Los animales buscan sitios difíciles para morir


já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste

 

Al Berto


I
 

Soy la tercera generación de hombres que vienen de la tierra y de la sangre. Manos de mi abuelo atando los cuatro estómagos de una vaca. Pies de mi bisabuelo en la espalda de una mula para llegar al olivo. Voz y cabeza de mi padre yo con tu edad yo y tu abuelo yo y los hombres.


II


Estudio técnicas quirúrgicas para abordar una cavidad que nunca abriré, no las manos de mi abuelo, no la voz de mi padre. Ahora los animales se mueren antes de coserles las entrañas antes de sentir el pulso caliente antes de manchar la tierra de sangre.

III

Quiero seguir a un animal que va a morir. Tocar el trayecto difícil de la agonía en sus párpados. Pies en el lomo voz en el estómago. Ellos me hablan como a un hombre. Ellos esperan de mí lo  que esperan de un hombre.


Pero yo sangro. Animal o mujer: hecha de sueño y lágrimas.

primeira pressão

todorov enfim admite que se lê a teoria 
           e que não se lêem os livros 
           e que isso não é nada bom

o pólen se desprende no ar brilhante
          flutua suave ao vento

giacomo, de cama, ouviu la strega
resguardou-se e recebeu a visita
que o ergueu pela primeira vez em muitas

          magicam operari
               maritare mundum
 
segredos
          alguns nos livros, outros
na vida, certamente não no explicar
não no expor, nada disso

               como arrancar a borboleta
da crisálida ou extinguir na flor a força
de uma essência por pressão

          cícero, o advogado cicerone
de turistas no estoicismo,
no estilo, espremendo grego, retirando
               a pequena abstração a fórceps, essentia
               a umbrosa sombra de sombra

folhear esta floresta                encadernar sua vida com a garganta 

Desaparecer aos poucos

Não sofras por quem desapareceu, afirmou o velho, suporto o peso dos funerais de toda a minha família e aqui ando. O rapaz ouvia de queixo encostado ao pescoço e com os olhos pregados ao chão. Sobrevivi, não por ser mais forte do que a dor, ninguém é mais forte do que a dor. Sobrevivi, prosseguiu o velho com um escarro lançado como um míssil contra a terra, por ter aceitado que nada poderia fazer para alterar o rumo dos acontecimentos. Não sei se isso é ser estóico. O velho gargalhou ao repetir a palavra estóico. Chorei muito, muito, não podes imaginar o que é enterrar um filho, nunca tiveste um filho, nunca te roubaram um filho com uma facada. Também não podes imaginar o que é ver o corpo morto da tua esposa, um corpo outrora belo estendido num caixão, uma face de princesa sugada pelo cancro. O velho encheu o copo, bebeu o bagaço num gole, encheu outra vez o copo e pousou-o na mesa antes de continuar. Cada dor é uma dor. A minha dor de dentes não é mais forte do que a tua enxaqueca, depende de pessoa para pessoa. Eu chorava no funeral do meu pai e o meu irmão distraía-se a contar anedotas aos familiares mais afastados, e se queres saber não acredito que o meu irmão gostasse menos do meu pai do que eu. O rapaz pegou no copo, bebeu o bagaço e tossiu, não estava acostumado à bebida. Bebeu mais e mais, até ganhar coragem para falar. A minha namorada deixou-me, disse, tímido, sentindo que os motivos que o tinham levado ao desespero não eram nada comparando com histórias como as do velho. Pensava que estava tudo bem até ao dia em que ela entrou em casa, despejou o armário para dentro de uma mala de viagem e partiu dizendo que se tinha fartado da minha infantilidade. Há quanto tempo foi isso?, perguntou o velho. Duas semanas, respondeu o rapaz. Imagina a tua vida daqui a dois anos, dentro de vinte e quatro meses não haverá memória do namoro entre x e y, é tudo vaidade, caminhamos para o pó, o esquecimento é o nosso destino, daqui a dois anos, quando estiveres com outra pessoa, rir-te-ás por teres sofrido por ninharias. O senhor ri-se daquilo que lhe aconteceu?, perguntou o rapaz. Claro, ripostou o velho, rio, bebo, danço e caminho, o importante é caminhar. Aceitar e continuar. Se te arrancar um olho, pensarás que nunca mais quererás viver. Doer-te-á muito. Achar-te-ás feio. Passado um tempo, continuarás a viver sem esse olho. Haverá até momentos em que não te lembrarás de que o perdeste. Lembra-te de que nada dói tanto quanto perder um olho e que, mesmo quando se pensa que essa dor nunca passará, quando se sente uma dor tão funda, mas tão funda, que só um tiro na mioleira parece salvífico, existem razões para estar vivo. Que razões são essas?, perguntou o rapaz. Estarmos aqui os dois com uma garrafa de bagaço, termos um cão em casa a precisar que o alimente, não termos perdido o desejo pelas mulheres, haver quem sofra mais do que nós, quem não tenha um pedaço de pão para comer. Se esquecermos a vaidade, suspirou o velho, se esquecermos quem somos, viver é mais fácil. Como se faz isso?, questionou o rapaz, ao mesmo tempo que tentava imitar o escarrar profissional do seu novo amigo.

