Enquanto

enquanto
procuramos
dinheiro
e trabalhamos
por comida
              é possível ouvir
              o impassível
              pulsar do útero

e de nós está tão próximo
que um arfar contínuo –
antes tão esquecido –
novamente traz à mente
a ideia sempre renovada
de um gestar.  

e o murmúrio
de uma árvore
que brota do chão
fica guardado no ar
esperando que nós,
criadores de línguas
aqui permaneçamos –
quando não, cheguemos! –
apenas para ouvi-lo. 

é o rumor renovado
que nos ideia a esperança
de sermos cegos
ao menos um dia –
que em vigília, em vida,
a vida em nós haja

*

–  mas assim passamos
enquanto
procuramos
dinheiro
e trabalhamos
por comida: 

um zunido sem estrondo
nos chama do dentro
pedindo inquietar-nos,
e nos põe em movimento
onde antes éramos somente: 

um dia sucede ao outro
e mais um e mais um,
e neste rupestre escrevinhar
de traços na parede
divagamos o lento gastar dos dias,
o nosso romper em vagas
contra as rochas do cais,
                           devagar. 

com a mão de margaridas
arrancamos, pétala a pétala,
a esperança de um vaticínio: 

bem-me-quer, mal-me-quer
débito ou crédito,
açúcar ou adoçante,
câncer, coração ou dormindo? 

e se quiseram de verdade que
realmente fôssemos felizes,
ao final ficaremos com as mãos cheias
dos magros galhos de margaridas:
e ali sim estará a predição:
e aí sim entenderemos.

de Memoria in Memoriã

o dia seguinte é apenas o estorvo circunscrito das mãos. ignoras a voz com que se escreve a palavra.
não sabes da sua transformação audível para que se reverta o processo orgânico e definitivo do regresso do meu corpo sob a água líquida da memória.

há, dentro de ti, a inconfundível verdade da minha memória.
a tua solidão dentro de mim. e ajoelhamo-nos, os dois, diante de nós para nos vermos nesse abraço longilíneo onde nos despedimos para existirmos sozinhos.

 

podemos escolher o fim e o sacrifício. certamente não sabemos o lado certo e o lado errado.
podemos gastar, inutilmente, as forças na espera, última, do corpo que estremece com a chegada da voz que traz violentamente a saudade da luz:
é o teu rosto tapado pela escuridão.

agora a memória traz o lugar inabitado da infância.
jogas um jogo de azar ou de perder no som esquecido do teu corpo. um espelho de vergonha ou fotografia de silêncio.

é o nome que designa o lugar: casa.
e apercebemo-nos do intervalo que separa o teu corpo da noite.

Conduto: Na cidade, o sustento das palavras

Já tive uns mocassins, acreditei enfim que deus me esperava. Um dia, calcei-os, um homem pegou-me de barbas na mão, e disse - vamos à cidade, vai-te fazer bem. Deixei-me ir, na esperança de que aquela barba fosse garantia de encontrar o que me estaria destinado. Ouvi, zeloso, recomendações de cautela - na cidade há génios, propriedades horizontais, palavras que, antes de o serem propriamente, são um símbolo representado como certeza, autoras de muitos presidentes, são tão-somente uma intenção antes de serem um destino.

Na cidade fiquei, conhecendo os estereótipos do very typical, e sobre o que nela é dito das palavras como sustento, faço-me breve, como o mais que é na cidade, referindo apenas, em jeito de aprendizado, que lá as palavras tendem a não existir para o seu autor, são uma espécie de tosse que se usa para a decoração indubitável do ambiente.

Os transeuntes sentem-se proprietários do seu vocabulário, e com este exibem, sem pudor, a sua nudez, como uma baba que pende gratuita dos lábios quando abertos. Insensíveis assim a tão generoso conduto, na cidade, as pessoas deixam de ouvir, de compreender a importância da sorte guardada em expressões, dir-se-ia improváveis, como “vou ali dar fé”.

Por vezes, vou beber um café, que é, a maior parte das ocasiões, uma tosta-mista. Não me corrijo, tal não me é apresentado como necessário, e é talvez esta, poderia sugerir-se, a riqueza recôndita que sobra do que é dito das palavras. Elas já sabem o seu segredo, mas teimam em não nos dar notícias da evolução da sua vida íntima, do que têm feito em congressos, em badanas.

Na cidade, não se usam verdades com maiúscula, é puído o algodão, a palavra dita pelos quase-quase-felizes. Na linha verde, as palavras garantem uma forma de comunicar perplexidades além de toda a causação corporal, satisfazendo os manelinhos, no seu gosto particular de beber galões por perto (uma condição, talvez, de metabolismo basal), e as boas-filhas que mordiscam, sempre nova, boa fruta, pêssegos, clementinas, e gostam das explicações das maiorias, de ir lá fora, de hotéis e de muito.

