Sinéad Morrissey, Shostakovich

tradução de José Manuel Teixeira da Silva

O vento e seus instrumentos eram, em segredo, os meus mestres.
Na rua Podolskaya eu tocava piano para a minha mãe
- nota a nota, sem partitura- enquanto o sopro
percorria o apartamento devassado: com mão grossa batendo
nos vidros, gemendo no fogão, empurrando
a porta, uma e outra vez, em direcção ao patamar-
um fantasma por entre o mecanismo dos Dois Prelúdios de Beethoven

em todas as tonalidades maiores, e era então que eles mentiam.

Mais tarde, ficava-me pelos campos de trigo e ouvia música
no que o vento tocava. As notas agudas eram cascas:
turbulentas, mas também um nervoso e volúvel sussurro,
enquanto, subterrânea, pulsava a forte, feroz melodia
como se falso crescesse o grão ou a própria floresta.

Em todos os hinos de louvor, no cantochão, deixo o registo
do bater de botas desse homem escondido na montanha.

 

 Sinéad Morrissey  (Irlanda, 1972), Parallax, Carcanet, Manchester, 2013
 

 SHOSTAKOVICH

The wind and its instruments were my secret teachers.
In Podolskaya Street I played piano for my mother
-note for note, without a music sheet- while the wind
in the draughty flat kept up: tapping its fattened hand
against the glass, moaning through the stove, banging
a door repeatedly out on the landing-
the gost in the machine of Beethoven’s Two Preludes

Through All the Major Keys, that said they lied.

Later I stood in wheat field and heard the wind make music
from everything it touched. The top notes were the husks:
fractious but nervous, giddy, little-voiced,
while underneath a strong strange melody pulsed
as though the grain was rigging, or a forest.

In all my praise and plainsong I wrote down
the sound of a man´s boots from behind the mountain.

 

Do vigor irremediável da presença nómada

Texto de apresentação de Supertubos de Hugo Milhanas Machado, lido no dia do seu lançamento, 7 de Fevereiro de 2016, no Bar Irreal, Lisboa

0- Ao mesmo tempo que Hugo Milhanas Machado revê os marcadores ontológicos que povoam o mundo, faz emergir novíssimas possibilidades de sentido, a presença em vez da evanescência (ao contrário de Derrida, mais versado em “palavras nuas” ou “mitologia branca”). Tudo jogado em palimpsestos rústicos que nunca ganham a forma definitiva de uma inteligibilidade dominante, capazes, pois, de conjurar os velhos demónios da totalidade.

1- Supertubos é o mapa de uma viagem poética de 10 anos, tendo em conta a idade de Milhanas Machado, é o livro da sua vida adulta. Estranhamente coerente no estilo, pela aposta na desconstrução (que palavra tão gasta e tão ignorada) das regulações sintácticas. É como se buscasse uma para-sintaxe, refrescando os sentidos básicos que nos ligam ao mundo e a nós mesmos. Milhanas Machado reconsidera o óbvio pela dislexia calculada, mas nem sempre controlada, que introduz no estrato sintagmático do discurso.

1.1- A sua poesia é simultaneamente muito difícil e fácil, depende do ângulo de ataque. Podemos permanecer na sua musicalidade, dissonante, e deixar-nos envolver pelas palavras que conhecemos de uma longa tradição do léxico poético português (corpo, noite, viagem, céu, estrela, amigo, dança, amor, anjo, mar, praia, paisagem, café, sol, escuro, nevoeiro, barco, mundo, terra...). Mas se praticarmos uma leitura estética, então somos sacudidos por todos os lados, nada é suficientemente estável para repousarmos sequer um pouco numa eira de sentido já constituído, tudo é sempre outra coisa pelas possibilidades que se abrem logo na origem de cada fulguração (“Há aquele braço nas pedras / de colo parado da paisagem /quando é voz percebemos quase corpo / e agasalha se tornar a escutar”).

O espelho que reflecte esta arte poética é um “espelho torto”, talvez por isso tudo deva ser dito e lido circulando, seguindo o que Nietzsche escreveu sobre os benefícios do caos e das caminhadas.

