felicidade, ondulando levemente o corpo com um copo de whisky na mão. Tinha um decote magnífico e a maquilhagem de €100 elevou-a à perfeição. Lourenço amava-a, mas não acreditava que ela ficasse com ele para sempre. Aliás, o sintagma “para sempre” cheirava tanto a vulgaridade que era melhor isso não acontecer. E Lourenço fez bastante para que Manuela o abandonasse.

À uma da manhã a pista abriu com Celebration. As colegas mais gaiteiras, quase todas meio embriagadas com baileys, saltaram para o meio e, suportadas pelos laços de cumplicidade feminina, dançaram com entusiasmo. Depois veio Everybody Wants To Rule The World dos Tears For Fears e a pista encheu. Foi a noite do Pop 80s, até Lourenço que não gostava de dançar, digamo-lo assim, entrou na confusão ao som de Funkytown, e nem o Uspide Down de Diana Ross o pôs novamente no lugar. O Dj animava a multidão nomeando o “herói Lourenço”, a quem “devemos a nossa liberdade” e que “mais algumas das nossas lágrimas não tenham ido salgar ainda mais o mar”. Um Dj culto? Competente, mas já meio surdo. Que importa?! Com Come On Eileen entrou-se em delírio, todo o Plateau, agora com muito mais clientes, pegou fogo.

Dioniso compunha e tocava música, só esta arte podia conviver com a sua desmesura, excesso vital, e mortífero, que nascia em cada um dos seus gestos. E Dioniso ressuscita constantemente, já não no aparato estético das Grandes Dionisíacas, mas em cada noite mais vibrante de todas as discotecas, de todos os festivais de música, de todos os bailes de aldeia... Dioniso preside aos histrionismo erótico que invade os corpos anti-cartesianos das noitadas de música, dança e alguns psicotrópicos.

Quando passou o incontornável Addicted To Love, Lourenço já ia no quinto whisky e Joaquim tinha-se juntado à festa (com ar carrancudo e sem um botão da camisa, umbigo à mostra), descobrindo, para seu espanto, uma nova simpatia por seios fartos. Mas em vez de se atirar à mamalhuda que dançava insidiosamente à sua frente, deixou que o empregado, cheio de gestos efeminados, se roçasse cada mais nele. A página tantas, perguntou-lhe, meio a sério meio a brincar:

– Queres chupar-me?

– Não, respondeu. Para logo a seguir, no que pareceu ser uma desculpa, acrescentar que o podia sujar.

“A vontade de perfeição leva à inacção”, pensou, um pouco a despropósito, Joaquim.

Foi a partir desta altura que tudo se precipitou, um feixe de loucura emergiu quando entraram The Rolling Stones e o seu Sympathy For The Devil. Os corpos emanciparam-se e assumiram uma esperança inverosímil em amanhãs radiosos, a discoteca tinha uma comunidade espasmódica com formas tensas e contorcidas, oscilando entre o esticado e o dobrado, pareciam seguir o tirso imaginário de Dioniso. Chegara a vez de se falar a língua dos relâmpagos, lançados, porém, ao acaso e sem a potência fulminante da mitologia. Como dizia Nietzsche, em quem esta língua era autêntica e importante, mas por razões mais nobres, “O corpo entusiasma-se, deixemos a alma fora de jogo.” No meio disto, Joaquim auto-dissecava-se à procura do pecado pagão que impulsionara irremediavelmente a sua decadência social, um apátrida sem génio. Lembrou-se de Álvaro de Campos: “Não posso estar em parte alguma. A minha / Pátria é onde não estou.” Mas num assomo de dignidade varreu tudo para debaixo do tapete e declarou-se fiel absoluto do pessimismo da força nietzschiano. Não por ser o mais duro, mas por ser o mais complexo, que a força em Nietzsche nunca teve que ver com domínio, tratou-se sempre de abrangência, da máxima abrangência possível.

Uma colega de português, adorável até ao ponto em que não era adorada (aí, em perplexidade furiosa, atirava-se à vítima como se fosse a única responsável pelo Pecado Original. Dizia, sem o dizer, “como te atreves a não me achar adorável, mas quem és tu para deslizares da unanimidade em relação à minha santidade?) meteu-se com ele.

– E se te apalpasse?

Lourenço, surpreendido, mas não muito, respondeu:

– Faça o favor, colega.

E a colega pôs-lhe a mão no sexo e apertou. Ao mesmo tempo tentou beijá-lo, mas Lourenço recusou, argumentando, mais mimeticamente do que foneticamente, que estavam pessoas a ver. E estavam, talvez mesmo a Manuela.

A colega prosseguiu na conquista.

– O mais histericamente histérico de mim, como vivia Álvaro de Campos em Pessoa, está aqui hoje para cometer uma loucura, Lourenço, vem, vem foder-me!

Lourenço ouviu vagamente o nome de Campos, histriónico e melancólico, e por isso aceitou, sem saber o que aceitava. Entraram na casa de banho feminina sem que ninguém se espantasse, parecia ser habitual naquele lugar a mistura de géneros. Tiveram que esperar que alguém saísse de uma cabine. Chegada a vez deles, Lourenço com a cabeça à roda, mais interessado num analgésico ou em vomitar do que em foder a colega. Alguns riram quando os viram entrar, justificando-se a velha tese de que com gracejos gratuitos se ordenou grande parte do mundo. Por outro lado, não havia nada de novo nesta escapadela, vazava-se num odre velho vinho novo.

Ninguém sabe o que se passou lá dentro, Lourenço jura que só vomitou e dormitou no colo da colega. Ela nega inclusive que alguma vez tivesse ido para a casa de banho com alguém, ela que nunca faltou ao respeito ou deixou de se dar ao respeito. Manuela estava, porém, furiosa. Gritava muito, mesmo junto ao ouvido de Lourenço:

– És um merdas, sabias, um merdas total.

Lourenço sabia que se saísse para a rua poderia olhar as estrelas sem medo de nada, mas tinha-se enrolado numa teia que talvez o prendesse para sempre no Plateau.   

(cont.)