vinte e cinco linhas

são vinte e cinco. vinte e cinco as linhas ofertadas

para que fale do meu Porto nascido a trabalho e granito para mim,

ali na Lapa nascida, para mim, no café Guarany onde 

os empregados de mesa permitiam que de graça me sentasse o dia inteiro,

para mim, no São João remendado a bandeiras e cascatas de estrelas, 

no mercado do Bolhão onde sonhei para mim os melhores 

palavrões, bordados a ouro na boca das peixeiras, para mim o Palácio, 

os livros os pavões o tamanho incalculável das tílias à sombra da adolescência, 

para mim a Sé e as gaivotas da manhã, lavrando por igual casamentos e funerais,

dorida no fado vadio de caves há muito moribundas, para mim 

o Porto das ruas, tão escuras antes de tanto turismo, que soturnas iluminavam 

prédios majestosamente habitados por crianças à porta e velhos à janela,

para mim as ruas e sua inclinação, que me criou assim orgulhosa

ensinando ainda que sem escola essa coisa digna de ser gente, que mesmo

pequena cresce até morrer, gente que não se vende a custo de senhorios 

ou bastonadas, para mim meu Porto de gente inteiriça

que chora mas logo ri, como consequência imediata do susto,

sabendo que quem inventa a sua história em marca-passo

faz da vida convulsão de pedra e de riso, ó dores

pulsando nas pernas duras dessas ruas, para mim comovidas, 

para mim sentença de glória, para mim imponentes, ó ruas 

da minha cidade, na lembrança de que é esse 

o número certo de linhas 

para que permaneça livre, 

erguida a cabeça.

(Fotografia de Egídio Santos)