2- Esboçará Supertubos uma poética do eu? De um eu, tantas vezes anjo e marinheiro, de um eu situado nos interstícios do descobridor que naufraga, que só porque fraqueja pode avistar ou inventar a praia onde repousar e beber um cocktail sentado na “areia maluca”. Mas ao mesmo tempo, talvez nunca um livro de poesia tenha tido tantos nomes de pessoas: zés, carlos, alfredos, paulos, vascos..., como se Milhanas Machado quisesse compensar o estilhaçamento do eu com processos tangíveis, carregados de história, de subjectivação.

Em marcha com “letra marinheira” rasga o invólucro frágil onde se guardam os antropónimos que fizeram a felicidade dos notários. Lacera também a gramática das vias terrestres GPScizadas, lineares e enfadonhas. Uma loucura controlada que se manifesta quase sempre através de ritmos dionisíacos recompõe a língua para atingir arqueologicamente as partículas que compõem os horizontes de sentido mais comuns.

Muitos vezes, Milhanas Machado abre espaços amplos, a que se chama por comodismo linguístico paisagens, onde o corpo se perde e se ganha, se dilui em algo mais vasto do que ele, ao mesmo tempo que se concentra furiosamente no único ponto certo, e cego, de si: pulsar, pulsar sem descanso. Certeza arrogante que talvez a paisagem não aceite manter.

3- Milhanas Machado desenha também uma indústria poética, uma “fábrica do gosto” que vai parindo palavras ligadas por fios de Ariadne electrificados. O caos, dizia Deleuze, não é a desordem, mas a velocidade infinita, é isso que nos choca, sem redenção possível. E na poesia de Milhanas Machado temos arranques bruscos, de corrida de bicicletas em perseguição por “caminhos anavalhados”, prontos a esfolhar e partir o corpo-ciclista, como se houvesse pressa em ir a tantos sítios quantos os que fazem e desfazem o absurdo, tudo “rumo ao futuro”. Porque ficamos “escangalhados sempre repousamos”, daí que não devamos passar de “campistas” ou ultrapassar a “babugem do clarão”.

4- Poética da desconstrução, as parcerias não duram nem na “sueca”. Foi a recuperação de linhas de memória escondidas nos batimentos da vida quotidiana que permitiram a Milhanas Machado ver, cheirar e tocar tanta coisa banal e fazer disso uma “vida jeitosa”. Uma banalidade que preenche biografias felizes e se eleva, com a força da metamorfose que acompanha a arte, até ao andar da cultura erudita. Numa espécie de homenagem metafísica, Milhanas Machado vai tricotando poemas com esse fio de vida passada. Trata-se, antes de mais, de feitiço, pegar nas coisas e repô-las em palavras, eterno retorno embruxado. Tanto mais que “dizemos por empréstimo”, pedir emprestado a outras vidas e a outros tempos para que a nossa se mantenha de pé, ora num pé ora noutro.

5- O amor acontece na dentada de um anzol. A corte faz-se como se pesca. Junto às rochas. A aventura pode ser miúda, como o peixe. Mas dará para a caldeirada.

6- Milhanas Machado reincide ao trazer a oralidade para a escrita divina da poesia, apontamentos de luz (em claro-obscuro: um brilho turvo de “fogueira de noite”, “alumiando um pouco diante do corpo”) despejados no caleidoscópio vital que recupera de uma memória descomplexada e prolífica. Tudo misturado com sons, muitos sons, imagens e por vezes cheiros, esbatidos por um tempo que oscila entre a eternidade e o instante. Talvez cada instante contenha a eternidade, não é preciso somá-los à força de máquinas de calcular para chegar aos números imensos, haver uma aproximação assíntota ao que dura desde sempre e para sempre. Mas também o instante carece de substancialidade, tudo se vai “esfrangalhando”.

7- Estrelas fora de nós e mar dentro de nós, para glosar, com deslizes, o grande/pequeno immanuel Kant. Pontos cardeais de Hugo Milhanas, ligados pelo voo incerto da linguagem e vividos num corpo inteiro, às vezes de anjo, não belo mas ferido, rasgado, demonstrando que vive acima da crença anódina das figuras de cera poéticas. Milhanas Machado encosta-se ao leitor e aponta um rumo, mas não o deixa tomar o leme, sugere linhas hermenêuticas vagas, desfralda uma ou outra vela, sopra o quente e o frio, sempre de través para evitar bolinar. Gostamos dele, como de um amigo, gostamos e antipatizamos, como a flecha que sai do arco.

