Apontamentos sobre o latir dos cães

Corre, bicicleta, corre.
Varre as folhas dos meus joelhos esfolados e diz-me porque é tão curta a estrada,
Que foi inaugurada há cinco minutos e já se fez noite. 

O caminho é de cinza e o pasto secou
As ovelhas emagreceram como os dentes gastos das velhas pretas de roupa e de luz.

As árvores bailam quando curvas o guiador.
Serão salgueiros?
Nem vi, tal a pressa dos rebuçados
Que se derretem nos bolsos descalços
Da rotativa vida a cem à hora
Ou o que a roda permitia.

A geografia muda
Como varia a ementa em casa,
Uma diferença no modo como se fazem as torradas
E as sopas com mais ou menos sal
Como convém aos velhos, senhores de razões.

Os anos dançam no esquecimento de muita coisa.
Morreu o cão,
Mas o gato imita-o. Pede comida e atenção
Na melancolia deste dia de Dezembro
E vai à rua no cio das gatas
E cruza telhados cheios de musgo e de salitre.

O meu corpo vai mudando.
É menos veloz, mais acostumado ao lento modo
De chegar à sala e pedir sono.

Já não recebo telefonemas
Ou quem me liga
Vende pacotes de imagens ou prestações de suor
Com um pequeno riso pelo meio,
A servir de garantia.

Ainda amo.
Ainda sonho com um Verão de nespereiras.
Ainda tenho uma bicicleta obsessiva
No rebentar das ondas do mar
Da minha solidão.

Ainda oiço o latir dos cães,
Quando se faz noite.

E foi um dia como outro qualquer.
Um dia para juntar ao jogo das paciências
E dos calendários.

Para descontar ao tempo.


O próximo livro de Rui Pedro GonçalvesUm Rapaz à Procura da sua Idade, é apresentado hoje. Foi publicado pela do lado esquerdo.