A Transcrição Da Saudade

ao meu avô Jorge,

A caneca sobreviveu-te, ainda há copos que vibram na recordação dos teus lábios
Pintados pelo vinho , as cartas evaporam-se num canto onde o pó se esquece,
O teu canto à beira da chaminé nunca será preenchido, venha quem vier, até eu
Me sinto esmagado pela ausência de ti todo, quando concentro o meu peso e o meu
Sofrimento na lareira que crepita com o gotejar da gordura de uma chouriça que nunca
Irás provar, a mim tudo me pareceu gratuito, sabendo que a mim, nem a caneta me
Sobreviverá, do que são feitas hoje as tuas mãos nodosas e onde estão as batatas
Que tu arrancavas da terra, não serei egoísta ao ponto de dizer, morreste-me,
Porque na verdade, morreste-te, a ti e a tudo o que era teu, com eu, uma
Extensão do que extraíste da terra e apesar da tua surdez se ter tornado no
Eco da eternidade, cá me estás, mesmo que nem uma palavra, nem uma só história das
Que tanto gostavas de repetir, só a sombra da tua presença, à lareira, nas noites frias
Destiladas a fogo e vinho, pela vida fora, até que nem o cansaço te cedeu, só a vida,
Tu sempre maior e mais forte que tu próprio, nem te sentiste, nem te acreditaste,
Ainda hoje estás certo que eterno, também eu, aqui te sobrevivo, entre um vazio
E outro, que a vida é isto, esvaziar, despejar no nada tudo quanto se é, até não haver
Mais que se seja, tudo tão certo como a garrafa que se encerra na mão e já vazia,
Tão seguro como a mão que a empunha e sem se perceber a larga por um instante
E a garrafa partida, a tornar o seu vazio do tamanho do mundo, aperta-me a mão,
Mesmo que tu já nem mão, tu todas as mãos que nunca serão a tua, como foram
As mulheres aquela que nunca foi, percebes-me a estas horas antes da primeira caneca,
Falemos na linguagem das cartas, deixo-te roubar, contigo perder nunca será perder,
Só perdendo-te, eu parto, baralha tudo como se fosse a minha cabeça, tu sabes,
Sempre decifraste bem a cor dos meus olhos e o sofrimento da minha carne dissecada
Pelo vício dela própria, digo-te que nunca chorei, porque nunca te vi chorar, os homens
Que vivem na vida, não choram, sangram, aí eu falho-te, sou muito espectador,
Toco demasiado sem tocar verdadeiramente em nada, crio tanto sem direito a espaço,
Nem uma fruta, só a vontade, talvez, um corte, uma fatia de queijo de manhã, na transição
Da ressaca, na morte da juventude, enquanto o Sol, lá fora, indiferente a todos os ossos,
Nos envelhece, nos separa com dias, tempo, invejoso do tamanho da memória,
Acreditaste mais no poder da terra e da carne, mesmo que a cara salpicada de água
Nos Domingos e o adro na tua presença, a olhar para as mulheres de lenço na cabeça
Certas dos pecados, decorando um arrependimento para a representação de teatrinho,
A caneca sobreviveu-te, o vinho é que não será nunca a mesma coisa depois do inferno.

05-02-2014 Coimbra 

A quien pueda interesarle

Los domingos son elegidos siempre por los asesinos para cometer cualquier homicidio. Nadie se imagina que un asesinato está ocurriendo si los pájaros ríen, insoportables, desde temprano. Ningún vecino escucha la sentencia ni las últimas palabras de quien ruega por su vida. El diario lanzado por el repartidor golpea la puerta con noticias vestidas de amarillo, sabiendo que al día siguiente deben vestirse de rojo. Pero ningún periodista se da cuenta de lo que pasa. Nadie escucha un llanto ahogado incapaz de romper ventanas. De llevarle una primicia así al editor, este se reiría en su cara. Lo llamaría pusilánime, débil. Un periodista denuncia crímenes inusuales, vistosos, que ostenten alguna huelga de hambre fallida o una cinta de celebridades jadeantes fingiendo que pueden hacer algo perdurable. La guerra les sirve mientras no sea resuelta, cuando hay niños obligados a crecer muy rápido, cuando un país puede costear salir en la portada. Cualquier tortura pasional resulta aburrida pues ocurre todo el tiempo. Esto sucede porque los editores tampoco se maravillan con atardeceres; si han visto un crepúsculo en un periódico, probablemente reportaba que el mundo se estaba acabando ante un matiz tan rosa o un cielo tan aplastante. A nadie le interesa.