8- É preciso “ver torto” e ler torto, são poemas em movimento, “mexem bastante”. Não nos levarão à “terra do nosso regresso”. Como podemos fiar-nos num verso que diz “sopra tão limpo cruel o fabuloso”? Mesmo com “pés gigantes e bronzeados”. Talvez as frases sirvam apenas de contraste ao “silêncio crepuscular”, o corpo é que tem de se bambolear à procura de um equilíbrio que evite uma e outra vez quedas na calçada, isto até chegar ao baloiçamento do barco (ou à biomecânica do ciclista em dia de montanha), mar a toda a volta, por cima e por baixo, esse mar infinito sem fronteiras que interrompam o viajante. Obliquemos e naveguemos pela vida fora!

As Aventuras do Senhor Lourenço §4 (da maledicência)

(cont.)

O Senhor Lourenço é professor de filosofia (o destino não seguiu os seus sonhos), ensina no secundário adolescentes entre os 15 e os 18 anos. Gosta e não gosta do que faz, à semelhança da sociedade, tem uma relação ambivalente com os mestres-escola, insignificantes e fundamentais, cultos e estúpidos, decentes e impróprios, dedicados e baldas.

As escolas não são lugares de amor incondicional à aprendizagem, talvez isso seja, aliás, irrelevante. Os alunos preocupam-se mais ou com a popularidade ou com as classificações (que estão longe de representar conhecimentos e competências significativas). Os professores, desbaratados por um estatuto social que não cessa de cair, minados afectivamente pelo envelhecimento geral da profissão (a alegria parece ser inversamente proporcional à idade), vivem entre lamentos sobre a ciática e outras maleitas de lar-de-terceira-idade e micronarrativas do quotidiano. Mas continuam a resistir às ordens puramente burocráticas que obrigariam a despender tempo e pensamento para cumprir procedimentos totalmente inúteis, aliás, é próprio da boa burocracia exigir o inútil, o irrisório, forma de domesticar os trabalhadores, em primeiro lugar, e a sociedade, em segundo (expandindo-se como a peste). Felizmente, um misto de lucidez e de preguiça vai resistindo ao “absurdo suave”.

[se se seguir à letra toda a legislação escolar, sei-o por mim, desliza-se mais rapidamente para a paralisação do sistema do que através de uma desbragada anarquia. Portanto, revolucionários de todo o mundo, já sabem por onde ir]

Os professores, dizia, são uns rezingões à espera da reforma, de viverem finalmente sem fazerem nada, colados às telenovelas e jogos de futebol, um ou outro livrinho simples. Neste caso, as excepções são mesmo excepções, que ou assentam num ego amplificado ou numa persona non grata feliz pela expulsão do círculo paradisíaco das conversas de chacha.

[em casos semelhantes, costumo citar Bernardo Soares/Vicente Guedes: “A sublimidade de desperdiçar uma vida que podia ser útil.” Antes preferia: “apaixonar-nos genuinamente pelo bom, verdadeiro e belo”]

Lourenço vai pouco à sala de professores, arranjou lá alguns ódios de estimação (esta expressão é um centauro linguístico), combustível abundante, e no seu caso calhou-lhe a fava das rainhas da coscuvilhice, ainda por cima amigas de infância da Directora. São duas gajas que se suspeita terem pactuado com o Diabo para se manterem fúteis e maldosas (variação pífia do mito de Fausto). Ninguém sabe ao certo o que leccionam, parece que tratam da papelada dos cursos profissionais e acompanham os alunos em visitas de estudo (uma forma de entretenimento muito apreciada). Não falham um intervalo na sala de convívio, mas é sobretudo entre as 10 e as 14 horas que dominam incondicionalmente esse território. Percorrem-no traçando linhas oblíquas desencontradas mas que acabam por sobrepor-se, e muitas vezes, lidas semioticamente, desenham verdadeiras obras de arte de figuras contorcidas à la Francis Bacon. Enquanto deambulam, olham assertivamente para os dois lados e vão lançando invectivas contra o Governo, o Ministério da Educação e os colegas incautos que caíram nas suas más-graças.

– Já viste, o António agora tem a mania que é doutor, corrigir assim as colegas, deve querer alguma medalha!