Na cidade lê-se, e na leitura, as palavras são um conduto posto em prática, uma sequência estabelecida de letras ingredientes, janelas de espreitar, de abrir tanto quanto os atilhos permitem. O corpo faz depois o que é costume fazer-se, numa caligrafia que anoitece a graça dos comuns em mais um regresso das vindimas.

Regista-se, porém, que a cidade comporta de facto génios no seu íntimo canavial, e como os documentários de palavra célere ensinam, era lá que deveríamos todos estar, praticando o absolutamente irrisório, fruindo a tertúlia cosmopolita e a elegância funcional do arvoredo de betão, não fosse a sintaxe servil que nos fixa as condições produtivas (é preciso mais, é preciso mais) em região de candura rural, rigorosamente ajustada à definição de um ambiente operário que articule as mãos sem jeito.

Na infância primária, as palavras são-nos ditas sabendo-se de onde vêm - tão longe tão longe, os rapazes as raparigas de maus humores em reuniões de condomínio - e quando um homem nos leva à cidade, sabemos o que disso dizer com critério. As palavras, no sarro do uso insistente, carecem de variação, de exercício, porquanto são um significado, matéria de ler, de ser, conduto valioso na descoberta do mundo, que diz aos homens que mingam ao balcão que deveriam ser sempre uma fome, o ainda-por-conhecer, o mais que o seu horizonte é dispensado de adivinhar.

Dos amigos, na cidade, há muito me fiz freguês. De cotovelo no balcão rio segundo partes deles, menino sem cuidado numa mesa corrida. Com eles acredito que é possível viver no montijo, que o homem de barbas que um dia me apresentou a cidade, deverá ter sido uma paixão entre-tantas, que interrogou um par de mocassins com olhos de tempo perdido.

No aprumo do seu regresso (aguardo-o em cada esquina), entre uma sopa e uma mancheia de grelos, outras palavras serão ditas, que elucidarão, espero, o espanto de me saber refugiado sob a minha própria pele.

INVERNO

Por aqui, em dias de inverno,
o frio é tão escasso que até se parece
uma destas mínimas canções de amor
que habitam o vento e desaparecem
quando ainda são transparência.

Após muito, ontem choveu.
Eu me preparava para a cama
e escutei o sussurro de passos
sobre o gramado do jardim.

Talvez, afinal, tenha sido mais
névoa do que garoa – a relva
amanheceu queimada de orvalho
e a tarde é de uma fria umidade
que se condensa no céu macio
de nuvens tão cinzas e baixas.

Os carros, regressando ao estacionamento,
lançam uma luz que atravessa a folhagem
das árvores compradas em lojas de departamento –
até então, pareciam-me palmeiras domesticadas
mas olhe, disse Ana, erguendo
uma pétala branca desfeita entre os seus dedos.

Reminiscências Circadianas

Lembras-te do rio no crepúsculo lento daquela cidade antiga, quando passo perto dele
Nunca sou o que conheces, também esse ficou algures entre as portas do elevador,
Que se fechou atrás de mim e encerrou até o para sempre de hoje, o teu cheiro misturado
Com aquele perfume, que tantas vezes encontrei depois, nunca exactamente o mesmo
Ao Sol, será que hoje me pagavas o jantar antes de me encerrares contigo numas águas
Furtadas com vista para o castelo, ou darias pelos anos no meu cabelo, o que me fez o tempo,
Naquele tempo lia Kierkegaard no comboio e passava horas a tentar equilibrar o humor
Na almofada, levava as fodas contadas e depois era tudo um risco que aceitavas também correr,
Tinha mais medo à falência hepática que hoje, apesar de ter mão para tudo, que me fez o tempo,
Tornei-me demasiado amigo dos sofás vazios e dos dias somados aos sonhos rasgados,
Hoje de certeza que não me pagarias um jantar, nem me deixarias adormecer exausto na tua cama,
Sem saberes dizer bem o meu nome, não me chuparias antes do látex, quase desajeitada,
Tu que rejeitaste o senhor arquitecto e deixaste entrar quem te levou uma garrafa de vinho
Do porto, barato, simples, uma cerveja também, em copo de plástico enchendo-se
De pôr-do-sol, tudo fica a brilhar quando se apaga nos olhos, longe, o que me fez o tempo até aqui,
Não sabias que te escrevia, hoje sabes e continuas a não poder ler-me, é pena,
Tantos que me preferem as entrelinhas e os espaços em branco, o tempo que me gastou
E me afastou dos comboios e das cidades antigas, redescobertas na carne exótica,
Será que pensas em mim de vez em quando, e se tivesse ido pelas escadas, teria passado
O tempo como passou, hoje os meus olhos são cansaço, desilusão e uma fome de quem
Comeu sempre demasiado e ficou sem dentes num mundo cada vez mais farto de confusão.

Turku 24/08/2014