Like someone in love

I

Seguimos primeiro de Lisboa a Londres, duas horas e meia de viagem aproximadamente. Nunca consigo sentir-me confortável num avião. Há sempre uma sensação de queda inevitável, por isso controlo a minha respiração e evito movimentos bruscos. Heathrow é um labirinto cujo tamanho nunca irei conseguir compreender, colorida apenas pelos famosos sinais que indicam o metro.

A estação de autocarros logo ao lado é composta por uma sala central onde pessoas de todas as cores circulam ou estão sentadas. Uns aproveitam para ler antes de partir, outros comem as habituais sandes, sempre mirando o grande relógio que anuncia as horas e que controla as chegadas e as partidas.

Quando entro no autocarro relembro que a condução é feita do outro lado, coisa que calculo nunca conseguir fazer. O espaço entre bancos é mais do que suficiente, mesmo para quem tem as pernas grandes e os assentos são especialmente confortáveis. Consigo dormir durante alguns minutos apenas para acordar num veículo que, dada a minha desorientação, parece conduzir-se a si mesmo. Levo algum tempo a perceber que o condutor está do outro lado.  

Chegámos a Swansea quatro horas depois, deixando umas quantas cidades pelo caminho. Embora viesse acordado durante a maior parte da viagem, lembro-me apenas de Bristol, dada a sua importância e da entrada no País de Gales, Cardiff e, finalmente, da chegada ao nosso destino. A cidade, com cerca de 450 mil habitantes, fica junto ao mar. As gaivotas sobrevoam os edifícios cor de tijolo e um céu cinzento. Todos os dias de manhã impedem-me de continuar a dormir. Às vezes chegam a pousar no telhado da residência onde fica o meu quarto.

Sempre que chove as ruas inclinadas tornam-se ainda mais difíceis de subir e, a meio caminho, o sol pode aparecer sem avisar. Hoje, por exemplo, o sol decidiu mostrar-se pelo menos até as nuvens combinarem uma conspiração silenciosa que influenciará a cor da cidade.

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Niilismo 2/c.10 Refugiados e experimentação existencial

A actual massificação de migrações (na maioria, humanos à procura de refúgio), tenha as causas que tiver, alimenta-se de um enorme sofrimento (marcado em cada singularidade, em cada “rosto”, diria Levinas), que a maioria dos ocidentais desconhece. Isto bastaria para nos sentirmos imediatamente obrigados a receber quem nos procura. Referem-se, todavia, ameaças ao nosso estilo de vida. Claro que sim! Como dizia Jacques Derrida, a verdadeira hospitalidade é aquela que se abre também ao perigo, àquilo que é hostil; devemos, pois, combater o nosso conservadorismo, cultural e biológico (o cérebro não está preparado para todas as propostas morais racionalizadas). Temos de nos forçar a correr riscos se queremos ser moralmente consequentes com o humanismo, cristão ou secular, que convocamos frequentemente como marca da nossa identidade, e da nossa superioridade moral. Pelo contrário, não me inquieta o argumento utilitarista do declínio demográfico europeu: a biomassa humana tem de diminuir para haver uma certa sustentabilidade ambiental, não é, portanto, por uma questão de reposição de rácios demográficos “economicamente sustentáveis” que defendo o acolhimento dos migrantes.

Compreendo a angústia dos que vêem erodir-se o Estado Social pela inversão da pirâmide demográfica, mas, para mim, o niilismo social está antes na sócio-unicidade, uma formatação tendencialmente homogénea que sucedeu à falência das velhas polarizações ligadas ao racismo social (extremado na luta de classes, sobretudo por motivos económicos, e na separação higiénica entre alta e baixa cultura). Isto não significa que a pobreza tenha desaparecido, muitos estudos mostram que ela persiste em cerca de 20% da população portuguesa (uma enormidade; é, aliás, decisivo pensar alternativas governativas onde a pobreza de alguns não seja a contrapartida sistemática da abundância de outros). Também é visível a não miscigenação das culturas, basta ir aos Dias da Música no CCB ou a uma ópera no São Carlos (e, inversamente, às festas populares de aldeias e bairros, embora frequentadas por alguns etnólogos amadores à procura de comportamentos primitivos – receio que saiam desiludidos). Apesar dos muros, sociais, culturais, económicos, psicológicos, emocionais, linguísticos... há um simulacro de unidade que produz a amálgama culturalista que parece formar o horizonte da portugalidade. 

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fragmentos sobre o tempo

 1 

 São mesmo as coisas que envelhecem
ou é o nosso olhar que envelhece as coisas? 
A nossa insistência em procurar o tempo
ou em perdê-lo?  

2

Quem procura o tempo pode vir a encontrá-lo, 
mas antes encontrará a confusão.  

Já quem perde o tempo talvez nunca mais o encontre. 

Mas quem precisa do tempo
enquanto se diverte
com a confusão?  

3

Não se pode abraçar o tempo
como se abraça uma árvore, 
mas como se abraça um poema.  

4

Um poema é o que acontece
enquanto o tempo esquece
de existir.  

Por isso
     enquanto o tempo se distrai
                 poemas não envelhecem.