Baby shoes

For sale: baby shoes, never worn.

Ernest Hemingway

Durante a gestação do primeiro neto, o avô fez mais de uma dezena de sapatos minúsculos, ignorando a opinião desmotivadora da filha. «São bonitos e inúteis. Os bebés não andam. Para quê tantos sapatos?» Não respondia. Limitava-se a sorrir, olhando com orgulho para os sapatinhos de pele com atacadores, em várias cores, alinhados na prateleira da oficina onde gastara praticamente a vida toda a fazer sapatos para pés adultos. Agora que se reformara, e prestes a ser avô, finalmente podia fazer o que mais queria — sapatos de bebé. Pequenas obras de vestuário belas e inúteis; peças talhadas com tempo, pormenor e rigor. O nome do menino, cravado nas solas com caligrafia fina, conferia-lhes algo de joalharia — Ernest. Sou eu. O avô morreu no dia em que eu nasci, horas antes, e não pôde ver-me de sapatos calçados. Eu também não tenho memória de os ter usado, só o registo nas fotografias é que o comprova. Durante anos guardei-os na esperança de um dia ser pai e de voltarem a ter uso. Estão novos. Acho que só mos calçaram para as fotografias. A minha mãe, nunca entendi porquê, ridicularizava o trabalho do avô. «Um disparate. A trabalheira que teve a fazer sapatos para quem não anda.» A mãe morreu antes do meu acidente e não pôde perceber que os sapatos são importantes, mesmo para quem não anda. É claro que, desde que deixei de caminhar, não lhes gasto as solas. Mas nem por isso deixei de gostar de sapatos, quando são bem feitos. Lá porque sou aleijado continuo a ter direito a usá-los. Por isso, desde que capotei dentro do carro e deixei de conseguir dar-lhes uso no chão, continuei a comprá-los. Tenho uma grande coleção. Vale bastante dinheiro porque, lá está, tal como os sapatos que o avô me fez, estão novos. Mas ultimamente deixei de os comprar. Estou a juntar dinheiro para fazer uma grande aquisição. Mesmo no mercado negro as armas são caras. A pensão de invalidez é insuficiente. Ainda falta muito até ter o bastante e estou ansioso.

Então lembrei-me de vender a coleção de sapatos. A de bebé e a de adulto. Vou despachar tudo. Para onde irei posso ir descalço, embora, verdade seja dita, me custe. Os pés cobertos sempre dão alguma dignidade ao morto. Por isso, venderei todos os sapatos exceto um par. Chega bem.

Vou colocar um anúncio.

Vendem-se. Sapatos de bebé e de paraplégico. Como novos.

Cláudia Lucas Chéu: Autora convidada de Maio

vitorino coragem.jpg

Cláudia Lucas Chéu

Portugal (1978)

 Poeta, dramaturga e argumentista. Frequentou o curso de Línguas e Literaturas Modernas (FCSH) e concluiu o curso de Formação de Atores (ESTC). Tem publicados os textos para cena Poltrona – monólogo para uma mulherGlória ou como Penélope Morreu de TédioEuropa, Ich Liebe DichViolência – fetiche do homem bomCírculo Onanista; Bank, Bank, You´re Dead, pelas edições Bicho-do-Mato/Teatro Nacional D. Maria II; A Cabeça Muda, pela Cama de Gato Edições; Veneno (Coleção Curtas da Nova Dramaturgia — Memória), Edições Guilhotina, 2015. Em prosa poética, publicou o livro Nojo (2014), (não) edições. E em poesia, o livro Trespasse, Edições Guilhotina, 2014; Pornographia (poesia), Editora Labirinto, 2016. Em 2017, foi publicado o seu livro Ratazanas (poesia), pela Selo Demónio Negro, em S. Paulo (Brasil). Publicou, em 2018, o seu primeiro romance Aqueles Que Vão Morrer, Editora Labirinto; e Beber Pela Garrafa (poesia), pela Companhia das Ilhas, em 2018. Lecionou Escrita e Dramaturgia na Escola Superior de Educação de Lisboa. Frequenta atualmente o mestrado em Filosofia (Estética), na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.