7.

tem toda a gente debruçada sobre ela. recorte esguio sobre fundo azul, o corpo fingido de estatua e os cabelos, amarrados, em grande cúpula de olhar vidrado – somente por um segundo pestanejou através dessa cortina de gelo, embora não se tenha virado nenhuma vez para a multidão. de repente tudo fica solene. depois do arrebatamento, a euforia deu lugar aos receios múltiplos de quem vira acontecer tragédias e fracassos vezes demais. cada instante pulsava com as respirações em crescendo. e depois já nada se ouvia a não ser, a provação do som. ela - na agilidade habitual a que tinha acostumado outros tantos - severa consigo e ainda assim harmoniosa com os presentes. elegeu criteriosamente a sincronia da implosão com os braços em contacto com a vertigem. não demorou mais que pouco. e em menos de nada o que só ela sabia é que tinham sido eles os escolhidos para assistir in loco a sua irreversível despedida.

Prefácio de «Altazor»

Vicente Huidobro, Altazor
Tradução: João Moita

Vicente Huidobro, Picasso

Vicente Huidobro, Picasso

 

Nasci aos trinta e três anos, no dia da morte de Cristo; nasci no Equinócio, debaixo das hortênsias e dos aviões do calor.
Tinha um profundo olhar de borracho, de túnel e de automóvel sentimental. Lançava suspiros de acrobata.
O meu pai era cego e as suas mãos eram mais admiráveis do que a noite.
Amo a noite, chapéu de todos os dias.
A noite, a noite do dia, do dia ao dia seguinte.
A minha mãe falava como a alvorada e como dirigíveis a despenharem-se. Tinha cabelos cor de bandeira e olhos cheios de navios distantes.
Uma tarde peguei no meu pára-quedas e disse: «Entre uma estrela e duas andorinhas». Eis a morte que se aproxima como a terra se aproxima do balão que cai.
A minha mãe bordava lágrimas desertas nos primeiros arco-íris.
E agora o meu pára-quedas cai de sonho em sonho pelos espaços da morte.
Ao primeiro dia encontrei um pássaro desconhecido que me disse: «Se eu fosse dromedário não teria sede. Que horas são?» Bebeu as gotas de orvalho do meu cabelo, lançou-me três olhares e meio e afastou-se dizendo: «Adeus», com o seu lenço soberbo.
Por volta das duas, naquele dia, encontrei um avião precioso, cheio de escamas e caracóis. Procurava um recanto do céu onde resguardar-se da chuva.
Ao longe, todos os barcos ancorados nas tintas da alvorada. De repente, começaram a desprender-se, um a um, arrastando-se como estandarte em farrapos de incontestável alvorada.
Com a retirada dos últimos, a alvorada desapareceu por trás de algumas ondas desmesuradamente infladas.
Então, ouvi falar o Criador, sem nome, que é um simples buraco no vazio, belo como um umbigo:
«Fiz um grande ruído e esse ruído formou o oceano e as ondas do oceano.
«Esse ruído estará sempre colado às ondas do mar e as ondas do mar estarão sempre coladas a ele, como os selos aos bilhetes-postais.
«Depois teci um longo barbante de raios luminosos para coser os dias um a um; os dias que têm um oriente legítimo ou reconstituído, porém indiscutível.
«Depois tracei a geografia da terra e as linhas da mão.
«Depois bebi um pouco de conhaque (por causa da hidrografia).
