HEARTQUAKE

a esta hora mais coisa menos coisa
estarás a jantar em Heimlicher Strasse 
a cozinha italiana é o teu calcanhar de aquiles
(e eu só gosto de bruschetta)
é mais que certo: vista para o Weser e café
no fim da noite poesia & currywurst 
nas escadas de Böttcherstraße

a esta hora mais coisa menos coisa
espero-te no café ceuta
(o sol de setembro não te traz na nuvem
mais próxima)
há tempos ouvia-te nesta mesa
a falar dos nibelungos
do norte de Niflheim
dos burgundos 
das ramphastidæ da América

é domingo e eu imagino-te longe
entre os meus lábios e o copo de café
procurando-te em todas as canções do vh1
resignando-me sempre com um cisco no olho
a esta hora
mais coisa menos coisa

Alfred Jarry, Os dias e as noites. Capítulo III: Outro dia

Livre, Sengle é condenado à morte, e sabe a data. E eis que voga a sua cama de ferro branco, em forma de gôndola. Sengle, como o rei oriental, está enfaixado até à cintura numa bainha de mármore negro, que continuará a crescer à sua volta, e que lhe lembra um passeio que deu num bosque com o irmão, num estado de espírito tal como se tivesse tomado haxixe. O seu corpo caminhava sob as árvores, material e bem articulado; e ele não sabia o que de fluido voava por cima, como uma nuvem feita de gelo, deveria ser o astral; algo de mais ténue se deslocava, mais acima, em direcção ao céu, a trezentos metros, a alma talvez, e um fio perceptível ligava os dois papagaios de brincar.

«Meu irmão», disse ele a Valens, «não me toques, porque o fio se prenderá nas árvores, como quando se corre com um papagaio por entre os fios do telégrafo; e parece-me que, se isso acontecesse, eu morreria».

Ele lera, num livro chinês, sobre a etnologia de um povo desconhecido, cujas cabeças conseguiam voar até às árvores para capturar as presas, e se reuniam a elas pelo desenrolar de um novelo de fio vermelho, regressadas, então, e adaptadas aos seus colarinhos sangrentos. Mas o vento não podia soprar de certo quadrante, porque o cordão se romperia e a cabeça voaria por sobre o mar.

Como o seu irmão Valens, que ele sabe estará longe durante dez meses, Sengle, livre, rejeita-se soldado e revive o seu passado como o presente de Valens, como impressões que lhe agradam e são, portanto, as únicas verdadeiras da sua alma. E eis aqui uma sala de examinação por onde ele já passou, e cuja recordação regressa à cama branca em forma de gôndola.

Num vasto estúdio vermelho e cinzento, sob o oásis de um grande candeeiro. Severus Altmensch, o eunuco judeu; Freiherr Suszflasche, o célebre esteta alemão; o publicista Bondroit; uma jovem rapariga, modelo de profissão, chamada Huppe; o próprio Sengle.

Tendo Huppe explicado a Sengle que lhe seria agradável ver e possuir o seu corpo, como tinha feito com Raphaël Roissoy, e antes com Bondroit, e que não esperava ter o do esteta alemão, respondeu-lhe Sengle que lhe seria mais agradável ver – ainda que não fosse possível que Hupe o usasse – o do eunuco judeu Severus Altmensch, pois não se sabia se lhe faltava tanto que fosse eunuco, ou apenas o suficiente para o declarar judeu. Pensaram, então, num artifício. Propôs-se este jogo, lícito num estúdio, de tirar à sorte quem subiria nu para a mesa de modelo; e sem truques – embora Sengle previsse o resultado –, a sorte calhou a Severus Almensch. Tendo este recusado a obedecer, Sengle agarrou-o pelos ombros – com a ponta dos dedos –, e Huppe despiu-o.

