«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
Notas tiradas na pastelaria
/Negras fúrias, negra fúria, coração, cabeça. Pensava em títulos para um novo blogue. Pensava e lia no metro, lia enquanto caminhava, lia rodeado de sovacos apodrecidos, de brutamontes habituados a cumprimentar com encontrões o cidadão introvertido. Lia algo desapontado A Death in the Family, de Karl Ove Knausgaard. Não que o livro não fosse bom, que não merecesse todos os elogios que recebeu de James Wood. Quanto maior é a expectativa, maior é a desilusão. Li o livro em dois dias, ansioso por encontrar aquilo que todos encontraram, e nada encontrei que me desse vontade de comprar o segundo de uma obra de seis volumes, tão pretensiosamente apelidada de A Minha Luta. Habituado que estou a assumir a culpa (por tudo), aceito que me possa ter escapado algo, que exista imensa profundidade na obra de Knausgaard. A culpa é nossa. A culpa é minha. Se James Wood elogia, quem sou eu? Quem sou eu em comparação com quem quer que seja? Só posso ser responsável pelas minhas palavras. Responsável por dizer: acho obra x cinzenta, cinzenta.
Entro às nove e meia da manhã na pastelaria cheia. Com o calhamaço de capa dura aberto na página duzentos e tal, custa-me segurar tabuleiros e levar com os empurrões da turistada frenética. Peço um sumo de laranja e um croissant misto com manteiga. Repito porque não me ouvem. Um sumo de laranja com duas pedras de gelo. Sem croissant e sem manteiga que a manhã veranil encharca-me a roupa de suor. Leio o melhor de Knausgaard cercado por japoneses fanáticos por máquinas digitais. Eis um excerto daquilo que mais me cativou na obra do nórdico: “When you didn’t just see the incomprehensible in it but came very close to it. Something that didn’t speak, and that no words could reach, consequently forever out of our reach, yet within it, for not only did it surround us, we were ourselves part of it, we were ourselves of it.” Trata-se de uma parte do livro em que se fala da nossa necessidade de tornar compreensível o incompreensível, de intelectualizar tudo, até a morte, até a morte do pai. A necessidade de enterrar um corpo, de esconder o pavor para que possamos continuar a viver sem receio do desconhecido.
Li algures que a obra de Knausgaard revelava muito da sua vida. Talvez tenha sido o próprio escritor que numa entrevista terá dito que despejou a sua alma nestes livros. Chegamos aos factos. Como é que um escritor lida com os factos? É possível escrever sem escrever sobre a realidade que nos rodeia? Philip Roth refere em The Facts que a ficção começa nos factos. Esta frase, óbvia, tem levado muitos leitores ao engano. Começar nos factos não quer dizer que se acaba nos factos. Escrever sobre um tio não é a mesma coisa que tirar uma fotografia de um tio. É a escrita. Começa-se num facto. Por exemplo: o tio cuspiu-me. E a partir daí chegamos ao espancamento e à vingança daquele que foi cuspido. Podemos escrever memória. Podemos tentar fazer a nossa auto-biografia. Quando somos escritores, só sai ficção. Esta é uma ideia muito importante, a de que não há para o escritor a hipótese de escolher entre ficção e realidade. Para o escritor só há ficção. É aqui que me aborrece pensar em Knausgaard. Estamos perante uma ficção sem estilo. Uma ficção desinteressante. Uma nuvem cinzenta.
Rouge
/saindo de lisboa lia um livro sobre lisboa
sobre os jardins coloniais de lisboa
aquele café do lado da torre de belém
sobre o aqueduto e as meninas de óculos redondos
de lisboa e sobre os senhores que falam francês
quando em lisboa não se fala francês
também sobre a procissão das quatro da manhã
do bairro alto até o cais do sodré
sobre como meus olhos brilhavam e você dizia
regarde, le sol est rouge
sobre como a rua estava tomada de gente dizia
rouge! rouge!
