Guilhotina

Queria matar-me.
Infeliz sequência de acontecimentos desprezíveis prenunciava a minha ida.
A vida era morte e só a morte podia fazer nascer em mim a vida.

Queria matar-me mas não sabia como o fazer.
Encontrei um livro e folheei todas as mil e uma maneiras de morrer.
Qual seria a mais rápida e menos dolorosa?
 
Queria matar-me e decidi morrer pela guilhotina.
Antes assim que através da nicotina.
Mas como arranjar uma em pleno século XXI?

Queria matar-me e construí uma guilhotina para em mim nascer a vida. 
Descobri o meu amor pela carpintaria. 
E foi assim que a morte foi vencida.

O génio e o superficial

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Portugal tem um escritor genial vivo, talvez o seu melhor prosador desde sabe-se lá quando, um escritor daqueles mesmo bons, comparável a, vá lá, Dostoiévski, Faulkner e companhia. Sabemos que nem tudo o que esse escritor escreveu é brilhante. Escrever um livro genial já é tarefa gigante para um animal. O escritor português genial não é obrigado a parar de escrever ou a calar-se só porque é génio ou porque as hienas farejam o palco. O génio faz o que lhe apetece. Até morrer. Ser humano e ser livre implica fazer o que se quer. Que lhe interessam as hienas, aqueles que sentem o cheiro, que possuem nome, carreira mas não obra, que vivem dos amigos, a publicar os amigos, a entrevistar os amigos, a blá blá com os amigos? Que interessam os recensionistas/recensioneiros/recensionadores? Que interesse tem a palha para quem está ao nível dos melhores mortos? “É repetitivo”, argumentam os que mal o leram, que mal leram o que quer que seja. “É enfadonho”, ladram outros, carcomidos pelo tédio mas vaidosos o suficiente para também desejarem um lugar ao sol. Vergamo-nos quando o génio passa ou assim nos deveríamos comportar se fôssemos educados para valorizar aquilo que temos de melhor. Não é assim, não fomos educados para respeitar e admirar os nossos melhores. Ortega y Gasset explicou muito bem a tragédia que representa a ascensão das massas ao poder. Desaparecem as minorias, as elites, passamos a ser governados pelo povo. Coitados de nós, governados por gente igual a nós. Pela senhora da mercearia. Pelo sapateiro. Pelo contabilista. Miseráveis. O sapateiro não aprecia génios. Coitado, o sapateiro faz os melhores sapatos, mas não obras de arte, não este sapateiro de Gasset, este só produz sapatos banais, sapatos à sua imagem. É por aqui que passa o problema. Queremos baixar a bitola. Comparamos Bernardos Santarenos a Shakespeares não apenas por ignorância, também por má-fé, por inveja, por não sermos capazes de nos transcendermos. O Nobel para outro português? Sim, se não for para o génio, se cair na algibeira de um dos nossos, de um normal. “O génio não vende”, sussurram alguns iluminados, vendeu mil e seiscentos exemplares. Que interessa que a crise tenha destruído o mundo? Há trinta anos vendia trinta mil. Agora vende mil. O génio não vende e isso é muito importante para quem nunca vendeu, para quem vende com sorte cem exemplares do seu "trabalho artístico", se a apresentação do livro contar com vinho e leituras animadas num ambiente em que se possa fumar. Questões minúsculas só podem ser relevantes para quem deseja ser relevante. Falar acerca de anjos caídos, muito bem, o debate interessa. Podemos começar a falar daquilo que os génios venderam ao longo dos séculos. Dos génios que não foram publicados em vida. E depois chamamos o director de vendas da FNAC para dar a sua opinião.

Dois poemas de Philip Levine

Tradução de Hugo Pinto Santos

 

Pequeno Villon

Diz-me ele que em Banguecoque o roubam
Por ser branco; em Londres porque é preto
Em Barcelona, judeu; em Paris, árabe:
Em todo o lado & a qualquer hora, & ele defende-se.

Ergue sete dedos grossos e pequenos
Para me mostrar que vem em sétimo lugar a nível mundial,
E não há qualquer paixão na sua voz, nem raiva
No liso dos olhos castanhos raiados de sangue.

