A condição humana

Inverno. Interior. Noite. Uma tristeza extra-large. A voz gravada anuncia, através dos altifalantes, que o tempo vai acabar. Repete o aviso em várias línguas e depois começa a soar Mittwoch aus Licht de Stockhausen. 
Estou sentado na cadeira disciplinada de um avião. O som moribundo da máquina ocupa grande parte do meu campo visual. Uma longa sala de espera flutuante. Filas intermináveis de cadeiras e passageiros sentados, higiene e geometria postural, anjos com uma enorme capacidade de resignação. 
Uma hospedeira de bordo, muito aérea e decotada, aproxima-se de mim, inclina-se, deixando entrever a força e o argumento da sua amabilidade. Oferece-me uma demonstração gratuita do seu sorriso profissional, pergunta-me se está tudo bem, se preciso de alguma coisa, e por fim deseja-me boa viagem. 
Uma senhora de idade está sentada ao meu lado. Olha indisfarçavelmente pela pequena escotilha do avião. A julgar pela fisionomia de ave frágil e pálida, não parece portuguesa. Não parece sequer real. Tem um sorriso pendurado nos lábios. Ignoro a causa que a pôs a bordo da sua derradeira viagem. Seria de muito mau tom, aliás, questioná-la a respeito da sua própria extinção. Mas não resisto a perguntar-lhe para onde tão alegre e insistentemente está a olhar. Lá em baixo, down there, aponta com o indicador esguio e enrugado através da pequena janela do avião, the human condition, a condição humana.

A vida e as opiniões do barnabé guilherme gontijo flores, servidor do estado  

O tédio é a pior forma de tristeza.
(rodrigo madeira)

 

1. Begin the beguine

    Não fui criado para o filho certo
nem para o único
e mesmo assim em algo o sou
ainda que isso nada diga
de mim de outro estulto qualquer
eu não me congratulo
pois cada meu fracasso
não fora antes planejado
porém não disse nada inusitado
e em cada passo armado
o risco de cair 
se deu como a delícia
por  descumprir a sina ignorada
    O tédio não foi bom
nem mau nem meu nem médio
e confesso que nunca
pensei pular do prédio
para espetáculo da turba
que ajuntada na pressa 
logo estaria estupefatamente
desinteressada
    Eu pensei no passado
aquela velha igreja por exemplo
eu muito mais me a adentro
do que alguma vez 
pisei no seu mistério
e cada templo em que passei
mais parecia a casa
envelhecida dentro de um museu
como aquela matriushka que nunca tive
porque estava em outra parte
falseando outra história
    Eu não sorvi do sangue das vitórias
eu nem mesmo as contei
em nada fui desapontado
e creio não desapontei
na tarefa tão árdua de um abraço
eu recuava ao tempo da família
dos quadros apagados
dos nomes sem memória
e de um brasão talvez
perdido nas gavetas inventadas
de algum antepassado
que hoje sumiu sem deixar traço
e sem abrir no espaço 
uma ferida falsa
à qual eu me apegasse 

Toda história é cansaço

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maçã mal cabida

faz já dois candelabros que ela não olha para trás
uma mulher de olhar para trás
mas então agora é o prato chinês
os ossinhos do pato no canto perto
da mão esquerda
o garfo com seus dentes virados
para o quadro onde um cavalo e sobre ele
uma garotinha forçando o rosto num
raio de sol muito mal pintado num
tom de maçã mal cabida ali
pobre
pobre beleza pobre mal cabido ali
faz já umas três ou quatro eternidades que ela não olha para trás
metodologia de sondar sem ver
uma faca no assoalho de cupins
uma vaca bordada no guardanapo novo
uma mulher e um homem e uma roda de tortura
uma vaca bordada na cara da mulher

onde o homem maria de deus
uma propaganda de desodorante e uma cachoeira e a torradeira quebrada
uma vaca bordada na cara dela
e se ela se botasse a cantar e se
se ela botasse a querer lamber um peito marinho
e se ela se botasse
a pensar num estupro supracoreografado
uma vaca e três ou quatro búfalos que ela não
ela usa um terno cinco tamanhos maiores
faz treze luas que ela não
faz treze náuseas que ela não olha para trás
uma sala escura bordada no estofo da cadeira vazia
uma mesa tão longa que ninguém deu-se a bordar
um tipo incerto de deus que fez da incerteza da mulher
coisa bordada no quadro com a maçã sobre o rosto mal chaveado
cavalo sob menina rija sobre raio de sol fruto de fruta mal cabida ali
se ela se bota a voltar a olhar para trás
se ele se bota a pensar em sexo com talheres de azar
se ela se bota a criar uma boa superstição com taças
já uma colisão de ângulos entre a janela e o espelho que ela não olha para trás
se ela se bota a querer o tórax a devolver a coxa e a asa
se ela se bota a entortar o quadro
uma maçã e uma rigidez infantilizada e uma cor de tortura
uma carcaça bordada na cara da mulher
onde o homem maria de deus onde o homem
se ela se bota a cruzar os ossos
essa mulher que morrerá em menos de sete ou dezessete sopros na nuca
se ela se bota a estranhar os milagres ali sobre a mesa sob as unhas
se ela se bota a pentear a franja com o garfo
se ela se bota a cruzar os ossos ou os dedos ou as pernas
se ela se bota a contrair o útero se ela se bota a relaxar o útero
essa mulher que morrerá em menos de sete ou dezessete sopros na nuca
se ela se bota a contrair o útero entre o primeiro e o último sopro fatal
faz já onze moscas que ela não olha para trás 

