«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
Adaptação, Antecipação, Fé e Custo
/172. ADAPTAÇÃO
Sofria, sofria sempre, sofria de uma forma contínua e invariável; sofria de tal forma e com tal intensidade que qualquer alegria, por pequena que fosse, lhe era completamente insuportável.
191. ANTECIPAÇÃO
Desiludido com o presente, sentou-se à espera do futuro. Muitos anos depois, olhava para o passado com desespero e sentia ainda mais saudades do futuro.
211. FÉ
Todos os dias pela manhã, antes de ir trabalhar, levava o cão à rua. Ao fim-de-semana fazia o mesmo, apenas um pouco mais tarde. Caminhava ao ritmo do cão, num percurso quase invariável. Acreditava que era ele que passeava o cão, quando na verdade era o cão que sempre o passeava.
P.S. Pode ser de interesse para os leitores saber que o cão era branco.
232. CUSTO
Era um escritor de renome internacional, considerado porém um rematado machista, porque todas as suas personagens femininas obedeciam exclusivamente a uma exagerada visão masculina. Um dia o escritor cansou-se e escreveu um romance visto pelos olhos de uma mulher, considerado o melhor dos seus romances. Um ano depois da sua publicação o escritor ainda se vestia de mulher e estava a considerar colocar implantes mamários.
Apontamentos sobre o latir dos cães
/Corre, bicicleta, corre.
Varre as folhas dos meus joelhos esfolados e diz-me porque é tão curta a estrada,
Que foi inaugurada há cinco minutos e já se fez noite.
O caminho é de cinza e o pasto secou
As ovelhas emagreceram como os dentes gastos das velhas pretas de roupa e de luz.
As árvores bailam quando curvas o guiador.
Serão salgueiros?
Nem vi, tal a pressa dos rebuçados
Que se derretem nos bolsos descalços
Da rotativa vida a cem à hora
Ou o que a roda permitia.
A geografia muda
Como varia a ementa em casa,
Uma diferença no modo como se fazem as torradas
E as sopas com mais ou menos sal
Como convém aos velhos, senhores de razões.
Os anos dançam no esquecimento de muita coisa.
Morreu o cão,
Mas o gato imita-o. Pede comida e atenção
Na melancolia deste dia de Dezembro
E vai à rua no cio das gatas
E cruza telhados cheios de musgo e de salitre.
O meu corpo vai mudando.
É menos veloz, mais acostumado ao lento modo
De chegar à sala e pedir sono.
Já não recebo telefonemas
Ou quem me liga
Vende pacotes de imagens ou prestações de suor
Com um pequeno riso pelo meio,
A servir de garantia.
Ainda amo.
Ainda sonho com um Verão de nespereiras.
Ainda tenho uma bicicleta obsessiva
No rebentar das ondas do mar
Da minha solidão.
Ainda oiço o latir dos cães,
Quando se faz noite.
E foi um dia como outro qualquer.
Um dia para juntar ao jogo das paciências
E dos calendários.
Para descontar ao tempo.
O próximo livro de Rui Pedro Gonçalves, Um Rapaz à Procura da sua Idade, é apresentado hoje. Foi publicado pela do lado esquerdo.
György Petri, Prendeste-me ao teu anzol, senhor.
/Tradução: João Miguel Henriques et al.
Prendeste-me ao teu anzol, senhor.
Há vinte e seis anos
que me enrolo e contorço
sedutoramente, mas
a linha não fica mais tensa.
É de ver
que não há peixe no teu rio.
Se ainda tens esperança,
escolhe um isco diferente,
Foi bonito
ter sido escolhido.
Mas agora apetece-me
rastejar e secar ao sol.
Sólo las manos calientes dentro de un cuerpo
/mi abuelo decía: no dejes que el animal huela tu miedo
mi padre decía: no dejes de mirar al animal porque el caballo nunca cierra los ojos
en el quirófano alguien decía: no dejes de irrigar con suero caliente los órganos de un vientre abierto
mi cuerpo se repite sangrando y dice: en cada movimiento ya no soy el cuerpo que fui
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