"O homem que sente o calor das pedras"
/O homem que sente o calor das pedras
Que pisa de seu não tem nada,
Ainda vive, sonha. O homem
Sonha e o calor das pedras
Limpa a noite dos livros.
«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
O homem que sente o calor das pedras
Que pisa de seu não tem nada,
Ainda vive, sonha. O homem
Sonha e o calor das pedras
Limpa a noite dos livros.
Voltei à casa que, contando com a minha, já conheceu cinco gerações na nossa família, em Malpica do Tejo, na raia, bem perto da fronteira com Espanha. O primeiro que fiz foi pedir emprestada uma espingarda ao primeiro vizinho que encontrei e matar o cão a quem só caíam alguns ossos quando alguém de longe em longe se lembrava. Encontrei-o num estado perfeitamente comatoso, cheio de feridas e manco. Foram precisos três tiros. Nunca tinha premido um gatilho e não sabia precisamente para onde apontar.
Dei uma volta pelas imediações. Restavam algumas oliveiras e algumas figueiras. Um regato onde secava um fio de água. Fiz uma cova e enterrei o cão. Agora estava completamente sozinho. Pus-me a descascar o tronco de uma árvore enquanto pensava como estarias. Fiquei com as unhas pretas. Ali as pessoas não me rodeavam. Era indiferente o que fazia. Ainda não tinha entrado em casa. As malas estavam à porta. Deitei-me no banco improvisado que tínhamos debaixo da janela. Uma tábua larga, quase branca de tão seca pelo sol, sustentada por duas latas vazias de cal.
A primeira vez que te vi, sem me conheceres no meio de toda aquela gente, chocaste o teu copo de champanhe contra o meu. Sorrias para as coisas lá em baixo, ainda não te apaixones por mim, não vou sequer cruzar o meu olhar com o teu, os teus lábios vermelhos não de personagem insolente mas de linda menina, não me lembro da cor do teu vestido, eu a vasculhar uma necessidade absoluta dentro da tua mala enquanto o teu vestido passeava de fugida nas tuas pernas alheio, sempre alheia, à consistência que também desapareceu da minha vontade. Italiana, fêmea, habituada.
Não desfiz a mala. A porta esteve todo o tempo aberta com a chave na fechadura. A viagem havia que fazê-la mas não pensava ficar um único dia. Mesmo assim procurei tornar minimamente aproveitáveis os quilómetros acabados de percorrer. Entrei e abri todas as janelas. Deixei correr a água estancada nos canos. Estavam dois pássaros mortos na chaminé. Muito pequenos. Cortei diversos panos em bocados e enchi um balde de água. Não tinha detergente e não queria conversas com ninguém da aldeia. Foram suficientes as perguntas indiscretas do dono da espingarda. Embora o entenda: emprestar uma arma sem procurar averiguar se não se está perante um suicida ou, pior, um homicida, é uma imprudência enorme. Limpei a casa de cima a baixo e de ponta a ponta. Acabei o trabalho e fiquei a olhar para a fachada da casa, agora com as janelas abertas. O banco improvisado, a tábua apoiada nos dois baldes de cal, continuava a dar um aspecto contingente ao espaço. Limitei-me a descascar mais um pouco do tronco da árvore. Estava cansado e não era aconselhável iniciar a viagem de volta. Decidi esticar as costas no banco improvisado. Pouco depois levantei-me e desci até ao regato. Cavei e depus algumas pedras a interromper o avanço da água, construí uma mini-barragem que a determinado passo estreitava e estancava a corrente e depois a precipitava de uma pequena altura. Voltei ao banco e fechei os olhos. Esperei que o som da água me ajudasse a adormecer e a esquecer-me de ti durante pelo menos um momento de reunião com a liberdade, na raia dos contrabandistas dos primeiros vícios, as unhas negras do tronco da oliveira a ludibriar doravante a formalidade dos apertos de mão, sopesando a sorte e a irracionalidade dos pássaros que se atiram ao vazio pela primeira vez. Pela última vez.
