Acabado de sair

A Fyodor Books acaba de publicar o seu primeiro livro. Deixamos aqui alguns aforismos:

As prostitutas da rua comportam-se tão mal que é possível tirar daí ilações quanto à maneira como os cidadãos respeitáveis se comportam em casa.

"Mas como é que o senhor pode simpatizar assim com os Ingleses? Nem sequer sabe inglês!" "Pois não, mas sei alemão!"

"Há pessoas cujo cumprimento eu devolvo, mas é só mesmo para lhes devolver o cumprimento."

Karl Kraus

O Apocalipse Estável

Fyodor Books

Tradução de António Sousa Ribeiro

2015

P. S: De momento, o livro encontra-se apenas à venda na Fyodor Books. 

Uma menina de escola

Um sujeito disfarçado de turista, mediocremente disfarçado, inábil para ocultar os dedos de drogado ou uma tatuagem no pescoço em que sobressaíam as palavras “beija-me no gargalo”,  aproveitava qualquer coice do eléctrico para enfiar a manápula nos bolsos recheados de estrangeiros risonhos. Não acreditando em Deus e sendo avesso à piedade e à prática das chamadas boas acções, recuso-me a ajudar velhinhas na passadeira ou a atirar moedas para o balde do ceguinho. O mundo, pântano mal frequentado, caminha para um fim merecido, e o meu desejo é contribuir o mais possível para acelerar esse fim. Não me apanham a salvar alguém de um atropelamento. O meu conselho, se mo pedirem, como é óbvio, que não serei eu a servir de muleta a gente que não vale trinta minutos da minha existência, é o seguinte: matem-se antes que a doença ou outros como vocês vos matem. Tanto me faz que um vagabundo ganhe a vida a roubar ou que arranque as tripas a um comerciante por causa de uma moeda. Mas enraiveço-me se me puxarem a carteira enquanto leio Tolstói, como fez o imprevidente meliante do pescoço tatuado com pedidos de felácio. Devido a uma conjugação de factores, dos quais se podem destacar o escasso número de horas passado na cama, o excesso de trabalho burocrático, a concentração exigida por certas leituras e a falta de cafeína no sistema, arrebanhei o carteirista pelo cabelo, tendo-lhe acertado na testa umas quantas vezes com o joelho. Isto é para que não voltes a meter o dedo naquilo que não é teu, ensinei-lhe, armado em moralista. Agora identifica-te, sentenciei depois, como se fosse um agente da autoridade. Identifique-se. O carteirista, atarantado, esgadanhava o chão à procura de uma porta de saída que o salvasse de um previsível espancamento. Foi a última vez que roubei, jurava, tentando trepar para o colo de uma gorda holandesa untada de protector solar, protector esse que já não ia a tempo de evitar uma tostadura vermelha. A última vez, gargalhei, assumindo o papel de guarda, mostra-me a tua identificação antes que te esfrangalhe uma barra de aço nas costas. Arrastei o indivíduo pela orelha ao longo de várias dezenas de metros, e depois de arranjar um cordel passeei-o como se de um cão se tratasse. Esta terra não existe. Matar um carteirista, ler um dicionário de A a Z, comer areia, ninguém quer saber, fazemos o que nos aprouver, embora alguns insistam que não, fomos abandonados, cuspidos. Esta terra não presta. Esta terra aproxima-se do seu desaparecimento. Enterro-me na banheira, folheando o meu Tolstói e chupando um valente cigarro. O meu planeta é de lodo.

Três Poemas de "Amanhã Alguém Morre no Samba"

outros experimentos falharam
chorar e seguir com a língua o caminho da lágrima
ralar o cotovelo e seguir com a língua o caminho da gota de sangue
ejacular e seguir com a língua
seguir o fio de sol
feito os trevos do antigamente no jardim
aqui
desde tanto
uma rua vazia e japonesa
minha cabeça é pior que o diabo
pior que o diabo que enfio entre as tábuas
as tábuas
desde que tanto cheguei aqui
é o diabo
melhor que seja
digo
a cor que isso vai tomando
sei que estou viva porque me vejo nos olhos do diabo
sei que respiro
porque o tenho tomando meu hálito
sei nada dos meus medos
porque sua cabeça linda, vermelha, tríplice
guarda noturno sonâmbulo diário crepuscular
ninguém meu amorninguém como nós conhece o sol*
meu diabo
às barbas do meu diabo
suas orelhas amplas
suas marcas nas minhas paredes
nasci para ser umidade cor de concupiscência
pensei
me visto de alçapão e choro
mas estou pelada

mas estou calva
estou feia e fútil
basta
basta quando que sou o alçapão
sou possuída e inquilina
céus
eu sou o alçapão
espia:
o diabo é minha carne pênsil.

* Sebastião Alba

*** 

significar o osso da coisa queridinha
os enfeites da casa gritam comigo
ombreiras esquadrias agulhas gatinhos da china
decoram as margens do meu amor
o osso
me afundo na tua reminiscência
o osso e as antenas
gritam
como se tudo fosse o grande do tempo
as esquadrias dos óculos gatinhos da china
omoplatas de prata queridinha
o bafo da trilha
a carne da coisa
tão necessária insignificante
na estrutura superfície da aberração amor

***

queria sondar o excêntrico intocável através do sangue da fulaninha
queria procriar e queria trucidar com a pressa do passo
lembra?
andávamos
sem a nós nos encontrar
ai meu amor que não chega
ai a melancolia no fundo do prato, anjo  

aquieta essa boca
amanhã alguém morre no samba


Amanhã Alguém Morre no Samba de Carla Diacov, editado pela Douda Correria, foi apresentado ontem e inclui os três poemas que aqui se reproduzem. Aqui fica a recomendação do livro. Pedidos por aqui. 

Duas epifanias

Vivemos tempos de desamparo, situações, coisas e pessoas que há pouco tempo pareciam anódinas ou mesmo simpáticas, são hoje motivo de irracional desconfiança ou irreprimível desdém. Uma versão dos “tempos sombrios” de Hannah Arendt misturada com o spleen niilista oitocentista, sem qualquer redenção estética, metafísica ou política.

Mas, seguindo o velho adágio hoderliniano “onde está o perigo cresce também o que salva”, as pérolas que encontramos na lama são quase sempre as mais belas, pelo realce do contraste e a inversão extraordinária das expectativas. E hoje encontrei duas clareiras, sem me desviar dos caminhos habituais, recompensa para uma insistência rotineira (que divino consegue premiar a convergência?). “Aceita tudo”, dizem-me baixinho os deserdados da alegria e da esperança (fazem legião). “Claro que sim”, respondo, não me faço rogado. Agarro tudo com duas mãos, dois braços, o corpo todo, nunca devemos ser mal-agradecidos. Por isso me considero, à força de estoicismo, um realista feliz.

Mas vejamos o que me trouxe o dia.

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