No entanto...

No entanto, as coisas não são assim tão simples. As promessas velozes varrem o planeta, sentimentos etéreos galopam na rede, beijos e abraços inconclusos incluídos, uma grande envergadura de sorrisos e excertos de poemas levam a nossa icárica curiosidade até bem perto do céu, destruição garantida, a saudade prejudica seriamente a saúde, tempus fugit, também para ti, meu caro, também para ti, o meu sofrimento é verde, verde vivo, e o teu tem as cores castigadas pelo incomparável revés, a vida é tudo isto (e tudo aquilo), temos demasiados amigos e um coração do tamanho de um punho fechado pela suspeita, cerca de 750 centímetros cúbicos de esmero, realce e burocracia; temos Copacabana e Martigny, não te esqueças, e fome de Vietname e os pulmões enchem-se de ar quente só para podermos sobrevoar a Capadócia das sextas-feiras, enquanto a vida decorre em classe turística, entre cafés, semáforos, serviços e cerimónias do chá e valsas do adeus e o auto-retrato de Tintoretto ao espelho quase todos os dias, depois de Marte e Vénus terem sido surpreendidos pela inominável ressaca do além, e o dia apresentar sintomas de inanição e a noite continuar à custa de muito engenho que o amor já não busca autonomamente, até porque que as esperanças não no-las deram, e Kafka é que tinha razão, e o Ronaldo também, uma vez que os anjos e os árbitros desapareceram por completo da face da Terra, ainda que se avistem alguns, de quando em vez, no calor ocasional do facebook e nos sonhos soterrados dos isentos.

Embriaguemo-nos!

« Il faut être toujours ivre. Tout est là: c’est l’unique question. Pour ne pas sentir l’horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.

Mais de quoi? De vin, de poésie, ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous. »[1] […]

Charles Baudelaire, Le Spleen de Paris, XXXIII, Péiade.

Embriagar-se sempre, diz o quase-maldito poeta francês, designando uma trilogia improvável: “vinho, poesia e virtude”. Percebe-se a díade vinho/poesia, com a pequena diferença da poesia não obrigar à culpa corpórea da ressaca. Mas quem se lembraria, a não ser um habitante “infernal”, de juntar a “virtude”? Questão hermenêutica finíssima, que se deve abandonar ao vento para a ver desaparecer ou encontrar a exegese certa (Serge Reggiani, magnífico diseur, realça bem esta heurística). Fora isso, trata-se de uma exaltação à vida, ao prazer, à elevação... a tudo o que é belo e intenso.

Conhecemos a célebre “in vino veritas”, uma outra verdade, mais arriscada, porque a desconexão das partículas discursivas abre fendas até ao íntimo do sujeito, meio animal meio divino. Menos usada, o “in vino glaudium” parece, pelo que googlei, mais venerada na circunspecta Alemanha, mas nós, os do Sul, temos, à falta de palavras, o sentido exacto da alegria na bebida, bem menos estridente, aliás, que a Norte.

Há, também, esse escritor e filósofo inglês, Roger Scruton, capaz de reunir conservadorismo, Kant e estética do belo, que titula um livro I Drink Therefore I am. O vinho tem uma alma que lhe foi doada pela terra, sol e trabalho. Simboliza a sedentarização humana. Cépticos em relação aos mitos antigos sobre a bebida divina (Dioniso/Baco, et al), ainda percebemos, porém, o sentido religioso que transmuta a alma, dando-lhe um poder de percepção mais fino e vasto. Para Scruton, o vinho faz emergir o mundo em sub specie aeternitatis, prolongando o sentido da eucaristia cristã. Beber vinho é, pois, procurar para lá de si próprio, ele é o caminho para a alteridade.

Por outro lado, ao levarmos um copo de vinho à boca degustamos um work in progress, o vinho é um elemento permanentemente vivo (e não apenas quimicamente). Ao contrário da comida, não requer mastigação (a não ser em níveis extremos de alcoolemia) nem é subjugado pelas condições da absorção digestiva. Invade as nossas veias, insuflando o corpo de vida, e depois dessa inundação fisiológica, conquista a alma, acelerando o pensar e libertando as emoções.