«Depois criei a boca e os lábios da boca, para aprisionar os sorrisos equívocos, os dentes da boca, para vigiar os disparates que nos vêm à boca.
«Criei a língua da boca que os homens desviaram do seu papel, fazendo-a aprender a falar…, a ela, ela, a bela nadadora, desviada para sempre do seu papel aquático e puramente acariciador.»
O meu pára-quedas começou a cair vertiginosamente. Tal é a força de atracção da morte e do sepulcro aberto.
Podeis crê-lo, o túmulo tem mais poder do que os olhos da amada. O túmulo aberto com todos os seus ímanes. E isto to digo a ti, a ti que quando sorris fazes pensar no princípio do mundo.
O meu pára-quedas enredou-se numa estrela apagada que seguia a sua órbita conscienciosamente, como se ignorasse a inutilidade dos seus esforços.
E aproveitando este repouso bem merecido, comecei a encher com profundos pensamentos as casas do meu tabuleiro:
«Os verdadeiros poemas são incêndios. A poesia propaga-se por todo o lado, iluminando as suas consumações com estremecimentos de prazer ou de agonia.
«Deve-se escrever numa língua que não seja materna.
«Os quatro pontos cardeais são três: o sul e o norte.
«Um poema é uma coisa que será.
«Um poema é uma coisa que nunca foi, que nunca poderá ser.
«Foge do sublime externo se não queres morrer esmagado pelo vento.
«Se eu não fizesse pelo menos uma loucura por ano, daria em doido.»
Pego no meu pára-quedas, e da ponta da minha estrela em marcha lanço-me à atmosfera do último suspiro.
Rolo interminavelmente sobre as rochas dos sonhos, rolo entre as nuvens da morte.
Encontro a Virgem sentada numa rosa, e diz-me:
«Observa as minhas mãos: são transparentes como as lâmpadas eléctricas. Vês os filamentos de onde escorre o sangue da minha luz intacta?
«Observa a minha auréola. Tem algumas lascas, o que prova a minha ancianidade.
«Sou a Virgem, a Virgem sem mancha de tinta humana, a única que não o é pela metade, e sou a capitã das outras onze mil que estavam na verdade demasiado restauradas.
«Falo uma língua que enche os corações segundo a lei das nuvens comunicantes.
«Digo sempre adeus, e fico.
«Ama-me, meu filho, pois adoro a tua poesia e ensinar-te-ei proezas aéreas.
«Tenho tanta necessidade de ternura, beija-me os cabelos, lavei-os esta manhã nas nuvens da alba e agora quero dormir sobre o colchão da neblina intermitente.
«As minhas lágrimas são um arame no horizonte para o descanso das andorinhas.
«Ama-me.»
Pus-me de joelhos no espaço circular e a Virgem ergueu-se e veio sentar-se no meu pára-quedas.
Adormeci e recitei então os meus poemas mais belos.
As chamas da minha poesia secaram os cabelos da Virgem, que me agradeceu e se afastou, sentada sobre a sua rosa tenra.
E eis-me aqui, só, como o pequeno órfão dos naufrágios anónimos.
Ah, que bonito…, que bonito.
Vejo as montanhas, os rios, as selvas, o mar, os barcos, as flores e os caracóis.
Vejo a noite e o dia e o eixo em que se juntam.
Ah, ah, sou Altazor, o grande poeta, sem cavalo que coma alpista, nem que aqueça a sua garganta com o brilho da lua, mas com o meu pequeno pára-quedas como um guarda-sol sobre os planetas.