– E o João – lança a segunda –, esse badameco que ainda no outro dia chegou aqui, armado em superior, nem ao jantar de Natal foi! (nada pode ser mais ofensivo do que faltar, sem uma desculpa bíblica, a este encontro meio teológico meio alcoólico).

Poucos as ouvem e entram na conversa. Não por despeito, mas porque estão noutro estrato desenvolvendo o seu próprio campo coscuvilheiro. Há-os distintos, começam sempre o ataque por “não é uma crítica, mas...”. Há-os parolos, acusam quem lhes faz frente de não deixarem o “país ir para a frente”. Há-os pindéricos, julgam-se guardiões da Idade de Ouro da Escola, do tempo em que só ia dar aulas quem era ungido por um alto representante de Deus e de Paulo Freire. Há-os patéticos, vencedores antecipados de todos os dissensos com alunos e pais. Há-os anódinos, sorriso semi-Colgate e distribuição generosa de bons-dias. Há-os pretensiosos, vêm em geral da Faculdade de Letras e trazem o bebé do Rei na barriga, mimetizam as velhas múmias catedráticas. Há-os super-pedagógicos, para quem tudo se fará com o jeitinho didáctico acertado, maluquinhos do “fora da caixa”, o que acaba sempre por criar outras caixas, bastante defeituosas, por sinal, devido às torções que sofrem para deslizarem do estabelecido e afirmarem alternativas psicadélicas.

E todos estão velhos, é isso que rasura qualquer esperança, estão velhos e rabugentos. Lourenço, apesar de tudo, é um meta-professor, e nesta relação incestuosa consigo mesmo mantém uma lucidez que o protege das caricaturas mais óbvias. Além disso, não se leva a sério (mesmo Proust terá dito a André Gide que era preciso rir desbragadamente da literatura, apesar da sua importância). À força de ler Nietzsche, arriscando até o original, desvaloriza tudo o que não seja póstumo. Mas às vezes está tão entediado que deseja que algo de excitante lhe aconteça ainda que seja terrível.

(cont.)

PARALELO 80

Na latitude a que nos gela a imaginação,  
algures depois do paralelo 80, 
o branco invade e sobrepõe-se. 
 
Ouvi dizer que, por esses lados, 
algumas cidades acomodam deuses. 
Vivem com nomes normais
em lugares iguais a tantos outros. 
Sentados à entrada das casas
ou nas conversas de café, 
jogam cartas como todos os outros
e bebem cerveja quente. 
Até mesmo os traços dos rostos
São semelhantes aos nossos. 
 
Só as vozes são mais suaves, 
sussurram como o vento polar. 
E podem fazer-nos sentir o brilho do gelo.  
Durante o equinócio
Suspiram o regresso a casa
e têm a impressão de, por uma vez, 
se fundirem com a paisagem. 
O branco dos deuses igual ao branco do ártico. 
 
Por esses dias
há um silêncio que se aproxima em ondas
e que invade discretamente tudo. 
Gentes e animais, 
cumes e praias. 
Não há destinos
nem percursos. 
Não há rumos que levem a lugar algum
nem estradas para percorrer. 
Tudo se transforma em igrejas
e a respiração torna-se prece. 
As vozes são liturgias
e os gestos rituais novos. 
 
Os homens não caminham, 
os animais repousam, 
o branco inunda. 
E os deuses sonham com lagos
e montanhas verdes. 
E acreditam ter voltado a folhear os livros sagrados. 
E sentem o quente dos tronos que já ocuparam. 
E saboreiam manjares divinos
em longas mesas pontuadas pelo mais rico néctar. 
E ouvem os bailes. 
E acariciam as feras mais dedicadas. 
 
Ainda que encontrem uma solução temporária, 
e gradualmente a inspiração se vá perdendo, 
estes momentos não deixam de ser milagres. 
Os milagres são precisamente isto
- regressos perfeitos. 
A possibilidade de voltar às origens
torna-os mais profundos, 
mais humanos. 
São também vítimas de raiva, 
desespero, 
preocupação e obsessão. 
Profundamente humanos, estes deuses, 
quando termina o breve equinócio. 
 
Dizem-me que as cidades são feitas de homens
mas o que as justifica é o ruído. 
No silêncio nada é cidade
No branco tudo é horizonte. 
No silêncio não há diferença. 
É tudo igual a si mesmo. 
Sobra a aurora boreal para colorir.