Dentro de la casa, se hallaban el verdugo y su víctima. Ella chillaba, tratando de buscar opciones que la rescataran de la ineludible muerte. Él sostenía el arma entre sus manos como a un bebé, para hacerle ver que no había salida. La gente no entiende que asesinar a alguien exige un esfuerzo mental grande. No es sencillo tomar una decisión como esa. Los periódicos reportan asesinos como seres calculadores, aunque no se haya visto en este planeta un ser más desesperado. La sierra se empapaba de gruesas gotas. El verdugo, al ver a su sierra llorando también, se sintió más determinado. Las yemas de sus dedos presionaron ambos muslos de la víctima, como si precisaran palpar el orden, la piel, la realidad. Rodeaban las rodillas, sin tocarlas, midiendo el diámetro y calculando lo que debían cortar. Unos cuantos centímetros sonaban bien.

Tomó la sierra y presionó, mutilando con diligencia cada una de las piernas. Movía sus brazos de un lado a otro a pesar de las náuseas. No pensó que matar a alguien era similar a un trabajo pesado. El homicida quería finalizar la jornada para echarse a llorar hasta quedarse dormido; parecía que nunca iba a alcanzar el hueso y terminar con todo. Solo de sus ojos escapaban lágrimas calientes, estaba muy cansado; era el único inconforme con la gestión. Ella no decía nada, lo entendía. Un periodista hubiese reportado gritos y escribiría que la víctima murió al instante para no herir a su familia. La transacción, aunque simple, tomó casi cuatro horas. Nadie entiende que el muerto asimila que se está muriendo. Ningún vecino entiende que la víctima no lamenta morir. El asesino deja la escena porque ha causado suficiente daño. El editor tampoco sabe que regó las plantas antes de salir.

El cuerpo necesita ajustarse al pensamiento. Él le hace falta. Todo le hace falta. Todo lo extraña. La víctima siente lástima por sí misma antes de convencerse de que puede superar una pérdida como esta, o al menos vivir con la resignación de un amor irreparable e intenso. El cuerpo siente la ausencia. Ella ha perdido sus extremidades, las partes que hizo indisociables de sí cuando conoció a su verdugo. Duda que vuelva a caminar aunque desee hacerlo. Le ha quitado las piernas. El desamor suele desintegrar sueños compuestos: ya no podrán caminar juntos los dos.

Ninguna sección del periódico se atreve a decir que la víctima no es víctima, que disfrutó ser magullada, o que fantasea con la sangre y sus burbujas emergentes. El editor rechaza una historia donde se prefiere morir antes de salir ileso. Nadie entiende a los pedacitos gritones restantes ni al ruido hambriento, necesitado de cariño. Nadie sabe qué escribir.  

A NUVEM

Odysséas Elytis
Em Maria Nefeli
Tradução: Manuel Resende

Eu vivo dia a dia – que o futuro, não o diviso.
C’ uma mão amarroto o dinheiro, com outra o aliso. 

Vês, as armas têm de falar nos nossos tempos caóticos,
’Té temos de dizer amém aos «ideais patrióticos». 

Que me fitas tu escriba que farda nunca vi usar?
olha que fazer dinheiro também é arte militar.

Não me venhas com insónias e amargos versos vários
ou pichar paredes com slogans revolucionários.

 Para os outros, um intelectual é que hás-de sempre ser
e só eu te amo: refém dos meus sonhos hás-de viver. 

E se em verdade o amor é como dizem «comum divisor»
eu hei­‑de ser Maria Neféli e tu das nuvens o Empilhador­

