La Femme d´Argent 

Hoje escrevi o primeiro poema de Maio e o céu tem a cor daqueles dias tristes 
Dos quais tenho saudades, chovia também nesses dias e as gotas escorriam 
Pelos vidros da Mitsubishi ao ritmo de Mike Oldfield, encostava a cabeça 
E tudo me sabia a mercúrio frio e às pocilgas na Espanha fronteiriça, 
Contudo tinha as mãos vazias e jovens e havia satisfação naquilo tudo, 
Saber que ia morrer, cair num vazio absoluto e que o mundo passaria bem sem mim, 
Que rico me sentia com aquela aconchegante tristeza, 
Aquela verdade que ninguém parecia ver, na cor do céu, em cada sorriso 
A promessa de uma lágrima, muros de pedra ao vento numa aldeia deserta, 
Cujas mãos construtoras há muito uma fotografia apagada pelo sol no cemitério, 
E o poder de acabar isto tudo na sorte e na vontade que esmaga todas as outras, 
Acabar um universo com um murro num espelho de guarda-fatos carunchoso, 
Escrevi o primeiro poema de Maio, engolindo a tristeza sem razão, 
Não culpo o céu de chumbo, o peso do ar entre os goles de cerveja, 
Quente, não culpo a evidente verdade há muito coberta pelo cotão dos bolsos, 
Culpo esta camada fininha de gordura que me reveste a alma 
E me impede de lamber o sabor o cinzento como prata, 
Se algo me falta é a miséria, daí me sentir, talvez, miserável ao Sol de chumbo. 

Turku 


26.05.2019 


sete setas enquanto você fala


1

o sino da paróquia São João Batista

assusta as moscas na banana

as moscas deixam a banana sem

deixar a atmosfera da fruta

o sino cala as moscas voltam

politicamente magoadas




2

o gato um mamão as patas

o motor dos gatos os gatos suas patas

minha boca incha

golpeio o mamão com a cabeça de

um

dos gatos

volto a contar os gatos suas vidas suas patas



3

aquele pombo no teto da paróquia

São João Batista manca pela

secular linguagem em ser desacreditado aquele pombo no teto



4

pesa no sono a

cabeça da

barata pesa o sono

junto da agonia são tantos os joelhos da

barata

pesam as asas e eu não posso me cansar

pesam a volta o limite minha cabeça doem

meus joelhos



5

passa um menino que vem

da

cerimônia de sua primeira comunhão na

paróquia São João Batista

passa um lobinho branco com vinho e

pactos até

as orelhas



6

penso se a aranha quase

invisível sabe a liberdade porque se sabe

não parece saber tudo e perde uma das

pernas apesar de saber pouco e nem se afasta e

nem morre apesar da perna

a menos penso quase

invisível apesar de você se uma

perna a mais faz menos barulho nos tacos do

corredor



7

os sinos calam

lenta

a mosca volta


"À mulher pesava-lhe algo no peito"

À mulher pesava-lhe algo no peito.
Fez exames e, em vez do órgão vital,
encontrou — aquilo que parecia ser —
uma pedra.
Compreendeu, então,
a estranha precipitação dos olhos,
os pedaços irregulares de gelo,
o granizo.