Pleiteantes

            Ao deixar o escritório, mete-se então por outra hipótese, suponhamos, após uma entrevista de emprego, posto que após uma entrevista de emprego há ainda que atravessar para a cidade,

            firmar a vista, os nervos, compreender, compreender com mais força, outra a coisa que nos pede agora, é outra a sua exigência,

            a cidade pede ser refraseada, o mundo, o mundo quando desce, chocalhando palavras, não novas, raramente arrancadas aos glossários,  

            raramente postas em circuito com o verão, raramente ASCENSORISTA adverte

            que não podemos entrar com o copinho de café que nos deram à saída, abre-se outro tempo no corredor, os pleiteantes dão-se pressa,

            lábios queimados na cortesia, baralham-se em torno da lixeira, se

            se mirassem, certamente o fariam com ódio, arreganhadamente, cada qual retendo em si o tempo do outro, barragem com o tempo do outro, cada qual  

            uma dobra, um refolho, uma quebratura, capacho estendido sobre a chave de casa, as portas deslizam com silêncio, sem mostra de dentes, as paredes

             do elevador, o elevador quando desce, são de madeira, são todos,

             o revestimento lembrava madeira, despachavam-nos na portaria, palco de uma reforma que já parecia estender-se há meses, que talvez não acabasse nunca, que se arremessava para fora do edifício, a bem-dizer, uma ruína despercebida,

            pisava-se o chão esburacado e as mentes abriam minas até o tapume, mais além o tapume, enjoativo tapume salmão que cerca a portaria e que é preciso

            atravessar todos os dias para dar à cidade, às calçadas, às ruas esburacadas à espera dos novos trens, cuidando sempre para não acertar a cabeça na borda superior, todos os dias, agora, todos os dias,

            a roleta cede à pressão dos quadris e os quadris com palavras, não novas, raramente CALHA, ENTALHADURA, REBITE –,

            dentro de um dos pleiteantes aparecerá a palavra rebite, aparecendo depois da palavra nervos, quiçá cedo demais

            para aparecer a palavra nervos, adiantada a uns quantos pungentes esbarrões, coincidências, simetrias imprevistas, mas isto não tem importância, apareceu a palavra nervos, consequente perguntarmos-lhe então,

            os nervos estão rebitados?

             endurecidos, endurecidos já contra qualquer coisa? ou estarão antes em frangalhos, os nervos, a engrenagem toda dos nervos? a fricção, o atrito, o contato imparável, como trabalharam nos nervos? fortaleceram ou esfolaram os nervos? estarão capazes,

            em frangalhos, subindo para a pele? retesando-se cada vez mais de encontro a pele, um pouco cedo, um pouco mais a cada dia, mês, a cada volta da estação, há anos prestes a estalar custando a estalar não estalando

            nunca

             perguntamos-lhe então, que profundidade, que súbita ampliação do campo acredita que ocorreria se os nervos de fato estalassem, se se pusesse a gritar como um fulminado, um recém-converso, dentro de uma sala de cinema quase vazia, não tendo voltado do almoço, nunca, metendo-se por uma sessão das duas,    

             nestas circunstâncias,

             perguntamos-lhe então que comoção cretina é esta ao depararmos, meados de abril, qualquer coisa

             dura como uma tábua debaixo do braço, guarda-chuvas virados do avesso espetando as gengivas das lixeiras do centro, o corpo avessado, não resistindo, não tendo resistido,

            não tendo voltado do almoço, nunca, sumindo pelos areais cinzentos dos centros culturais, na calçada esburacada, atravessada sobre um bueiro,  

            diante da vitrine de uma velha joalheria, juntam-se dentes, boca, desgrenha-se o tecido, varetas saltadas para trás, para fora, o vento

            rasgando inumeravelmente a pele do pleiteante, aparecerá então a palavra silhueta,  

            será enxotada,  

            voltará,

            contra o retângulo branco, a silhueta, a silhueta ao deixar o escritório, pedimo-la, nestas circunstâncias,

            ainda que fossem outras –, quais? –, por exemplo, quando se deixa um laboratório,

            um laboratório médico ou um laboratório fotográfico?,

            envelope branco debaixo do braço, reto, branco, duro, duro como uma tábua, invergável como a ideia que fazem alguns do destino,