Lobo Antunes, Neptuno

Lês esse gajo?, perguntou-me António Lobo Antunes de nariz torcido, não escreve nicles, é um zero à esquerda, mais valia embrulhar o palavrório e enfiá-lo num sítio que sabemos. É assim que andas à noite?, inquiriu, sem sair da sombra. De robe, pantufas e cuecas e romance pobrezinho que me auxilia a gastar o tempo necessário para que os cães se cansem no jardim. Se soubesse que encontraria o génio encostado a uma parede a fumar, teria trazido outra farpela. Uma camisa azul bebé engomadinha. As feras ladravam e corriam uma atrás da outra e eu lia num dos poucos recantos alumiados do jardim, embora a cacimba, essa mistura de frio com humidade, me dificultasse a tarefa. Empanzinas-te de lixo, tolo, aproveita que o cão malhado defecou para apanhares as fezes com folhas dessa resma a que nem sob tortura me atreveria a chamar livro. Anda daí, murmurou e virou-me as costas, deixando-se engolir pelo escuro. Não carregues trampa. O livro que trouxera de casa não entrou no Renault 4 L vermelho debotado que nos conduziu ao rio. A verdadeira literatura é esta brisa gelada, a ponta do cigarro ardendo na escuridão, os cacilheiros vagando com suavidade pelas águas barrentas que nos reclamam o corpo. O que te aflige?, perguntou-me o génio com uma doçura tal que dava a sensação de falar sem mover os lábios. Não chegar aos pés de Lobo Antunes, respondi. Entrámos nus no rio. Lobo Antunes de cigarro na boca. Tenta ser tu mesmo, murmurou, um novo tu consciente de que Napoleão teve de acreditar em Napoleão para que Napoleão existisse. Quis saber o que deveria fazer em relação às pessoas que me incomodavam, aos melhores escritores do ano, segundo a revista x e y, aos premiados, aos que conheciam o meio. Desejava dar um destino à inveja e ao ressentimento. A água dava-nos pelo peito. Lobo Antunes sorria. Transforma os sentimentos naquilo que queres ser. E os outros?, insisti. Entre esses talentos existe alguém chamado William Shakespeare?, questionou. Não, disse. Continuámos a afundar-nos e os maus sentimentos e as rugas e os cabelos brancos e a miopia e a surdez e as cicatrizes desapareceram, enquanto nadávamos não sabíamos o significado da inveja, do ódio, do ressentimento ou da vaidade, o rio sujo dera lugar a um cristalino mar azul habitado por baleias, orcas, golfinhos e tubarões, e Lobo Antunes era Neptuno e guiava-me para a luz. Acordei sem Lobo Antunes a meu lado. Noite cerrada e uma folha em branco pousada numa mesa. O suplemento literário da semana anterior a meus pés. Beatas de cigarros. Copos vazios. As buchas para a depressão, coitada da depressão, que não aguenta sem os caramelos mágicos. Lobo Antunes em mim, dentro e fora de mim. Sentei-me a escrever. Risquei as primeiras frases. Recomecei a escrever sem riscar, a escrever com humildade, sem vergonha de não ser Neptuno, não parei até me passar o desejo de ser outro e o desejo de me atirar ao rio em busca de um génio existente em sítio nenhum.

 

 

 

 

 

 

 

 

Entrevista a Hugo Milhanas Machado

Salamanca, seis e três da tarde, crepúsculo. O poeta encontra-se três minutos atrasado. Nunca se deu o caso de entrevistar um poeta e pergunto-me se haverá alguma especificidade em relação a outro tipo de escritores. De acordo com as informações de que disponho, os poetas tendencialmente vestem-se como hipsters e são pessoas muito interessantes. Têm também fama de ser gente difícil: Byron dormia com a irmã, Fernando Pessoa gostava bastante a atirar para o demasiado de bagaço e aguardente, Manuel António Pina tinha gatos. Enquanto pondero estas questões, um ciclista em equipamento completo passa pela montra do café. O seu meio de locomoção: a bicicleta, evidentemente. Cinco minutos passados a prender o veículo com três cadeados (bicicleta de corrida, investimento considerável), o indivíduo aproxima-se. Apresenta-se como sendo o poeta que devo entrevistar, Hugo Milhanas Machado. Duvido dele, mas não há sinais de hipsters neste tranquilo café de Salamanca. O poeta senta-se e a entrevista começa.

 

Podia-nos falar um pouco da sua poesia? Tem consciência de que este livro não é muito fácil de ler? Confesso que gostei de quase tudo o que entendi, mas não podia ser um pouco mais lírico?

 Agradeço-lhe, em primeiro lugar, ter vindo aqui ao meu encontro e por ter lido este livro. Mas vai desculpar-me, não poderei dizer muito mais. Julgo que não me cabe defender como são ou como poderiam ser estes poemas, e muito menos ambiciono que o leitor os entenda como eu os entendo. São poemas, encontros de linguagem, jogos, diversões, pontos quentes na fala. Sim, reconheço que aquelas palavras também querem dizer qualquer coisa, mas julgo que essa preocupação é bem capaz de me sobrar. Nem sei se gostar das coisas tem realmente a ver com o entendimento delas. Gostar de uma pessoa, por exemplo: quando entendemos porque gostamos começamos a deixar de gostar, ou a perder o sentido do gosto, não acha?    

 

Quando começou a escrever poesia? De acordo com uma fonte anónima[1], partiu a cabeça na fonte da escola. Há alguma relação?

Sim, é verdade, estaria talvez na segunda ou terceira classe. Nunca tinha pensado no assunto nesses termos e há muito tempo que não me lembrava disso, mas pode guardar certa relação. Se me coloca a pergunta é porque alguma coisa terá que ver. Recordo o impacto contra a pedra, o impacto, a minha professora a mexer-me na cabeça e os dedos cobertos de sangue. Mas realmente só escrevi o primeiro poema uns anos depois, no sexto ou no sétimo ano do básico, e para impressionar uma colega de turma. A conquista falhou, mas comecei a interessar-me pela brincadeira.

