RENDEZ-VOUS, Punchline, Infinito, Segredo e Fim

519. RENDEZ-VOUS

Combinou encontrar-se comigo ao fim da tarde na esplanada do mercado, porém, antes disso, enviou-me uma mensagem a dizer que preferia encontrar-se comigo no outro dia de manhã no seu ateliê; todavia, pouco depois, recebi outra mensagem sua. Ainda não tinha começado a lê-la, quando o avistei, do outro lado da rua, com um ramo de flores silvestres na mão, avançando decidido num infantil passo de dança. Deixei-o ir e resolvi vingar-me: abri o meu bloco de notas e escrevi este texto, encontrando-me com ele no local que eu próprio escolhi à hora que eu próprio quis.


550. PUNCHLINE

O homem espera a morte. Não a deseja nem a teme, espera-a apenas. Viver é esperar a morte.


582. INFINITO

 Não me compreendes.
Compreendo-te muito bem, só não concordo contigo.
Se me compreendesses, estarias de acordo comigo.
Não te compreendo!
Vês, eu tinha razão, tu não me compreendes.
Tu queres sempre ter razão! Vês, compreendo-te muito bem.
[Atenção, pede-se ao leitor que regresse imediatamente à primeira fala e continue a ler a partir daí]


625. SEGREDO

Diz-me uma coisa.
O que queres saber?
Diz-me apenas sim ou não.
Sim ou não?
Sim ou não!
Para quê?
Vá lá, diz-me apenas sim ou não.
Sim.
E então o homem estendeu-lhe um pequeno papel mal dobrado e matou-se ali mesmo à sua frente. Ele jogou as mãos à cabeça e o pequeno papel mal dobrado caiu no chão e ali ficou, esquecido.

Nota: Para os mais curiosos, que se perguntam o que estava escrito no pequeno papel dobrado, esclareço que sei o que dizia mas não o escreverei.


659. FIM

Não és meiga e não te preocupas comigo, disse-lhe ele e recusou-se a acompanhá-la.
A morte sorriu e deixou-o viver mais um pouco.

Um Poeta

Tradução de Hugo Pinto Santos

Olhos atentos, assombrosa vigia,
Ou mentes perscrutadoras, negligencia,
Nem éditos prementes pra sorver e cear,
Nem róseo vinho em torno do qual jurar.

E não lhe interessa o elogio clamoroso,
Mercê do grande, do opulento, ou do formoso,
Nem subtis peregrinos de longe lugar,
Sedentos de saber a raiz do seu cismar.

Cedo ou tarde, porém, quando nos ocorreu
Que ele se descobriu do rugoso chapéu,
À tardinha, ao primeiro luzir estelar,
Abeirado da tumba, numa pausa, a expressar:

«Fosse qual fosse o sentido – triste ou ridente –,
Duas mulheres o enleiam, de espírito luzente»;
Queda-se e diz: se o dia exalar o seu estertor,
Ainda há-de ser suficiente esse louvor.

 

Thomas Hardy, The Complete Poems, Macmillan, 1982

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no cair do pano

no cair do pano de cena dominical, o bastidor enfiou-se dentro de uma oficina: vê-se o desconstruir da relação, os gases a mais no motor, os aplausos antes de tempo, e com isso, a precocidade em explicar o porquê de não nos fazermos rogados a água de rosas no cu. mas os abraços contam, e o cheiro pleural que nos invade naquela parte em que as cabeças sossegam no altar do ombro. encaixe matemático. semicerrar de pálpebras. e pelo único momento do dia, afastamos a preocupação de proteger as pupilas acima de toda a vida onde nos segmentamos. desfadigamos. o esterno esvazia. repouso benevolente. e enche. de novo. com a força de um segredo.

Giacomo Leopardi, «À lua»

Tradução de Érico Nogueira


Ó graciosa lua, eu já relembro 
que, há um ano agora, sobre esta montanha 
eu vinha, todo angústia, contemplar-te: 
e então pendias sobre esta floresta 
bem como agora, e toda a alumiavas. 
Mas nebuloso e trêmulo do pranto 
que me embaçava a íris, aos meus olhos 
teu vulto aparecia, que penosa 
era-me a vida e é, não muda o estilo, 
minha dileta lua. E a mim me agrada 
esta lembrança, e calcular a idade 
da minha dor. Oh, como bem ocorre, 
no tempo juvenil, pois inda é longo 
da vida e breve é da memória o curso, 
que nos lembremos das passadas coisas, 
conquanto, triste, a lida continue. 
 
 
Giacomo Leopardi

Os centauros

Viol e Forey são dois reformados que passam a tarde a conversar com uma réplica de um cérebro humano nas mãos. Vão-no dissecando, à medida que conversam sobre cavalos. Têm ambos uma inusitada paixão por estes animais. Nunca montaram, nem pretendem montar (agora já é tarde para todos os triunfos e coragens), nunca tiveram qualquer relação de óbvia proximidade com este ou até com outros animais, mas há algo neles que os leva a pensar insistentemente na figura equina e a discutir, através de uma imensa rede de coincidências declaradas, a razão daquela consanguinidade mental.

O processo repete-se diariamente (ora na casa de Viol, ora na casa de Forey) e a conversa, ainda que parta sempre de ângulos tão digressivos como experimentais, não ilude o destino, nem alivia a incessante constatação do resultado: por volta das cinco da tarde, sempre com a réplica do cérebro na mão, os dois amigos atingem o hipocampo. O hipocampo é o quartel-general da memória, essa delicada zona cerebral que lembra, pelos seus contornos curvos e vagamente sensuais, um cavalo-marinho, um hippocampus. A partir daqui a coisa complica-se. Os dois amigos sofrem subitamente um surto de estranheza galopante, a conversa seca e instala-se um tédio confuso semelhante à bruma da Irlanda. Despedem-se então cordialmente e regressam à sua vida normal.