            abril, quando 

            deixa-se março e o clarão das drogarias parece ainda mais espesso, povoado de gente pia, sacrificada, causal, amontoam-se então nos olhos do pleiteante, 

            ou do paciente, ou do pleiteante, picam-lhe os olhos, um charco branco, ou começa nas pálpebras um charco branco, um charco pelo qual deveriam caminhar somente 

            santos, duplas exposições, pensa-se, neste ofuscamento

            de supermercados, papelarias, agências de viagem, estações de metrô, não, não se salvaram nem as bancas de jornal, os cheiros são contíguos e todos os interiores iluminados como hospitais

            e a este pleiteante em particular parecerá justo que todos os interiores hoje em dia prefigurem de algum modo hospitais, afinal, é para lá que rumamos todos,  

            é para lá que atravessamos, todos os dias, agora, todos os dias, e

            chegaremos antes dos novos trens,

            se

            se mirassem, se pudessem, certamente o fariam com ódio, arreganhadamente, cada qual retendo em si o tempo do outro, de certeza se estariam esburacando,

             revirando os corpos sobre o poeirento carpete do corredor, não encontrando uma chave, ele sabe,

            a cidade continuará cadeada, abrindo buracos sob nossos pés,

            um dia conseguirá abri-los também para cima, nem por isso comprometerá a fidalga identidade dos dias, dossiês inteiros ainda serão deitados ao lixo para desocupar as estantes,

            serão sacudidos de seu domingo e deitados ao cesto forrado de plástico azul sem maiores explicações, a recepcionista sorri, chama-se

            vitiligo, visitas a zoológicos, planetários, museus aos fins de semana, 

            acreditando exaurir os domingos e exaurindo somente a si próprio, ele continuará, para os interiores forrados de branco, para onde rumamos todos,

             esquecendo, primeiro de maneira dirigida, responsável, depois sem nenhuma intencionalidade identificável, nada de imediato, nem para si nem para os outros, tão só esquecendo e com insistência cada vez maior

            aparecem chaves sobre os pisos dos elevadores, comissuras dos elevadores, retos envelopes brancos sobre os assentos dos ônibus e táxis e guarda-chuvas  

            sob mesas de restaurantes a quilo, virados ou não do avesso, pastas verdes sobre as bancadas dos cartórios, abarrotadas de documentos, esgarçadas

            edições de bolso sobre pias de banheiros públicos, perguntamos-lhes então, não esqueceram alguma coisa?

            que querem afinal? que ficção os trouxe até aqui? o que não devorou ainda o que ela deixou intacta

            o que é que há dentro que exista ainda qualquer coisa dentro

            de um dos pleiteantes, dentro mais adiante, aparecerá um rapaz bem moço trajando avental do greenpeace e ele

            (voltará, como a silhueta)

            contorna, batendo o indicador da mão direita sobre o mostrador de um relógio ausente, não imaginado ou imaginário, 

            ausente, o rapaz,

            tão delicado, um biscuí, emboscava próximo ao local onde ruíra, há obra de alguns meses, o teatro municipal,

            estas coisas se comunicavam de algum modo e por se comunicarem metiam-lhe medo,  

            medo do diálogo que se travava ali adiante, de adentrar o espaço do diálogo, de ser apanhado pelo diálogo, de que lhe apanhasse o chapéu e o pisoteasse ali mesmo, no que restava da calçada, de remoinhar com o diálogo para baixo, para os trens,

            de que estas forças que se batiam surdamente logo adiante – rapaz com avental do greenpeace, as ruínas do teatro municipal –, subitamente se voltassem contra ele e o esmagassem, ele  

            que estuga o passo, que indica um relógio ausente, ausente tanto do pulso quanto da praça, que breve não fará mais circunstâncias, que com uma semicircunferência

            engolia há pouco um guarda-chuva como se fora um espadim e

            sorri aos passantes com o devido acanhamento, tem-se

             igualmente a impressão de que os subterrâneos aprofundaram-se, de que deu-se, por alguns instantes, livre curso às galerias e elas se puseram então a cavar,

             a cavar, eventualmente tocaram a parte secreta, diante do que recuaram, enojadas, recuaram um pouco, o mundo,  

            o mundo quando desce

Estrela pura

O poeta, romancista, escritor e pensador António Carlos António é um homem ocupadíssimo. Desde o ano passado que ficara de me conceder uma entrevista. António Carlos António é a pérola que mais cintila dentro de uma gaveta de pérolas que ainda não chegaram a ver a luz do dia. O seu momento chegará. Acredito eu, acredita quem o lê, quem o ouve, quem o vê. António Carlos é bonito, é inteligente, ginga sem tocar no solo com a sola dos sapatos. Com alguma agressividade, pede-me para que publique a entrevista sem revisões. Deseja a coisa em bruto, como tudo que faz. Com brutalidade. 

