CONDOMÍNIOS FECHADOS

Os condomínios fechados erradicam
as tabacarias diante das janelas
e os horizontes de becos à beira-mar.
Os prédios repetem-se, as sombras
parecem-se: são todas de homens.
Os gestos imitam-se e não há
mistério no mofo que se alastra
pelas paredes – provavelmente
foi um cano que se rompeu
e o zelador está sempre pronto.
O tempo não sangra. O instante
não alcança a crise: cristaliza-se,
multiplica a luz, os dias –
sou o de ontem, desde sempre.
Diante de qual parede esperar
a porta que não irá se abrir?
Se ao menos isso fosse claro.
Onde a criança que come chocolates?
Estão todos mortos, alheios, opacos.
São todos o universo a cair
sobre mim com um terror de fábula
infantil: leio sobre nebulosas,
sobre o brilho infindo dos quasares
e que jamais existiu um tempo
antes do tempo e então olho para o corpo
que ao lado dorme e penso
é mentira que exista amplidão maior
do que a do dia poeirento.
A noite continua. Queria
o meu coração fora de mim
apenas para dizer: é o luar,
é o rio em que os homens
lançam os seus excrementos
e os seus mortos mais queridos.
Mas não, o meu coração é ainda
menos do que um pássaro enjaulado;
é uma névoa apenas visível
em noites de puro espanto.
Abro a janela. Procuro o Esteves
para dizer Adeus, mas não, tudo
o que há diante da janela é o gato
vadio que dorme junto aos cactos.

 

Poesia

Comemorou-se há pouco o dia da poesia. Sabemos bem que dedicar um dia a isto e outro àquilo é uma convenção muitas vezes próxima do patético, mas fica a substância, que neste caso é a própria poesia, que diariamente, por necessidade vital, é homenageada aqui na Enfermaria.

Ontem encontrei, em puro e santo acaso, um haiku que servirá para abraçar espiritualmente, mas talvez atabalhoadamente, os bons poetas que generosamente aqui colocam os seus poemas, também para meu deleite. 

Antes de relançar o achado no mundo, confesso-me um admirador sem reservas da forma haiku, que a partir do qualquer coisa ou fenómeno, por mais insignificante que seja, numa enorme economia discursiva, permite entrar num campo mais abrangente, no "todo" ou no "nada", no limite a mesma coisa. Um haiku age como uma espécie de gota de chuva que cai sobre um ramo, provocando um frisson inicial que é rapidamente superado. Em boa verdade, um haiku não transforma nada, mas aumenta a sensação de se estar no mundo profundamente ancorado na vida. E não será esta a finalidade de toda a poesia?

"Tenho um fio de vida

Parece partir-se a cada instante

Mas persiste"

Técnica P-40

1. Quisiera escribirle un poema a Von Hagens como hizo Anne Carson a Audubon. Ambos perfeccionaron un nuevo método que declararon como suyo: Llevar el cuerpo a la observación de cualquier persona. Animal abatido y sin sangre, bañándolo una y otra vez en agua, defectos y heridas dejan de tener olor.

¿Sigue siendo animal esta cavidad vacía? Coloco trapos en el lugar del corazón y los pulmones.

Pero ambos se equivocaban en lo mismo:

donde no hay nada que ver,

hay algo que tocar.

2. Yo nunca quise este animal en la garganta. ¿Acaso esta atrocidad es el centro de todo? Tumbada sobre el acero soy yo ahora el objeto de estudio. ¿Es el animal menos hábil por dejarse morir?, ¿por dejarse tocar? Pero toda la carne que palpan es pared. Bata blanca y manos frías apretando mi frente sentencian: estado orgásmico de los clásicos=entrega pasiva de la parte lesionada.

 ¿Serán estos síntomas cicatrices o manchas de nacimiento? Pero él grita que un síntoma siempre indica un hecho patológico. Siguen palpando pared. Pero soy defecto y herida, y como el poeta, sigo tocando y amando todo aquello que se prepara para morir.

tarde chuvosa sombria com

tarde chuvosa sombria com
Las Vegas como destino de sonho
ideal, de pelúcia e flamingos
ouvindo pink martinis e vendo cowboys de neon
fumando lucky strikes deleitando-se com o striptease
de showgirls manhosas Barbies à procura do seu ELVIS

por entre as nuvens de fumo
de hotéis de luxo decadente
com lustres estilhaçados onde todos
os princípios barrocos são cortados
ou terminados no tapete ou na cama

dormir ou não dormir

eis a velha e eterna questão
que termina num cabide com ou sem roupa
de perfil por cima de igrejas coloridas
com casamentos ou farsas de tule
cultos mediáticos católicos ou talvez não
Serão eles marítimos?
embarcações drifting up no meio de um mar de cimento

marés vivas com pin ups de vermelho
e canastrões embrutecidos

por que me escreves?
Quem és?
Será que importa? Talvez!

sim ou não?
mas como a curiosidade e os gatos são eternos
amigos amantes e ou rivais
eu estou morta ou talvez não
por saber as respostas ou perguntas!
O puro prazer da escrita e leitura suplanta por vezes o seu objectivo
velha questão literária
a forma ou o conteúdo
batalha campal entre formalistas
russos
ou talvez não.

De Memória em Memoriã

meu velho

o poder com que movia os olhos, já doentes, diante da angústia que o medo da ausência lhe trazia.

um corpo moribundo. não havia um sol que lhe cobrisse as sombras. seguia sozinho ou já sem ninguém. não sabia os lugares. não conhecia os regressos. perdia as palavras ao longo dos dias. e desaparecia na imprecisão de quem procura ainda um verão, algo de puro, longe das vozes. longe do silêncio. 

a tristeza inútil das flores. o abandono com que me atiraste contra silêncios.

agora somos inúteis. e não há palavras que nos matem a fome. e temos de ficar de olhar intenso a rezar para não sofrer.

e se ao menos a morte te aliviasse a dor. 

tudo acabou na lastimável carência de palavras. inválido dos olhos resta o que ficou: a lembrança de beleza.

encosto as mãos ao teu silêncio e debaixo do mundo olhamo-nos até que a morte nos derrube a solidão.