percebe as coisas se esfregam de um jeito
os livros não
mas o caminho da augusta até o tejo
e os comerciantes e as drogas que não fazem efeito
e as lojas de chapéu e as pastelarias
e a fila para a cidade subterrânea: apenas três dias ao ano
sobre como meus olhos brilharam quando um rapaz
já no último dia bem no fim da fila
quando deveríamos dizer: já não há mais tempo
lia um livro sobre o brasil e sobre as coisas do brasil
e sobre o o rio de janeiro do passeio público
foi então que percebi
exatamente então que percebi (ou seria o barulho do elétrico?)
que nunca tinha lido nada sobre lisboa
que nunca levaria nada de lisboa
que lisboa para mim seria a mesma coisa que é
o domingo quando o parque fica aberto
a forma como o motorista do autocarro me diz pronto já está
seu sotaque bem longe de um sotaque de lisboa
ou os nomes
saber o nome das ruas de lisboa não é saber lisboa
saber o caminho para o miradouro (e chegar
ainda com o sol dentro de uma parte da vinte
e cinco de abril) não é saber lisboa
como um tipo lendo o livro sobre o brasil não é saber o brasil
como partir em um par de dias não era estar no brasil
era: não estar em lisboa
era: não
como estar no brasil não é ser tropical
não é ter em casa palmeiras não é discutir futebol
cherrie, você não sabe o que é o futebol
hoje suas insinuações de vir me agradam
muito mais do que a presença por isso
planejo uma vingança sem precedentes
esse chão amarelo limpo
essa decoração azul
a casa ainda sem móveis
você dançando bêbado por exemplo
Ética e Estética mortíferas
/Este cliché passaria por uma variação bem-aventurada da técnica perspectívica da pintura renascentista, reprodução imagética à procura da exacta adequação à visão humana. Porém, o enquadramento geométrico é atacado, de todos os lados, por facadas de dor, angústia e morte (um rastro subtil leva-nos até à Última Ceia de da Vinci, na técnica da composição e na atmosfera tanatológica). Os sinais de balas na parede, os restos de sangue denunciando um corpo/alma escorregando contra ela até ao pó da terra, a figura feminina aparando uma tristeza infinita, capaz de suspender o tempo pela falta de esperança que o passado sanguinolento projecta no futuro. Uma parede frágil, fragmentada, disposta a cair, testemunha material da vida (cada vida é a vida toda) que a procurou para se agarrar ainda à luz, talvez, num último esgar de lucidez, sufocando com o absurdo de se apagar tão cedo. Lá dentro, no centro do ponto de fuga geométrico, continuam outras vidas (invertendo a realidade de A Última Ceia: o transcendente passa a imanente), uma árvore, outras pessoas, e, podemos imaginá-lo, sons e gestos.
No meio disto tudo, assusta-nos a beleza apolínea da imagem, o juízo de gosto achar belo um lugar mortífero. O extremo equilíbrio da composição, a paleta de cores, a centralidade do feminino..., nada convida, sem a vocação actual para a interpretação trágica, a olhá-lo com uma consciência ao mesmo tempo revoltada e resignada à condição desta humanidade esquecida da bondade, que, apesar de tudo, lhe é própria (queremos acreditar nisto). É como se começássemos este século apostando tudo numa ética da destruição maldosa, um estilo de vida que deseja a morte. Falou-se muito de algo semelhante entre as duas Guerras (Freud em particular, com o par eros/thanatos), mas agora aliamos uma tecnologia que mata à distância (como o Apolo mítico, aliás) com lâminas afiadas degolando ou enterrando-se no corpo para rasgar o interior frágil, mas vital, que lhe dá a vida. Voltamos a resvalar para uma “banalidade do mal”, hoje, como quando Hannah Arendt cunhou o termo na reportagem sobre Eichmann (esse insignificante homenzinho que conduziu à morte centenas de milhares de seres humanos com a eficiência burocrata de um bom gestor de transportes nazis), viver parece valer menos que um prato de lentilhas. Voltamos a ignorar o que fazer do extraordinário dom da vida, preferimos-lhe cada vez mais a morte, uma ética e estética do mortífero, olhe-se para as encenações imagéticas e discursivas dos mártires actuais, onde a ética recorre ao teológico e a propaganda à estética pimba de festas provincianas.