Scruton não regateia elogios a esta bebida, já que ela “rima com civilização”. Define a comunidade humana, cada golo de vinho transporta partículas de culturas ancestrais, é uma espécie de peregrinação laica ao passado. Além disso, a boa embriaguez traça um estilo de pensamento: saída de si em direcção a um mundo mais alargado (vejam-se os simpósios gregos, no Banquete Sócrates, aparentemente depois de beber várias crateras de vinho, produziu um dos mais belos discursos filosóficos sobre o amor), através da contemplação e desregramento (“Le Bateau ivre”de Baudelaire). Pelo vinho os outros estão primeiro (com a triste excepção dos tagarelas recalcados), dá-se mais do que se reclama, cultivando um prazer partilhado. Este “bom vinho”, alcoolemia temperada, mantém o respeito pelo outro e, diz Scruton, a capacidade de sentir vergonha perante ele. O vinho seria, então, o meio de reconquistarmos o prazer do convívio e de reaprendermos a temperança.

Por isso, bebamos bem e em boa companhia, embriaguemo-nos temperadamente para entrarmos em 2015 com a vitalidade da esperança e da amizade refeitas.

 

[1] [“É preciso estar sempre embriagado, Tudo está aí: é a única questão. Para não se sentir o horrível fardo do Tempo que quebra os vossos ombros e vos inclina sobre a terra, é preciso embriagar-se sem parar. / Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas embriagai-vos.”] 

Não vês que estou doente

             O Grande Mestre  (2013), Wong Kar-Wai

             O Grande Mestre  (2013), Wong Kar-Wai

Não vês que estou doente. Repetiu. Não vês que estou doente. Não como, não durmo, ando pálido. Estes papos.  Círculos negros em torno dos olhos. Este aperto no peito. O estômago embrulhado. Adoeceu com a separação. Pensava na morte.  Debitava as mesmas palavras, vezes sem conta as mesmas palavras, não vês que estou doente, como uma máquina, não vês que, afirmava como um gravador, não vês que estou. Doente, eu. Perdeu o emprego, uma posição confortável num escritório desbaratada por sucessivos atrasos e faltas injustificadas. Troquei a mediocridade pelo nada. Acabado o subsídio de desemprego, aproximou-se da família, que era curta e sovina. O pai virou-lhe as costas. Não te eduquei para a miséria. Não demorou até se ter visto na rua a arrumar carros e a pedir esmola. Como os drogados, o meu filho como um drogado. Assim imaginava o pai, amargurado. Recebeu acolhimento numa pensão gerida pela tia de uma tia. Escrevia cartas deitado numa cama minúscula, encolhia-se a tremer de frio e de angústia e de pobreza e de vazio e de escuridão. O teu desaparecimento é uma rocha. Vivia num quarto infestado de baratas e de ratinhos pretos. Escondia os pés nos cobertores para não ser mordido por nenhum bicho esfomeado. Escrevia num pequeno caderno castanho encontrado num caixote do lixo. Gatafunhava sobre banalidades. Como um drogado, um inválido. O pai ao ouvido. Dirigia-se a uma mulher existente em lado algum a não ser no seu coração e na sua memória, falava a uma mulher que o desprezara. Não desprezo. Desprezo associava-se a algo negativo. A separação não tivera que ver com desdém ou repulsa ou aviltamento. A separação não tivera que ver com nada que compreendesse. Os meus sentimentos, não os entendo, não te entendo, o que me fizeste.  Separação era também uma palavra com conotação negativa. De positivo havia zero, dois corpos afastados, o coração a palpitar de saudade, nada de positivo. Recordações dolorosas. Boas recordações e por isso muito dolorosas. E a última imagem. A mulher de costas, afastando-se, cada vez mais longe, entrando no táxi e acenando pela última vez, um adeus seco, sem sorrisos ou lágrimas, o táxi ao fundo, o táxi quase noutra cidade e um homem atónito, não sabendo para que lado se virar. Para dentro de um rio, para uma faca afiada, para uma caixa de comprimidos, para o esterco. Escreveu até encher o caderno. Morou na pensão até ser expulso. Morreu esquelético e coberto por cobertores e, no relvado onde uma velhota que passava o encontrou roxo, nasceu uma poça de lama que nunca secou.