O que anda a escrever?
 

Um ensaio sobre um romance da minha autoria ainda não publicado. Trata-se, talvez,  do ensaio que melhor analisa a minha obra ficcional. É algo muito abrangente. Quem quiser perceber minha ficção, necessitará certamente de ler este trabalho mental nunca vertido para o papel. Agora perguntar-me-ia como se pode ler algo não escrito. Ouvindo-me.

Quando teremos acesso aos seus escritos? Não sei se tem noção de que ainda não publicou nada.
 

(Sorrisos) Eu não procuro editoras. As editoras que me procurem. Os meus manuscritos estão disponíveis, quando tiver paciência transponho-os para o papel. Basta virem ter comigo. Apanhem o metro para o Intendente, perguntem pelo António Carlos António, ou então pelo “Bonito”, e não haverá quem não saiba dizer onde moro. (Cofia a barbicha) Modestamente, muito modestamente, tenho vindo a construir uma fama que transcende o Intendente. Sou o escritor mais famoso de Lisboa. E nunca publiquei nada. Quem se pode gabar disso? Até lhe posso dizer que preferiria nunca publicar em papel e andar de casa em casa a declamar a minha obra. 

Gostaria de ser um Pynchon ou um Salinger, alguém que não aparece?
 

Sou o António Carlos António, não me confundam com outros. Não conheço esses autores. São bons? Sabe, sou puro em tudo o que faço. Não leio outros autores para que a minha escrita não sofra distorções. Quero escrever sem influências. Posso aparecer. Gostaria de aparecer. No entanto, reflectindo sobre o assunto, tenho alguma dificuldade com algumas questões. O que é aparecer? Ser influenciado. Ser um animal social. Rejeito. Não uso telemóveis para que a tecnologia não me influencie. Não escrevo no computador com receio da influência. Não quero ser influenciado. Sabe como escrevo? Com o cérebro. Nem o papel merece o esforço da minha mão. 

Diz-se puro. Não lê enquanto escreve “mentalmente”? 
 

Eu inverteria a questão. Pode um autor ler enquanto escreve? Se eu lesse esse tal Pynchon enquanto escrevo, escreveria como Pynchon. Não posso dar-me a esse luxo. Estaria a contribuir para a alienação de que o mundo padece.

Alienação no sentido de Marcuse?
 

No sentido de António Carlos António. Posso gabar-me de nunca ter lido um livro. Não preciso de ler para escrever. Possuo pensamento próprio. Como poderia ler se estou sempre a escrever? Não se pode ser duas coisas ao mesmo tempo. Escolhi a escrita, é da escrita que me alimento. O meu cérebro está cheio de António Carlos António. 

Consulta dicionários?
 

Claro que não. As palavras chegam-me quando devem chegar. O que não aparece é porque não estava destinado a aparecer. 

Qual o tema do seu romance?
 

O meu ensaio é sobre isso. O romance é sobre mim próprio. Sobre o facto de eu ser alguém que não precisou de ter mãe, nem pai, que não passou por licenciaturas, que não leu. Fiz-me a mim mesmo e continuo a ser eu, imune a tudo o que me rodeia. 

Tem preocupações sociais?
 

Podemos dizer que sim. Escrevo para combater essa corja de analfabetos que para aí anda, saltando de bar em bar, gabando-se da sua própria genialidade. Sou o representante do povo. O povo nas letras. Vomito quando penso nessa praga de escribas que se arrasta pelas ruas de Lisboa. Maltrapilhos que enchem o Intendente, os Anjos, o Bairro Alto. Essa malta mete-me nojo. Com o seu estilinho provinciano. Aldeões mascarados de citadinos. Com as roupinhas rasgadas e as malhas e sei lá o quê. Um ror de pulhas. 