NEKUIA


we pass on
to another cellar, another sliced wall

(HD, Trilogy)


começamos com o céu sob sombras
nesse tempo, onde eclodem punti luminosi 
imitando os cabelos sussurrantes dos astros
descendo às entranhas das casas 

As casas engolem o céu 

                          – adiante então
até ao subterrâneo seguinte,   

Vemo-nos talvez do outro lado 
da chama e da cinza
da soma e sequência de nós

Isto é comédia 
contas de cabeça ao fim dos trabalhos
dança desengonçada dos cotovelos
música feroz na corda do nervo 
queda da forma na matéria rasa 
dissecção da luz avara no olho baço

Isto é comédia, depois de gasta a terza rima

Isto é comédia na hora de levantar os mortos 
para saber do caminho moroso até Ítaca
de encadeamentos e acasos 
fúrias de deuses 
e possíveis artifícios do mel 
o que um crânio aguenta hã HD
isto dito em sussurro entre as paredes de um parêntesis

Mas afinal o que aguenta o crânio 
e como levar os ossos à boca da luz
(terá perguntado Ulisses) 
quando falta ao músculo o sangue vivo 
e a cabeça é a casca de um fruto acabado

e isto terá ocorrido 

soma e sequência, 
engrenagem e transporte
uso e circulação dos bens
e a ruína das casas 
a ruína das casas e uma romã 
que se abre quando cai a luz 
meses depois do fim da guerra

uma romã abre-se 
no terraço da memória 
e nela cai a luz 
porque uma romã vive
a madeira vive e até a pedra vive                 

mas não há fruto romance ou teoria 
ou livro de Homero ou ABC da beleza 
aliteração ou rima ou açafrão no bolso para depois
ou magnetismo da memória 
que corte o cabo condutor 
que leva a canção do desastre 

e a terra permanece, alguém disse,

e depois (meses depois) 
Robinson virado do avesso
menos grego e mais velho
a íris luzente e de cócoras 
à alvura e à voltagem
espreitando os astros 
por entre as fibras dos calções 
e déjà vus sobre Génova a luminosa 
fazendo desvio por insectos até ao olho intacto 
passando a luz pelo prisma do fim 

sem norte
e sem companheiros, Tirésias, 
como previsto

estamos meses depois 
a morte afrouxou a sua canção 

Uma lâmina de erva por cima da qual nada
Elysium no Inferno antes e depois
e as abas da tenda 
boca de deus ou chuva que fazia
                         k-lakk…. thuuuuuu
vezes 4 (não contes) 
se era ruído ou música

mas fala-me, História, ao ouvido, 
que não consigo ver 
ao longe Taishan e a beleza é difícil
já tinha avisado Tirésias 
a rir 
cuspindo sangue emprestado 

Tudo isto faz parte do processo
Tremer de febre fará parte do processo
O ar que me arde faz parte do processo
A ladainha dos nomes faz parte do processo
            Dierra, Agada, Ganna, Silla
e a Europa intacta na memória
Pisa para Sul e o vento que desce de Taishan

e a morte a morte faz parte do processo
e arde o ar rememoro o sabor 
da romã que a luz abre na boca
por entre as linhas do arame que são parte do processo 
a corrosão é parte do processo e o Paraíso 
é uma lâmina de prata encostada à frente do crânio 
que a luz não chega lá atrás e a morte 
olho cego a céu aberto e o Paraíso 
é a operação magnética do verso 
antes de se desfazer 

Elysium no Inferno
Elysium mas no inferno 

e Confúcio era abrigo a luz era abrigo
mas os séculos não dão abrigo e o ar de Carrara
e o sal a queimar o dom da língua

Cantar é difícil 

já tinha avisado Tirésias
o sangue a segurar-lhe os ossos 

a beleza é difícil mas as nuvens
as nuvens sobre Pisa esplêndidas 
e sobre a latrina o céu vasto e a luz luzente 
à vista de Taishan

e a beleza é difícil mas a morte 
é uma canção que fica no ouvido
(o que o crânio aguenta)

Isto é comédia 
e o fulgor é propriedade da mente 
e o Paraíso é propriedade da mente
e o Inferno faz parte do processo

então acabemos com o céu sob sombras
sob o qual se abre a boca à chuva de fogo 

O lume estupendo de comer a própria língua

e o que amas 
fica em depósito de cinza 
na parede interior das bochechas 
onde entrará a luz
mas não nascerá qualquer flor ou folha de erva
e seguimos até à próxima cave 
e subiremos por arames até ao ar escuro
sobre Ítaca de muros desfeitos
algures ao vento e sobre a terra
longe de Taishan
e demasiado perto de tudo 

A mente mudou-se para um anexo da mente

A mente habituou-se às traseiras