ao condensar-se em terra

“O chão começa a chamar
as formas estruturadas
faz tanto tempo. Convoca-as
a serem terra outra vez.”

(Carlos Drummond de Andrade)

 

ao condensar-se em terra
o corpo
vence a ausência 

prenhe de coisas que
- despidas –
a vida deserta

saciando a sanha da
memória
com fome de silêncio 

(mas pode também o corpo
brotar do sal
ajuntar-se em flores 

circundando assim uma casa
estéril
com seus jardins carnais) 

medindo o peso de seus
nadas
em largas balanças de ar 

(ou construir horizontal
em véus
suas reminiscências líquidas 

estirando no leito as margens
ocultas
 do fixo que caminha)

Apontamento de 12 de Fevereiro, ano 2012

Tem caído neve com muita intensidade nos últimos dias em Roma, resultado de um anticiclone responsável pelas baixas temperaturas que por pouco estilhaçam o velho continente nas suas imaginárias fronteiras. Aos mais débeis e aos mais descuidados este sopro boreal valeu-lhes o último suspiro. Resultados previsíveis de eventos inesperados.  Não se imaginava, contudo, a insólita aparição de lobos junto dos antigos castelos romanos. Em alguma história de Roma conta-se que Rómulo desaparecera por entre as nuvens durante uma tempestade, conduzido por uma águia. Teria o seu quê de poético pensar que no meio desta nuvem branca que desceu sobre Roma, e na forma de quem os amamentou, vieram Remo e o já perdoado Rómulo observar a cidade que pelo tempo e pelo sangue lhes pertence.

         

 

Se ao menos não houvesse dúvidas

Se ao menos não houvesse dúvidas:
é aquela hora de bruma e de medo
e a relva, amanhecendo estiolada,
tem como raízes vísceras misturadas.
Se ao menos soubéssemos: sob o luar
Joana D’Arc é queimada e ascende
ainda mais translúcida do que uma brisa
desfeita pela fuligem – é aquela hora
de árvores pétreas e muros ensanguentados.
Se ao menos contemplássemos: arde
a cidade e somos nós os saqueadores,
nós os negros, os gregos, as troianas
deixadas ao estupro, aterrorizadas
(é aquela hora, a noite densa e terrível)
por uma suspeita que jamais se confirma.
Afinal, o que será esse rumor? Ratos
correndo no forro dos telhados ou torvelinhos
de ventos formados durante a madrugada?
Se ao menos uma palavra nomeasse
essa pedra abrasada encravada no peito –
mas não: é meio-dia, faz sol
e a praça central se afoga em claridade.

um massacre em Paris

você pode não fazer nada
que é uma ação que se resolve em si mesma 

você pode estar no trabalho
você pode não saber o que é Charlie Hebdo
quem: um homem rico, um senador da république
você pode não falar francês
você pode ter certeza da pronúncia
Tchárli à l'anglaise, Ebdô à la French 

você pode não saber o que é um hebdomadário
você pode não saber o que é um arrondissement
você pode não saber que a av. Paulista fica a 9401,51km do 20º arrondissement
a 9401,51km de distância
você pode se sentir desconfortável 

você pode ver os cartuns que seus amigos postam no Facebook
você pode ver os cartuns dos cartunistas mortos
você pode rir 

você pode nunca abrir uma edição do Charlie
você pode achar de mau gosto
você pode achar de péssimo gosto
você pode concordar com o Christopher Hitchens
você pode ser um enfant terrible
você pode achar melhor não mexer com a religião dos outros
você pode não querer saber quem são os Le Pen
você pode saber que nem todo mundo é terrorista
você pode achar os desenhos tão banais 

você pode ler as notícias sobre o ataque
você pode ler os live updates do NY Times e do Guardian
você pode ser um homem branco vivendo no Brasil
você pode ser uma mulher branca vivendo
você pode ser um homem muçulmano
você pode ser uma mulher muçulmana
você pode ser um bisneto de muçulmana
você pode ser um homem mulato nascido no Brasil
você pode ser um homem coreano recém-chegado ao Brasil
você pode ser um menino de Moçambique 

você pode ver repetidas vezes na TV um homem branco
sendo carregado de maca até uma ambulância
você pode notar que os tênis dele são Adidas
você pode nunca mais esquecer que os tênis eram Adidas
pretos com 3 listras brancas
e que ele estava sem camisa 

você pode ver repetidas vezes na TV
o policial deitado tomando tiros
nos headphones os tiros são tão altos
você pode arrancá-los de um susto 

você pode ver repetidas vezes na TV
um filminho de celular feito por amadores
no topo de um prédio
você pode ter amigos em Paris
você pode ter conhecidos em Paris
você pode não conhecer ninguém em Paris 

você pode pensar somos viciados em informação
você pode ter vontade de comprar cigarros depois de 10 anos sem fumar
você pode comprar cigarros quando sair do trabalho
você pode andar ida e volta na avenida
você pode pegar chuva na ida
você pode não pegar chuva na volta
você pode notar a fronteira azul/cinza no céu
você pode imaginar que a chuva anda mais rápido que
você pode ver como a noite vem caindo
você pode saber que já é madrugada 