Severus Altmensch surgiu nu, excepto nos pés, ainda mais disformes por se adivinharem dentro de umas botas exageradas. Peito vazio, barriga saliente como a aresta de um tetraedro, braços como duas ripas, pernas de fauno – de um fauno que tivessem castrado, por pudor, numa estampa –, e todos os membros se articulavam em direcções imprevistas. Crescia-lhe por todo o lado uma astracã encaracolada, de vicunha, ou lama, uma lã que lembrava lanolina; e, com as suas unhas como garras, desensarilhava, em direcção ao peito, o púbis triangular do seu ventre enorme com a ponta voltada para cima.

Huppe queria dar-lhe todos os prazeres; Severus teve agudos gritos, seduziu e mordiscou-a no seio. Ela não conseguiu qualquer efeito, pois ele era masoquista, fetichista e legalista, e contorcia-se no tapete enquanto mamava no bico de um pavão empalhado.

Segundo a ordem do sorteio, era a vez de Freiherr Suszflasche se despir, e era quase tão ignóbil, atrasado, com vinte e quatro anos, e maturidade de doze, conforme o exige Schopenhauer em casos tais. Raphaël Roissoy, de traços belos e beicinho, o corpo efeminado do São João Baptista de Da Vinci.

Bondroit, bem; e o último, Sengle, o mais harmonioso – consideraram –, e o corpo mais casto, apesar do ar excessivamente de modelo de estúdio do seu bigode principiante.

E como só havia seis corpos nus, não havia qualquer atentado público ao pudor. De repente, tocou a campainha – e Bondroit, todo nu, foi abrir –; era Moncrif, duma fealdade vermelhusca, e quase tão enrugado como Severus Altmensch. O recém-chegado, estupefacto, temendo um paradoxal estupro, foi sentar-se, enfarpelado, como sempre, em diversas capas. E todos lhe tiveram um profundo horror, pois, sétimo, ainda que vestido, ele constituía o ATENTADO.

E os seis desapareceram no fumo do grande candeeiro, cujo vidro se partira; e escandalizados com a presença do Sétimo, todos correram para as suas roupas, pés descalços sobre as fissuras.

Comparação Da Dimensão Do Espaço Depois Da Subtração Da História

“You can´t escape the past in Paris, and yet what´s so wonderful about it is that the past and present intermingle so intangibly that it doesn´t seem to burden.”

Allen Ginsberg

 

Tens razão quando dizes que Montmartre é como a aldeia do meu pai, mas a aldeia do meu pai
Sempre comeu e bebeu  o que o suor e a terra lhe deu, lá se plantava e lá se colhia, em Montmatre
Há uma vinha cujo vinho quase ninguém prova, mas tanta gente conhece e viu, não me parece
Que comam as heras que crescem na paredes das casinhas, nem vi galinhas a correr pelas ruas
Ou debaixo das mesas dos cafés, vi sim uma ou outra pomba, aves citadinas essas, que raras vezes
Vi na aldeia do meu pai a pedinchar um pedaço de pão, na aldeia do meu pai não há pedintes
De nenhum tipo, só portas abertas e a partilha do pouco que se tem, mas Montmartre respira
Ainda, mesmo que o sangue seja vinho daqui ou dali, as casas brilham e no seu tamanho são
Maiores do que o desprezo dos descendentes que herdaram telhas que apodrecem e cedem
Tudo, colapsando todas as noites à lareira, todos os gemidos nos partos em colchões de palha,
Todos os gatos que entravam por buracos pequenos em baixo das portas, como o frio
Entrava nos ossos da gente, Montmatre tem ainda luz, tem olhos, tem gente, gente que
Procura nas ruas a presença de quem já lá não está, mas tens razão, as ruas são tão largas
Num lugar como noutro, apesar da macadamização ser bem recente num lado e estar
Já bem polida noutro, falta gente e uma cidade inteira aos pés para se poder comparar,
Mas mesmo assim, não sei onde me sinto mais em casa, se onde as memórias são minhas,
Se onde as memórias são as que queria que fossem minhas, noutros tempos, as mesmas pedras.

Coimbra

10-02-2014