De cada gota de suor da minha testa fiz nascer astros, os quais vos deixo para que os baptizem como a garrafas de vinho.
Estou a perceber tudo, tenho o meu cérebro forjado em línguas de profeta.
A montanha é o suspiro de Deus, subindo em termómetro inflado até tocar os pés da amada.
Aquele que tudo viu, que conhece todos os segredos sem ser Walt Whitman, pois jamais teve uma barba branca como as belas enfermeiras e os riachos gelados.
Aquele que ouve durante a noite os martelos dos moedeiros falsos, que são unicamente astrónomos activos.
Aquele que bebe o copo quente da sabedoria depois do dilúvio obedecendo às pombas e que conhece a rota da fadiga, o sulco fervente que deixam os barcos.
Aquele que conhece os armazéns de recordações e de belas estações esquecidas.
O pastor, o pastor de aviões, o condutor das noites extraviadas e dos poentes amestrados até aos pólos únicos.
A sua queixa é semelhante a uma rede pestanejante de aerólitos sem testemunha.
O dia levanta-se no seu coração e ele desce as pálpebras para fazer a noite do repouso agrícola.
Lava as suas mãos no olhar de Deus, e penteia os seus cabelos como a luz e a colheita dessas frágeis espigas da chuva satisfeita.
Os gritos afastam-se como um rebanho sobre as colinas quando as estrelas dormem depois de uma noite de trabalho contínuo.
O belo caçador diante do bebedouro celeste para os pássaros sem coração.
Sê triste tal qual as gazelas ante o infinito e os meteoros, tal qual os desertos sem miragens.
Até à chegada de uma boca inflada de beijos para a vindima do deserto.
Sê triste, pois ela te espera num recanto deste ano que passa.
Está, talvez, no extremo da tua canção próxima e será bela como cascata em liberdade e rica como a linha equatorial.
Sê triste, mais triste do que a rosa, a bela jaula dos nossos olhares e das abelhas sem experiência.
A vida é uma viagem em pára-quedas e não o que queres crer.
Vamos a cair, a cair do nosso zénite ao nosso nadir, e deixamos o ar machado de sangue para que se envenenem os que vierem amanhã respirá-lo.
Para dentro de ti mesmo, para fora de ti mesmo, cairás do zénite ao nadir porque esse é o teu destino, o teu miserável destino. E de quanto mais alto caíres, mais alto será o ressalto, mais longa a tua duração na memória da pedra.
Saltámos do ventre da nossa mãe ou da ponta de uma estrela e vamos a cair.
Ah meu pára-quedas, a única rosa perfumada da atmosfera, a rosa da morte, despenhada entre os astros da morte.
Ouviste? Esse é o ruído sinistro dos peitos fechados.
Abre a porta da tua alma e sai para respirar do lado de fora. Podes abrir com um suspiro a porta que o furacão tiver fechado.
Homem, aqui está o teu pára-quedas, maravilhoso como a vertigem.
Poeta, aqui está o teu pára-quedas, maravilhoso como o íman do abismo.
Mago, aqui está o teu pára-quedas que uma palavra tua pode converter num pára-subidas maravilhoso como o relâmpago que quis cegar o criador.
De que estás à espera?
Mas eis o segredo do Tenebroso que se esqueceu de sorrir.
E o pára-quedas aguarda amarrado à porta como o cavalo da fuga interminável.