você pode ouvir Mendelssohn
você pode ouvir Eduardo Paniagua e o Ibn Baya Ensemble
você pode ler as mesmas notícias cinco vezes
você pode ouvir os statements dos heads of state
você pode não se importar tanto com o que dizem 

você pode ler que uma mulher que trabalha no prédio
mandou uma SMS a um amigo dizendo
estou viva há muita morte ao meu redor
sim, eu estou lá os jihadistas me pouparam
você pode ficar intrigado com o estou lá
você pode não saber o que é Allahu Akbar 

você pode querer ligar para a sua mãe
você pode olhar os meninos tão atléticos na rua
você pode pensar que o seu gosto para homens é clássico
você pode ter um gosto grego para homens
você pode ao mesmo tempo ser lucian-freudiano em mulheres
você pode ver que o mundo também tem gorduras e descolorações
você pode preferir o mundo 

você pode ver que ninguém está arrancando os cabelos em SP
você pode ver a fila de carros para entrar no shopping
você pode ver que o labrador do seu vizinho está crescendo
ainda ontem era filhote 

você pode não dizer nada no Facebook
você pode não ler os comentários que deixaram nas notícias de Facebook
você pode ser de esquerda
você pode se espantar com um corte de cabelo na rua
você pode ler o que um grande crítico disse
você pode achar uma pena as mortes do Wolinski do Cabu
você pode pensar porém na arrogância ocidental
você pode pensar de fato na arrogância ocidental
você pode se perguntar se um brasileiro é ocidental 
você pode se sentir ocidental
você pode não sentir nada
você pode ouvir uma palestra de 40min do Edward Said
você pode se sentir pós-colonial
você pode achar que é cedo demais para o Said
você pode lembrar que ele falou dos atentados de Oklahoma City
você pode não saber quem bombardeou Oklahoma City
você pode comprar pasta de dente
você pode sorrir com a promoção

você pode ler na revista Jacobin
que é melhor se preparar
você pode ver que já vem o coice antimuçulmano
você pode pensar ai a Europa se avacalhando
você pode achar que é cedo demais

você pode pensar nos limites do humor
você pode sentir nojo do sangue desenhado nos cartuns-tributos
você pode ver uma fotos dos seus amigos no topo da pedra do Leme
você pode acompanhar até às 21h41 Tignous Cabu Charb,Wolinksi +8 

você pode lembrar que os últimos anos não têm sido bons
você pode checar as notícias da Petrobrás
você pode checar todos os sapos do Panamá morreram
você pode ler os ensaios do Foster Wallace sobre tênis
você pode não ficar obcecado com o Charlie Hebdo

você pode lembrar que têm feito novos amigos
você pode lembrar que amanhã já é quinta-feira
você pode tomar espumante porque acabou a cerveja
você pode se sentir mal porque espumante é bebida de festa
você pode tomar espumante num copo de requeijão
você pode querer fazer um brinde ao Jonathan Swift

você pode de repente sem saber bem por quê
você pode desenhar um pequeno Maomé secreto em seu caderno
 

São Paulo, 7 de janeiro de 2015 - 22:11

 

Je suis Charlie Hedbo

A redacção do “jornal satírico” francês, Charlie Hebdo, foi alvo de um atentado hoje, 7 de Janeiro de 2015. O resultado (à data): 12 mortos, 11 feridos, 4 deles graves. Entre as vítimas, Charb (director e desenhador, “je prefere mourir debout que vivre à genoux”), Cabu, Wolinski e Tignous e dois polícias.

O ataque foi perpetrado com pistolas-metralhadoras kalachnikov por dois indivíduos encapuzados (mais um cúmplice) e vestidos de negro, que por volta das 11h20 entraram na redacção e, numa desproporção de forças próprias dos cobardes loucos, cuja ética foi totalmente sugada pela religião, disparam sobre os presentes gritando, segundo uma testemunha, “allahou Akbar”. Antes disso assassinaram a sangue frio o porteiro e depois de fuzilarem a redacção, foi bem disso que se tratou, ainda abateram um polícia na rua (deitado no solo ferido, disparam-lhe uma bala na cabeça).

Face a este horror (“terror”, dizem alguns, mas isso depende já da nossa reacção, só há terror quando nos sentimos aterrorizados), quero exprimir a minha perplexidade e indignação, bem como a minha solidariedade a todos quanto deixaram de estar entre nós ou perderam os seus, devido ao tresloucamento de fanáticos que pensam, à boa maneira dos ignorantes definitivos, estarem próximos da vontade divina (neste caso islâmica, mas, mutatis mutandis, podia ser cristã ou judaica, todos os monoteísmos destilam estes cancros). Uma vingança patética (contra as críticas a Maomé) apagou em poucos minutos vidas plenas, com lastros familiares, e quis deixar um aviso à nossa condição fundamental de sociedades democráticas: a liberdade de expressão.

Se nos baixarmos, se por medo e num sentimento de culpa em ricochete desenvolvermos novos mecanismos de censura, ou pior, de autocensura, este atentado terá vingado. É por isso que escrevo este pequeno texto para expressar a minha condição de irmandade para com os falecidos e prometer defender a todo o custo a liberdade de expressão.