Foste agosto

para Rui Pires Cabral,

 

Foste Agosto, passei os teus Novembros debaixo de uma figueira, não longe da tua aldeia,
Visitei as cidades onde nunca estive, e aquelas em que tu não estiveste, revisitei as outras,
Somos estrangeiros para esta gente, só os canteiros nos vêem além da camada
Do pó estrangeiro, durante o agonizar lento da canícula a tua morada foi refúgio,
Por entre a incessante pestilência dos programas da tarde, foste o reencontro
Com  as fotografias onde reconheço sempre alguém nos teus, foste os morangos
Que não consegui comer naquela manhã de Domingo já depois da procissão da tarde
Na ressaca da romaria, nas tuas páginas reli as cartas que depois de outros verões
Trocava com quem não ficava na vila, cresci de partidas, agora sou eu quem nunca permanece,
Fizeste-me procurar no espelho algo além das marcas que me afastam dos verões
Em que dava tempo ao cabelo de ficar mais claro, ninguém sentiu o cheiro,
Mas deitado na rede, fumei contigo um charro e não senti medo, o coração
Manteve-se ao ritmo do balançar lento, separam-nos umas décadas,
Mas como faziam com a arte sacra, visto os teus poemas com a minha época perdida,
Também já não digo que tenho a vida inteira pela frente, só o horizonte que me viu passar,
A figueira, a tua morada e mais uns quantos poemas que espero que também sejam a morada
Do Agosto de alguém que se encontra cada vez mais fora do lugar, perdido de si para sempre.

 

25.08.2015

Turku

 

queima de arquivo

minha avó tinha uma ilha/ nada para se vangloriar/ dava-se uma volta nela numa hora/ ainda assim era um paraíso/ um verão fizemos uma visita e descobrimos que o lugar estava infestado por ratos/ chegaram num barco de pesca e passaram a se alimentar de coco/ minha avó me ensinou como se livrar dos ratos de uma ilha/ enterramos um barril e o deixamos aberto/ depois colocamos um coco como isca/ os ratos foram em busca do coco e caíram no barril/ depois de um mês prendemos todos os ratos/ mas não jogamos o barril no oceano nem o queimamos/ deixamo-lo ali/ os ratos começaram a sentir fome/ e um a um passaram a se devorar/ até que só restaram dois/ os dois sobreviventes/ pegamos e os soltamos nas árvores/ mas agora eles não comem mais coco/ agora eles só comem ratos

 

[Ver perfil de Evelyn Blaut-Fernandes]

Michael Symmons Roberts, Pelame

Tradução de Hugo Pinto Santos

Encontrei o pelame do mundo
pregado a uma galeria de imagens
no cubículo de um hotel reles.

É, então, por isso que os rios secam até à crosta,
por isso a erva chora a cada madrugada,
por isso o vento é cru,

a terra, uma ferida aberta,
e aqui se pendura a sua dor,
como um troféu, atrofiado para lá

de qualquer taxidermia, resumido a um tapete de lareira.
Quem o tosquiou?
Não há registo no livro de hóspedes.

Ninguém pagou, limitaram-se a embainhar a lâmina
e seguir, deixando atrás a cama
intocada, a televisão que se satisfazia a si mesma.

Talvez não houvesse faca nenhuma.
Talvez o mundo abandone a cada ano
um abrigo para que outro cresça no seu lugar.

A pele era espessa como a de uma rena,
e tão negra que emitia reflexos de azul.
Experimentei-a, é claro, mas não.


Michael Symmons Roberts, Corpus, Jonathan Cape, 2004

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(dentro.

Dance little liar
Arctic Monkeys

 

Mesmo tu mesmo inteira mesmo ter-te tato de oceano
qual dorso extenso estrangeiro me aderes quanto
no mais vento volante desses quartos sem cama
jurando-te meu último cigarro que dispo durante
desde o topo à massa tua massa nossa assim a dança
para seguir golfo então entrando intruso altitude plana
nesse teu imenso nome emerso quão corpo do mundo
onde arde dentro o poema se incendeia tamanho tanto
quando súbito já a banda somos juntos somos ambos
canção cuja escrevo fogo tua nuca que aqueduto
como mancha minha movimento de mergulho
tocar fundo tocar cinza tocar forma tua tão tua
                                                           por mentira.)