GRAVURA ANTIGA: CRIANÇAS COM GIRINO APRISIONADO

Foram parar a uma gravura antiga
não sabem que as nuvens felizes sobre o mar
iluminação, devaneio, dia aberto
são cúmulos de um século passado

De um século passado, o olhar que suspende
o salto da rã para o charco primitivo
e o coaxar que promete um mundo de aventuras
abelhas industriosas, os louva-a-deus irrequietos
A vida fica mesmo à frente, estirada na relva
o odor inequívoco, a flagrante actualidade

Não sabem da inocente ferrugem liquefeita
que avança nas pupilas ainda surpreendidas
não sabem da ascensão pueril dos incêndios
porque eles já consomem prados viçosos
e passos decididos, enquanto, inspiradas
inventam jogos mortais
não pisar pauzinhos, saltar de pedra em pedra
e correm tantas nuvens felizes sobre o mar
como perfeitos desenhos do desejo

Algum desconhecido do lugar
marcou a data no granito em que se sentam
e depois o pintor e, enfim, o fiel gravador
O preciso, exacto dia
em que vive cada um a sua vida
o girino aprisionado pelos olhos infantis
e os exactos, precisos olhos
que agora se escrevem
e que tu, leitor, fecharás nas tuas pálpebras
enquanto correm, olha apenas em volta
as tuas nuvens felizes sobre o mar

in Música de Anónimo (recentemente publicado pela Companhia das Ilhas)

O Caso Heidegger

O “caso heideggeriano” continua aberto, ferida que gangrena uma parte do corpo filosófico, ao mesmo tempo que alimenta um dos temas mais apaixonantes dos “amigos do saber”: será que ao pensar as condições de verdade do mundo e do homem se devem tirar consequências éticas e políticas de circunstância, denunciando horizontes de acção e os respectivos juízos de valor, culturais e morais que os constituem? Noutros termos, deve o pensamento heideggeriano ser lido à luz das escorregadelas que o autor de Sein und Zeit teve em direcção ao Nacional-Socialismo e ao anti-semitismo?

Entre os dias 22 e 25 de Janeiro deste ano decorreu em França o colóquio Heidegger et “Les Juifs” (assim, com aspas, introduzindo logo o tom da polémica, mesmo se a expressão é tomada de empréstimo a J.-F. Lyotard). A organização esteve a cargo de bibliotecas, universidades, centros culturais, televisões, rádios e jornais (nenhuma instituição importante da Alemanha, onde Heidegger é menos conhecido, e reconhecido, do que em França). Recolherei as principais ressonâncias do encontro para sumariar as (poucas) linhas principais do que se pensou nestes 4 dias em torno de um dos maiores filósofos do séc. XX.

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ECDISE

1. 

em milagres faria intervenções

transformaria as perdas

em pedras palpáveis e membros fantasmas

em ambiguidades 

e logo cada caminho seria recrutado por determinismos

na época das moscas e aranhas

de observadores são os muros e os matos

de barulhos embrulhados permanece o ar

cada criança corre sua vida 

e se apressa no desmanchar do casulo

em desfazer seu ninho

no deslembrar de seu nicho

mas

os lobos guardam

caminham calmos

os lobos sabem empacotar vontades

2.

montanhas não existem por aqui

os rios cortam mais que lâminas

tu não és peixe nem anfíbio nem réptil

e esse teu coração pulsa nas mãos

pula

teu coração pula 

dele saem regatos por teu pulso

o centro de tudo é consequência

por isso generalizações se formam

3.

os quero-queros não representam anseios

mas insistem

não me representam

não insisto

na pressa os pés

e o leite

choramos a dor e o derramado 

no chão as coisas estão no mesmo plano 

mas existem coisas que não são coisas

assim como aqueles regatos insistem em sair por teu pulso

as horas veiam a presença

e embrulham o dia com jornais antigos

cozinham a existência em etileno

4. 

na minha continuidade as pausas são necessárias

pra remontar céus azuis de dias regulares

pra que o fio da meada não me perca

nas presas achamos pares

principalmente quando elas retiram suas fantasias.