 

A sua poesia é bastante original no contexto da poesia Portuguesa contemporânea, uma verdadeira experiência de estranhamento da linguagem. Como é que descobriu que esta era a forma de expressão que era mais adequada para escrever os seus poemas? 

Não sei se será muito original ou não, mas simpatizo com a formulação. Como disse há pouco não vejo grande pertinência em explicar ou defender como escrevo os poemas ou como armo os livros que depois publico. Posso sim recomendar algumas leituras ou resenhas muito atentas a partir de livros meus que de certo modo me permitem ver tudo isto desde fora, perspectivar as leis de construção que se vão intuindo nos livros. Refiro-me a textos de Nuno Dempster, Manuel Margarido, Rui Alberto Costa ou Henrique Manuel Bento Fialho, que aproveito para agradecer.

 

Este livro intitula-se Onde Fingimos Dormir como nos Campismos. Fale-nos um pouco da sua relação com o campismo. De acordo com a mesma fonte, com dezasseis anos foi acampar sozinho para Vila Praia de Âncora devido a questões amorosas. Agustina Bessa-Luís tem um livro intitulado Canção diante de uma Porta Fechada mas você montou, por assim dizer, a tenda à porta dela. Descreveria isto como um comportamento relacionado com o modo como entende a poesia?

 Tempos giros, esses. Recordo bem essa aventura, e lembro-me que tinha um caderno comigo onde ia apontando umas coisas. Mas a minha experiência campista tem sobretudo que ver com Peniche, com o mar de Peniche, com as praias, as noites de vento e estrelas a céu aberto, a malta de lá. O meu livro anterior, Uma Pedra Parecida, junta poemas quase todos eles escritos no Parque Municipal de Campismo de Peniche, suponho que para começar a dar nome às coisas, às magias de um tempo de miúdo que se ia apagando.

“Recordo bem essa aventura, e lembro-me que tinha um caderno comigo onde ia apontando umas coisas. Mas a minha experiência campista tem sobretudo que ver com Peniche, com o mar de Peniche, com as praias, as noites de vento e estrelas a céu aberto, a malta de lá. O meu livro anterior, Uma Pedra Parecida, junta poemas quase todos eles escritos no Parque Municipal de Campismo de Peniche, suponho que para começar a dar nome às coisas, às magias de um tempo de miúdo que se ia apagando.”

Desde que chegou que lhe quero fazer esta pergunta. Não pude deixar de reparar que depila as pernas. Porque é que os atletas depilam as pernas? Não nos quer convencer de que pedala mais rápido por causa disso, pois não?

 Não, é mesmo pelo estilo. Já viu o bronze? É um creme bom que a malta utiliza para melhorar a exsudação das pernas. Mas agora fora de brincadeiras, a depilação permite uma melhora transpiração dos tecidos, não duvide, e portanto um comportamento muscular mais fresco, movimentos mais definidos. Mas não deixa de ser engraçado que numa ou noutra situação me distingam num grupo de poetas como o das pernas depiladas.

“mas agora fora de brincadeiras, a depilação permite uma melhora transpiração dos tecidos, não duvide, e portanto um comportamento muscular mais fresco, movimentos mais definidos. Mas não deixa de ser engraçado que numa ou noutra situação me distingam num grupo de poetas como o das pernas depiladas.”

 

O facto de depilar as pernas influencia a sua poesia?

 Sim, sem dúvida. Da mesma forma que lavar a louça depois das refeições. Tenho muitas ideias pequeninas enquanto cumpro estas tarefas. Quando faço a barba, por exemplo, ou quando engomo a roupa pela manhã.

 

Quais os escritores que mais o influenciam?

 À cabeça, Roberto Bolaño. Li tudo, uma e outra vez, estive três anos a ler a obra de uma ponta a outra, a procurar textos dispersos, publicações antigas. Agora em Fevereiro inaugura em Madrid o “Archivo Bolaño”, uma exposição que esteve no ano passado em Barcelona. Bolaño é uma verdadeira escola, mas a gente lê e não se apercebe que está na sala de aula. Os ritmos de narração, os tons, a intensidade do texto, é tudo brutal, contundente, rigoroso. Além de Bolaño, e por motivos muito particulares em cada caso, uma equipa grande e poliédrica: Nuno Bragança, Ruy Belo, António Ramos Rosa, João Cabral de Melo Neto, Jaime Gil de Biedma, Leopoldo María Panero, Javier Cercas, J.D. Salinger, Paul Auster, Haruki Murakami.