Mãe, amiguei-me de um marinheiro
e agora vou com ele para terra,
Peço-te que enquanto isso te mantenhas à superfície
ou que venhas a ela sempre que possas
Trouxe-me um girassol -
O caule e o pulso seguro
pareciam um só
é um marinheiro terra-tenente
que me diz que o mar parece um deserto,
e agora fui comprar linha dourada
e faço um lenço bordado para lhe dar –
Mãe, ele vai para terra firme, para o meio da terra firme,
Uma cidade perigosa, os vícios humanos, drogas, tentações,
passo o dia a costurar a renda no lenço:
os três pastorinhos, uma aparição mariana, os doze passos da vida de Zapata,
todas as figurinhas que me ensinaste a bordar,
Não faltará uma pomba com as duas patas partidas
- Símbolo de quê? - Vai perguntar o meu marinheiro,
sou um Coala mãe e ele é uma árvore, e então abraço-me a ele,
e o tempo passa e passa até que um cartógrafo venha fazer um mapa do tempo que
será a nossa toalha, na nossa mesa da cozinha,
a casa humilde mas aportuguesada onde todos serão bem-vindos e
onde haverá pão para todos,
um pão para 5 ou um pão para 50, mas sempre um pão,
Sei que também agora sou um marinheiro porque Um Marinheiro = Dois Marinheiros,
espera uma carta minha, nela vou-te contar tudo
o que se passa nesse mar onde agora caminhamos,
esse estranho mar cheio de pó, pode ser o Arizona, Oaxaca ou o vale de Arouca,
mãe, um dia, eu e o marinheiro
que também sou eu vamos nadar até ao meio dessa água,
enquanto isso peço-te: não te deixes ir ao fundo,
vamos levar um pequeno coala
com sangue de pirata e seiva de pirata (árvore e girassol)
Também dentro dele a música vai bombear o sangue para todo o corpo,
Vais-lhe segurar os dedos finos, as tuas memórias já lhe estão ancoradas no peito,
dentro dele memórias que nadam como cavalos marinhos no sangue azul da nossa
família sem nome ou história,
vais ver nos olhos dele os olhos da tua mãe e nas palavras dele um eco que dança.
Peço-te Mãe, enquanto estiver em terra firme, não te deixes ir ao fundo…
Vai-te trazer uma caixa, lá dentro um girassol, uma granada e duas asas, enquanto isso,
anda à superfície muitas vezes:
Que te puxe uma memória do Futuro,
Que te puxem uns olhos que também são teus.
Disseste-me, um dia, devagar -
porque as coisas óbvias
levam o seu tempo -
que não existiria nenhum dia,
por mais pequeno que fosse
que a terra não pudesse devorar.
Tu choravas, como sempre fizeste
quando vias os outros nascer.
Quando te pariu, apesar disso,
a tua mãe enxugou-te exausta
com pena de teres vindo ao mundo,
assim como estavas. Ou nua.
Hoje quando me falas a tua nudez
envelheceu. Tornou-se minha,
partilhada ou desentendida
como as árvores que caem.
E porque espero eu que ainda digas,
passado todo este tempo,
que não sabes do que falo?
Um dia haverei de descobrir,
cedo demais, imagino,
que a tua pessoa não tem sítio,
e é quase mais certa do que eu.
Por isso, não me engano,
se te digo que quando te calas
sei que um dia e uma noite
são o mesmo deus.
Era muito, muito novo quando pela primeira vez me senti abandonado. Tenho alguma dificuldade em definir abandono. Recordo-me de, com escassos meses de vida, estar a chorar nos braços de alguém, talvez da avó levada pelo cancro, com medo de que a minha mãe não voltasse para mim. Associei quase desde espermatozoide a palavra abandono ao receio de ficar à mercê da cruel natureza. Fiz a escola primária no campo, mas antes de chegar ao campo experienciei inúmeras aventuras, infelizmente, quase nenhuma agradável. Passei os meus dois ou três primeiros anos de existência nos subúrbios de Lisboa, em casa do meu avô paterno, um viúvo vaidoso e egoísta. Reza a lenda que o meu avô cortou relações comigo por não ter apreciado uma camisa às riscas por ele oferecida. Rejeitei vestir a dita camisa para agradar à minha mãe, que naquela altura tinha deixado de falar com o velho. Ainda hoje me apetece conhecer melhor o homem, pena que tenha morrido. Aos quatro anos a minha mãe abandonou o meu pai adolescente, crónico adolescente, em casa do velho caturra. Instalámo-nos numa pensão rasca localizada numa vila marítima. A sala, o quarto e a cozinha comprimiam-se em cerca de dez metros quadrados e a casa de banho era frequentada por todos os hóspedes. Aí me senti abandonado como nunca antes. A minha mãe trabalhava num café e à noite num bar. Eu ficava