Rotina Matinal

Imito a estrela de rock de Nova Iorque:
cópia a preto e branco,
a5, 300g, grão fino
colada no canto do espelho.

Visto a camisa branca,
aquela que nunca me serviu
larga nos ombros estreitos e o bolso vazio
sobre o coração pesado

ou inverto a ordem secreta das palavras

e visto as calças pretas
cheias de dobras
como a face
do dramaturgo irlandês

ou inverto a ordem secreta das rotinas

e calço os sapatos em primeiro lugar
tal como eles fazem na peça
antes de agarrem a corda
que irá enfeitar o fino pescoço

ou inverto a ordem secreta das ações

e não espero, espero, espero
nem ato a corda:
não há árvore alguma por perto
onde pendurar este baloiço
 

João Moita, "Fome"

João Moita
Fome
poesia

Enfermaria 6, Lisboa,
junho de 2015, 74 pp.
Capa de João Alves Ferreira

8€

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João Moita. Nasceu em Alpiarça em 1984. Publicou O vento soprado como sangue (Cosmorama, 2009), Miasmas (Cosmorama, 2010) e Fome (Enfermaria 6, 2015). Traduziu uma antologia de Antonio Gamoneda, Oração Fria (Assírio & Alvim, 2013).

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