Alfa

Um rapaz e uma rapariga. Ele chora. É um Domingo à tarde. O rapaz continua a chorar. A rapariga parece que lhe diz algo ao ouvido. O rapaz sorri. Continua a chorar. Chegam à linha. O comboio ainda não. Ele abraça a rapariga. Ela retribui com um beijo na boca. Não pára de chorar. Sim. Isto é uma despedida. O comboio aproxima-se. Eles abraçam-se. Agora mais forte do que a primeira vez. O comboio aproxima-se cada vez mais. Outro abraço. Mais forte ainda. O comboio pára. Ele olha para ela que olha para ele. Sobe para o comboio. É um Alfa. Continua a chorar. As portas fecham-se. Ele diz que a ama. Ela que o ama também. O comboio inicia a sua marcha. Ele caminha com o passo apressado. Tenta acompanhar o comboio e diz amo-te, amo-te. Ela? Não sei. Não consigo ouvir daqui. Ele continua. Agora corre. Amo-te. O comboio deixa a estação. Ele chora. Leva a mão à cara. Limpa as lágrimas e diz amo-te outra vez.

Salvatore Quasimodo, AUSCHWITZ

Lá em baixo, em Auschwitz, longe do Vístola,
amor, ao longo da planície nórdica,
num campo de morte: fria, fúnebre,
a chuva na ferrugem dos postes
e os enredos de ferro dos recintos:
e não há árvore ou pássaros no ar cinzento
ou acima do nosso pensamento, mas inércia
e dor que a memória deixa
ao seu silêncio sem ironia ou ira.

Tu não queres elegias, idílios: só
razões da nossa sorte, aqui,
tu, branda aos contrastes da mente,
incerta a uma presença
clara da vida. E a vida está aqui,
em cada não que parece uma certeza:
aqui escutaremos chorar o anjo o monstro
as nossas horas futuras
badalar o além, que é aqui, em eterno
e em movimento, não numa imagem
de sonhos, de possível piedade.
E aqui as metamorfoses, aqui os mitos.
Sem nome de símbolos ou de um deus,
são crónica, lugares da terra,
são Auschwitz, amor. Como de súbito
se esfumou em sombra
o querido corpo de Alfeu e de Aretusa!

Daquele inferno aberto por uma inscrição
branca: «O trabalho vos libertará»
saiu o fumo contínuo
de centos de mulheres empurradas fora
dos canis ao amanhecer contra o muro
do tiro ao alvo ou sufocadas gritando
misericórdia à água com a boca
de esqueleto sob os chuveiros a gás.
Encontrá-las-ás tu, soldado, na tua
história em formas de rios, de animais,
ou és também tu cinzas de Auschwitz,
medalha de silêncio?
Ficam longas tranças fechadas em urnas
de vidro ainda cerradas por amuletos
e infinitas sombras de pequenos sapatos
e de xales de hebreus: são relíquias
de um tempo de sageza, de sapiência
do homem que se faz medida de pelas armas,
são os mitos, as nossas metamorfoses.

Nas planícies onde amor e pranto
apodreceram e piedade, debaixo da chuva,
lá em baixo, pulsava um não dentro de nós,
um não à morte, morta em Auschwitz,
para não repetir, daquela cova
de cinzas, a morte.

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Saudações Romanas

cachos de flores rosa clarinho a crescer sobre campas anãs em latim
e um obelisco com homens de há vários mil anos em serpentina para o céu

algumas paredes todas de heras
uma ponte de pedra sem braços sobre o Tibre
com líquenes e rápidos que lembram as palavras villa di campagna

ruínas com ares condicionados nos andares de cima
e mercados de relíquias reprodutivas - 2 por cinco euros

vicino ao Palatino, um parque eduardo sétimo cheio
de mais uns quantos mortos a despontar da gravilha
e das ondas das ervas, onde nenhum cão dá por mim

um céu de azul e branco resguardado por nuvens
a condizer com os anéis grisalhos de certos querubins

chiese por toda a parte - nas abóbadas os humanistas
pintores descobriram a visão 3 D
mistérios, simpósios e aparições em

frescos de tintas manuais, antecipam a ilusão mecânica
do cinerama. Maria guardava todas estas coisas
em seu coração; eu sou turista, tenho uma objetiva

de auto-focagem e os rolos não se revelam mais.

Poucas vezes mais farei esta viagem

Poucas vezes mais farei esta viagem. A erva cresce com o trigo, as flores despontam, as árvores segregam resina e dão sombra à terra ressequida. Os campos estão lavrados, o gado pasta ordeiramente, o rio segue amordaçado. Há pássaros invisíveis no horizonte e outros escondidos em ramos longínquos. Feras ocultas em recantos sombrios, a lentidão da seiva sob a descarnação do sol. O pó repousa nas covas abandonadas pelo vento ou soergue-se desamparado no topo das colinas onde o tojo se inclina para os precipícios. Na povoação, desmoronam-se as pedras sob a cal, o sustento dos homens. Há frutos que se arredondam segundo geometrias bárbaras, apurando o gosto. E os insectos com a sua azáfama insone, divididos entre beleza e deslumbramento. E a areia dos caminhos, mais batida que o dorso de um cavalo, é a crina desta paisagem. Em breve deixarei de passar por aqui. Olho a íntima maturação dos campos e a solenidade dos estábulos. Vejo que tudo esteve sempre preparado.

 

De Fome (inédito)

der himmel über berlin

para ulf stolterfoht 

“alguns vieram em auxílio do céu”
disse ulf através da sra. waldrop
através de mim. caem os muros
diante desse telefone-sem-fio 

ou haviam caído antes por obra
de tradução, política e marretas,
e eis o céu novamente. em auxílio
dele eis a teologia que fabrica 

nuvens brancas sem as manchas
que lhe punham canaletto e cuyp.
do céu como paraíso em heaven 
vem o sopro da teologia tomista. 

rupturas aparentes, não no muro,
mas na parede de escolástica, ou ―
permitida a licença poética ― nas
palavras hermeticamente fechadas 

dos livros da lei, tão pouco prática.
anjos alçam o céu, que ne nous tombe 
pas sur la tête, que não suma sob co2.
alguém engasga em socorro do céu.