 

Vivendo há cerca de uma década em Salamanca, contaria autores contemporâneos espanhóis entre as suas influências? Miguel Delibes também tinha uma coisa com bicicletas.

 Sim, Miguel Delibes era um apaixonado pela bicicleta. Curiosamente, e talvez esteja a par, trabalho com uma editora de ciclismo, La Biciteca, dirigida pelo meu amigo Manu Martín, e o primeiro título que publicámos foi justamente um livro de Delibes, Mi Querida Bicicleta, um pequeno tesouro, deveria ler. Cheguei a Salamanca com 21 anos, de modo que muitas das leituras mais sérias que tenho feito nestes últimos tempos são em língua castelhana, não necessariamente autores espanhóis. Temos uma colecção admirável de poetas novos: Ben Clark, Luna Miguel, Fernando de las Heras, Andrés Catalán, Elena Medel, Carmen Camacho, entre outros, todos muito jovens. E quanto a narradores contemporâneos a lista é poderosíssima: Enrique Vila-Matas, Alberto Méndez, Javier Cercas, Javier Tomeo, Ana María Matute, Rafael Chirbes, muitos.

 

Mantém um programa de rádio na Rádio Universidad de Salamanca “Historias de la Musica Portuguesa”. A música é importante para o seu trabalho de poeta? Que músicos portugueses destacaria? Não podia escrever poemas com um estilo mais directo, ao género de António Variações?

Sim, julgo que a música é fala muito vizinha dos meus poemas. Sabia que um escritor e crítico português de que lhe falei há pouco, Henrique Manuel Bento Fialho, escreveu em tempos numa nota sobre uma plaquette minha, Plato chico, que me via como uma espécie de DJ frustrado? Algo assim, não recordo com precisão, mas parece-me em todo o caso uma observação pertinente. O ritmo, o convite para a dança, o movimento, o compromisso entre paisagem acústica e corpo, recordo que sincronizava tudo isto, e só posso estar de acordo. E sim, gosto de meter música, de “pinchar”, como aqui dizemos. Falando em António Variações, é dele uma das minhas canções favoritas, a “Sempre Ausente”.   

 

Contaria outras formas de arte que não a literatura entre as suas influências?

 Com certeza, julgo que o poema trabalha contra tudo aquilo que o ensinou a ser linguagem, ou a ser em linguagem. Veja bem, contra e contra, encostado e em estado de oposição, temos estas coisas boas na nossa língua. Filmes ou certa sequência fílmica, fotografias, determinado retrato, uma canção, um achado sonoro, um elemento gráfico, qualquer coisa que mexeu de tal forma nas minhas palavras que depois permitiu o seu reencontro em forma de poema. Mas não penso só em discursos artísticos, creio mesmo que qualquer evento que nos é dado experimentar se pode converter num elemento gerador de inquietação, de estranhamento, de fecundação. O deporto, por exemplo. Agora só ando de bicicleta, mas sabia que em tempos joguei andebol e cheguei a treinar a equipa cá da terra? Devo umas quantas frases ou versos a muitos daqueles treinos na pista, enquanto imaginava com os meus colegas movimentos e fantasias dentro do 40x20, o perímetro em que as coisas do andebol devem acontecer, do mesmo modo que as dos poemas acontecem dentro das palavras que o compõem. Ou quando escrevo um poema de catorze versos e o penso ao lado de um jogo a ser disputado em duas partes de trinta minutos.    

“ Com certeza, julgo que o poema trabalha contra tudo aquilo que o ensinou a ser linguagem, ou a ser em linguagem. Veja bem, contra e contra, encostado e em estado de oposição, temos estas coisas boas na nossa língua. Filmes ou certa sequência fílmica, fotografias, determinado retrato, uma canção, um achado sonoro, um elemento gráfico, qualquer coisa que mexeu de tal forma nas minhas palavras que depois permitiu o seu reencontro em forma de poema.”

 

Neste livro tem um poema intitulado “O Benfica”. Parece-lhe bem mencionar esse clube num poema? Não podia ter optado por uma influência explícita de José Miguel Silva (Bayern de Munique 1 X Porto 2 – Artur Jorge 1987)?

  Podia mesmo, até porque em Abril do ano passado escrevi um poema em Lisboa que levava um “33” no título, mas talvez fique para outro livro. Gostava de ler?


Nota: O último livro de Hugo Milhanas Machado, Onde fingimos dormir como nos campismos, está disponível aqui.

[1] Obrigada, Isabel!