sozinho, saía e chegava à pensão quando me apetecia. Chegava depois da meia-noite. Passava fome. Nunca me esquecerei do sabor da fome, da desesperança que se abatia sobre mim por não poder comer um prato de comida, por não poder beber um copo de água. Um dia acordei em pânico e saltei para a rua de pijama, faminto e gritando pela mamã. O abandono equivalia a não ter quem me amparasse. Foram tempos duros em que roubava de tudo, desde comida a brinquedos. A minha mãe nunca me fez um pequeno-almoço, nem me penteou. Recordo-me disso agora. Inscreveram-me um dia num infantário e mais do que uma vez lá se esqueceram de mim. Vinham buscar-me depois da hora de jantar. As freiras que geriam o infantário diziam que seria bem tratado no orfanato para o qual me levariam. Via a minha mãe e a minha tia com muitos, com namorados a mais, muitos deles casados, e também comecei a desejar mulheres. Juntei moedas e pedi em casamento duas mulheres que trabalhavam numa agência de viagens. Tinha erecções. Via a minha mãe e a minha tia nuas e tinha erecções. O meu pai aparecia muito raramente, oferecendo-me uns cromos como presente. Buscando conforto material, a minha mãe juntou-se a um homem que lhe batia, o vira-latas, como lhe chamava. O vira-latas não me bateu mas bateu na minha mãe e partiu o nariz à minha tia. O vira-latas atropelou uma menina. Eu ia no carro e vi, apavorado, uma menina morta enfiada numa valeta. Cheguei à aldeia para a escola primária. Em vez de voltar para casa da minha avó, a minha mãe decidiu ir para casa de uma senhora que explorava um bar que não era bem um bar mas um sítio de engate, uma espécie de bordel. A minha mãe trabalhava lá como uma espécie de menina para todo o serviço. Os homens que a engatavam apelidavam-me de filho. Num tom de gozo e enquanto passavam a mão pelas pernas da minha mãe, minha bêbeda mãe. Fazia cenas de ciúmes, querendo captar a atenção dela, mas dela ouvia meros “cala-te”, “vai chatear outra”, “procura meninos da tua idade”. Que meninos da minha idade se encontrava em locais como aquele? Cheguei cansado à escola primária, não tinha qualquer vontade de ficar sentado várias horas no mesmo sítio. Queria fazer o que me apetecia: andar atrás da minha mãe. Preocupava-me com ela. Era um suplício estar na escola e não saber dela. Poderia acontecer-lhe algum acidente, poderiam bater-lhe, poderia estampar o carro. Abandono era pensar que a minha mãe poderia desaparecer. Temi sempre o seu desaparecimento e um dia desapareceu mesmo. Não ter direito, não tens direito a pertencer, a perguntar, a vestir como os outros. A certo ponto interiorizei estas mentiras ou ficções. A sorte batia à porta alheia. A felicidade não existia. A nossa, a minha missão no planeta consistia em suportar um caos asfixiante, em trepar uma escadaria de dores cada vez mais lancinantes. Andar de bicicleta libertava-me da frustração de estar encurralado numa aldeia agarrado às promessas de uma mãe que tardava em assumir o papel de cuidadora. Pedalava até não aguentar mais, pedalava e arfava, afirmava não aguento mais, trepava aquelas ladeiras e não aguento mais. Aprende-se que se aguenta um pouco mais se o esforço não nos matar. Pedalava para fora da aldeia, perseguia sonhos que piscavam e se apagavam como pirilampos. Pedalava tardes a fio, lanchava uvas roubadas. Ia à praia de bicicleta e ainda jogava à bola com amigos ou sozinho - preferia jogar sozinho, entretinha-me mais fazendo o relato das minhas próprias jogadas. A minha mãe não estava, poucas vezes a via. Abandono significava silêncio, o cri-cri dos grilos, o uivar dos cães à noite, o barulho das janelas que batiam com a força do vento. Abandono significava não ter acesso a luxos maiores do que um pão com manteiga ou um copo de água ou, vá lá, um iogurte de morango. Abandono era não ter mãe, não passear de carro ao domingo, não ter possibilidade de tomar banho todos os dias. Ninguém, és ninguém, ouvia, não podes beber sumo, não podes isto, nem aquilo. Perdi o direito de existir. Perguntar algo a alguém ainda é um terror. Começo com um “posso perguntar-lhe” quando outros começam logo com a questão. Pedir licença para existir, como se alguém me fosse recriminar ou dizer que não tenho direito a perguntar o que pergunto, a ser como sou ou como quero ser.
Livros, filmes, ideias.