A inveja é uma preocupação social?

Inveja? Eu. Ai que desmaio. Desfaleço. Vejo escuro. Ceguei. (De apalpadela em apalpadela chega-me ao peito) Onde estou? Inveja? Ai que me feriram. Pior do que Lear. (Conhece Shakespeare apesar de afirmar nunca ter lido nada) Mulher desalmada.

Preocupa-se com alguma questão importante?

Preocupo-me com a morte, com a minha morte, não quero morrer. Depois de mim, que tipo de artista haverá? Esta ralé? (Apruma a gola da camisa) Vamos esclarecer uma coisa. Não sinto inveja. Sou um altruísta. Sou mundo. Os meus braços são divinos, podem ser repartidos pelos pobres. O meu corpo é como um livro infinito, passível de múltiplas leituras e interpretações. O meu corpo nu repartido pelos pobres, como pão e vinho. O tema da minha obra resume-se a eu ser mais do que o planeta. Não posso ler nada para além daquilo que é meu, daquilo que penso, pois nada é maior do que eu. Eu sou o planeta. Os pobres que venham a mim e se alimentem dos meus pensamentos. (Emociona-se, a voz treme-lhe) Fossem todos como eu e não haveria fome.

Qual a sua opinião sobre Herberto Helder?

Não sei quem é e, sublinhe-se, prefiro não saber.

E Oliveira?

O meu tio ardina. Um homem assaz respeitável. Casou-se com uma brasileira e fez fortuna lá para o Minho. Foi pioneiro no ofício do proxenetismo lá para aquelas bandas.

A entrevistadora fecha, amargurada, o caderno. Ainda não apanhou escritor que não lhe enchesse as medidas. Todos touros bravios, todos homens vigorosos. Este portento entristece-a. O sexo entristece-a. Será isso a alienação? O momento depois do prazer. A morte de Bataille?

 

Sinéad Morrissey, Farol

Tradução de José Manuel Teixeira da Silva

O meu filho ainda está desperto às dez, estirado 
no seu beliche, junto ao tecto, iluminado e vigilante. 
Fins de Agosto. Já o profundo 
céu diurno deste solstício a norte se obscurece 
cada vez mais cedo, numa coroa de nuvens; 
a luz da sua Estrela de David e a lua de plástico 
empurram, lá fora, o crepúsculo para a noite.  

Ao longo do Lough, onde os ferries se aventuram tranquilos 
e certo dia um paquete, vasto como palácio, 
foi avançando, no seu corpo brilhante, para o mar aberto- 
um farol inicia o longo discurso nocturno 
feito de sinais entrecortados; cintila e lança 
a esfera dos seus raios, detém-se e apanha-os 
e de novo os arremessa para lá da sua paralaxe. 

Ele conta cada um dos laços macios que lhe invadem a cabeça, 
todos os intervalos de treva, e imagina que sejam só para si- 
o aceno desse mundo em que se não pode penetrar: 
os dois em parte obscuros, em parte visíveis, 
protegidos numa espécie de conversa de rapazes 
que mais ninguém consegue ouvir. Nesse lugar privado, responde o farol, 
de pássaros e janelas devassadas- sim, eu já lá estive. 


Sinéad Morrissey  (Irlanda, 1972), Parallax, Carcanet, Manchester, 2013 

Read More

Caderno 3: Autores

André Domingues | Bruno Sousa Villar | Catarina Santiago Costa | César Rina | Daniel Francoy | Dirceu Villa | Ernesto von Artixzffski | Filipe Teles | Frederico Pedreira | Gonçalo Mira | Ismar Tirelli Neto | João Bosco da Silva | Júlia de Carvalho Hansen | Luís Quintais | Maria Sousa | Makki Ahtisaari | Marco Mackaaij | Miguel Cardoso | Nuno Brito | Otávio Campos | Patrícia Lino | Pedro Braga Falcão | Pedro Mexia | Raquel Nobre Guerra | Ricardo Domeneck | Rui Almeida | Susana Araújo | Vasco Macedo | Victor Heringer | João Moita | Manuel A. Domingos | Helena Bento & Rui Pedro Gonçalves | Cassandra Jordão & Hugo Milhanas Machado