Scuff marks

Nós a quem foi dito

em reuniões em torno da tese

Break things up

Split paragraphs 

Flag up new things

e sobretudo

Move the argument along

e mais liricamente

A few more signposts / less gentle nudging.

que era maio não era maio
de resto usávamos mal o tempo mas é certo
que víamos snooker até às 5
que às 7 chegavam agentes
para inspeccionar os nossos usos do espaço
contra inventários anteriores
do estado da matéria
(levando em conta a passagem do tempo
o inevitável wear and tear do mundo) 

Nós em exílio rodeados do magro espólio
de visitas à loja dos trezentos
presos aos corpos ao fumo ao eco
ao cotão solto à voz baixa a epígrafes
à marginalia de fábulas mínimas
a um pequeno dicionário de bolso
às contas da luz aos rumores de rios
ocres do outro lado do mundo
– essas veredas e cúpulas –
víamos televisão com o fundo do ar a negro
como num filme
de um cineasta muito político
embora para aguns algo sfumato
agora em fase intimista atonal
de nus reclinados grandes planos de retinas
e torneiras – leu porventura rilke
a mais - filmado talvez em Paris
dentro de portas (e Paris seria a luz
movente e vento nas três janelas altas
que mal abriam sendo que a luz era pouca
e não era Paris) ao longo de três meses
ou quatro meses de desilusão
na desilusão de finais dos anos 70
que pedíramos emprestada
e acordávamos
era já noite num estúdio com um pequeno jardim
nas traseiras ao lado de belíssimas pizzas finas:
quatro ingredientes, 5 libras 

que juntámos assim
mantimentos para mais uma mudança de casa
e colhíamos já meio desfeitos livros
ervas desconhecidas sofás em óptimo estado
que um banco ao virar da esquina
deixara no meio da rua, nós que chorámos
a morte de ratos, encontrámos máquinas
de café krups no lixo, com o verso
que nos parecera autobiográfico: 

sligh leak, no frothing, otherwise fine.

Hermenêutica Simpatética

Portugal (como cabe tanta coisa e tanto tempo numa palavra?) não tem apenas um problema de produção de sentido, mas também de interpretação: necessita-se uma arte que capture a espessura, o peso, a incomensurável opacidade dos sentidos que definem a sua trama. Não uma metodologia mas uma simpatia, isomorfismo emocional: os intérpretes, como queria Nietzsche, devem ser pelo menos tão grandes – ou loucos (esta é a minha contribuição) – como aquilo que interpretam (referia-se à relação entre os filólogos clássicos oitocentistas e a paideia grega).

Além disso, para depois podermos disseminar as leituras simpatéticas, é urgente apostar num cubismo ou dadaísmo lógico e histórico, pensamento desformatado, atento aos sinais escondidos ou oblíquos, às contradições vitais, aos interesses narcísicos, ao messianismo do capital, ao medo das elites verem degradar-se os fios de Ariadne nepotistas, às crenças auto-referenciais cheias de reforços positivos...

Parece que não somos suficientemente loucos, nem parvos, para compreender a loucura e a parvoíce deste tempo. As narrativas racionais obrigam o nosso mundo a entrar em grelhas explicativas totalmente desajustadas. Não sei bem dizer porquê, mas prova-o a revisão permanente, e às vezes furiosa, das teses que querem apaziguar a angústia em que vivemos, (apontem-me uma explicação económico/financeira com mais de um ano de vida útil!). Existimos numa mistura de caotologia Dadá e de espírito de seriedade encenado por amadores medíocres.

Com esta nota, talvez faça jus ao que Bruno Frank dizia na primeira metade do século XX: “Três quartos da vossa literatura e toda a vossa filosofia expressam mal-estar.” Ou queira só tentar (bem incipientemente, diga-se) desmascarar a elite que foi ao baile de entronização da sua própria vaidade, revelar o embuste de meia-tigela que são. Ao contrário de outros clubes de poder, o seu cinismo, como refere Sloterdijk, não tem flores do mal, olhares frios e mortíferos ou, terceira via, fogos-de-artifício à beira do abismo. Preferem o betão/alcatrão, a burocracia, a vulgaridade da carneirada, a tagarelice, o carreirismo, pôr os filhos em colégios privados... Preferem-se a eles, numa roda estúpida movida pela auto-preservação e pelo auto-contentamento.

pax deorum

μηδ᾽ Ολυμπίας αγῶνα φέρτερον

Píndaro


we crossed the hinterlands
of light with the praise
of the games
                        yet sometimes
the heart doubles as the flesh
bashful saints die just to prove
you wrong, and who's to say
who did it?
                   the road is green
ice your blood is spread across
I do not count each stone I
do not count the blessings this
stranger has brought to the world

Os beijos que vais dar

Na entrada e na saída do metro, nas carruagens, rápidos, longos, os beijos que vais dar na praia, na montanha, no carro, as mãos que vais dar, rápidos, longos, o sol que tantas vezes se vai ver a ele próprio nos teus olhos, os beijos no elevador, no carro, na faculdade, que vais dar, as mãos rápidas, os braços que te vão abraçar, os sinos passados, fotografias, as torres que vais subir, os espelhos todos em que te vais ver, segura, extremamente segura, linda, feia, obcecada, feliz, vazia, cheia, gorda, magra, dando-lhe as costas, experimentando vestidos, feliz, sentindo que a vida é um mergulho, dando a volta, que não há tempo, que há muito tempo, extremamente feliz, a euforia, o tédio, o que vais ver e dar, os sonhos abandonados, os sonhos realizados, a salitre depois do mergulho, o sol que vai ficar sempre dentro de ti e que tantas vezes se vai ver ao espelho em ti – e dentro, a corrente de vida segura, a felicidade extrema, a felicidade-mergulho ou a felicidade-estrela, as portas que vais abrir, a vida com todas as suas pegadas, dias vazios, dias citrinos, dias de chumbo, de calor ou de frio – mas dias de ganhar sempre e ganhar sempre contra ninguém, vais sentir neve nos olhos, neve nos pés, abraços nos pólos, abraços no centro, um olhar para cima que te vai libertar, sentir-te protegida, abraçada, ter recordações que te vão magoar, que te vão fazer mais forte, que vais ter que esquecer, os beijos que vais dar – no metro, rápidos na subida do autocarro, atrás, dentro, fora dos prédios, a chuva e o vento que te vai bater, todas as cores que vais vestir, todas as formas que vais tocar, sentir, modelar, guiar e ser guiada, pela estrela ou como estrela. Mas pensa, guarda e mantém, em todos os momentos, que está sempre ao teu lado o Capitão Soninho, ao lado de todos os beijos e de todas as páginas que vais virar, marcar, reler, saltar rápido, comer - páginas, capítulos - marcados, sublinhados, limpos, abandonados, livros que vais esquecer numa paragem, num autocarro, ou que vais querer incendiar, poemas que vais deixar em sítios a que não voltas – acidentes voluntários ou involuntários, conquistas, perdas que não existem, ajustes - Paginas rápidas, demoradas, relidas, reescritas, apagadas, riscadas, escritas nas margens, escritas no fundo, escritas por cima - Sempre escritas por cima com o privilegio de renovar, em varias cores e fundos.

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