Pede-me que lhe conte tudo o que me lembrar
Do meu pai, seu tio; fala da guerra
No Norte de África e do que veio depois,
A perda do pai, a perda do irmão,

As montras da padaria partidas, e o pão fresco
Polvilhado de vidro, o cheiro quente a centeio,
Tão forte que ele comia até ficar com a boca cheia de sangue.
Eles vivem aqui, vivem aqui e não morrem,

E aponta a cabeça negra sulcada
De anéis de cabelo preto. Toca-me o cabelo,
Diz-me para nunca desprezar
As duras cerdas que protegem a cabeça do lutador.

De dedos tristes, percorre-me a cara,
Como sou claro, diz-me, e macio.
Ficámos de pé até ao fim desta primeira e última visita.
Duro, 50 quilos, um metro e meio,

Não era maior que uma rapariga, agarra-me pelos ombros,
Beija-me na boca, os olhos ainda abertos,
Meu irmão imaginário, meu primo,
Eu próprio de outra forma, por toda a sua dor.


Philip Levine, Not This Pig, Wesleyan University Press, 1968

 

A Verdade Pura e Simples

Comprei dólar e meio de batatas vermelhas, pequenas,
cozinhei-as em casa, cozidas, com a casca,
e comi-as ao jantar com um pouco de manteiga e sal.
Depois caminhei pelos campos ressequidos
nos arredores da cidade. A luz de meados de Junho
suspendia-se por cima dos escuros sulcos que tinha aos pés,
e sobre os carvalhos do monte os pássaros
reuniam-se para a noite, os gaios e tordos
trinavam de um lado para o outro, os tentilhões ainda cortando
a luz poeirenta. A mulher que me vendeu as batatas
era polaca; parecia saída
da minha infância, com uma camisola de lantejoulas cor-de-rosa e de óculos de sol,
a gabar a perfeição de toda a sua fruta e verduras
junto à berma da estrada e a insistir para eu provar
mesmo o milho cru, pálido e doce que carregava para todo o lado,
jurava ela, de Nova Jérsia. "Coma, coma", dizia,
"Mesmo que não coma, eu digo que comeu."
Há coisas que sabe
toda a vida. São tão simples e verdadeiras
que têm de se dizer sem qualquer elegância, sem métrica nem rima,
têm de se pôr na mesa junto ao saleiro,
o copo de água, a ausência de luz que se reúne
à sombra das molduras, têm de estar
nuas e sós, têm de estar por si sós.
Eu e o meu amigo Henri chegámos a isto os dois em 1965,
antes de eu me ir embora, antes de ele se começar a matar,
e ambos começarmos a trair o nosso amor. Consegues perceber
a que sabe o que eu digo? A cebolas e batatas, uma simples
pitada de sal, manteiga copiosa a derreter, é claro,
fica lá no fundo da garganta como uma verdade
que nunca se pronunciou porque nunca era altura certa,
lá fica o resto da tua vida, por dizer,
feito desse lodo a que chamamos terra, o metal que chamamos sal,
numa forma para a qual não temos palavras, e vive-se disso.

 

 Philip Levine, The Simple Truth, Knopf, 1994

 

 

Originalmente publicados em http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/dois-poemas-de-philip-levine-1686353

 

Revolución

Es convocada la muerte
a florecer de bronce.

En el tendido ocho,
el sol abrasa cabezas
y fermenta el vino tinto
de las peores cosechas.

En el tendido doce,
huele a jamón tulipán,
luciérnagas de puros humean
el dinero del alquitrán.

En el tendido ocho,
esperan la muerte real,
la que se lleva a sus hijos
ahogados en el lodazal.

En el tendido doce
ya ha caído la noche.

podemos cantar um canção os dois

podemos cantar um canção os dois
a valsa da matilde do waits
a voz do vinagre onde o álcool se transforma em som

algures no nosso oeste
cactos e bagaço
o blue valentine na kentucky avenue

uma lágrima numa longa
noite sem fim
porque esperamos?
não sei
juro que não sei sentada na berma
já tenho doses de noites a
mais
de esquinas e portas
de adeus em adeus
elas não suportam a separação
não choram mais porque secaram
i never talk to strangers

o som da cidade
fica restabelecido e já não tenho horas
o relógio parou
e eu fiz um gesto obsceno
e desapareci