Depois do Fim

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Before Midnight, de Richard Linklater, passou pelas salas de cinema portuguesas sem que eu o tenha ido ver. Logo eu, exactamente o tipo de pessoa para quem o filme foi feito.

Na adolescência, uns anos depois de ter sido filmado, apanhei na televisão Before Sunrise, o primeiro dos filmes de Linklater em que os actores Ethan Hawke e Julie Delpy davam vida a Jesse e a Celine, um americano e uma francesa que se juntavam por acaso ou destino nas ruas de uma cidade europeia. Não sei explicar o quanto adorei o filme.

Em Before Sunrise, Jesse e Celine conhecem-se num comboio a caminho de Viena e acabam por decidir passar um dia na cidade, antes de na manhã seguinte seguirem os seus respectivos caminhos (ele num avião para a América, ela num comboio para Paris). Durante a hora e meia que dura o filme, vemos Jesse e Celine a apaixonarem-se um pelo e outro e a serem forçados a confrontarem-se com a inevitável separação que virá na manhã seguinte. Os dois decidem nunca mais se ver e fazem daquela noite algo único e especial. Mas chegada a manhã, dizem um ao outro que não querem ficar sem se ver e que voltarão a encontrar-se no mesmo sítio, seis meses depois.

Lembro-me de ter achado este final genial, ambos a prometerem um reencontro em Viena, e nós desconhecendo se a promessa seria mantida. Mas em 2004, Linklater, Hawke e Delpy voltaram a juntar-se para Before Sunset, em que Celine aparece numa apresentação de um livro de Jesse sobre um encontro fortuito de dois estranhos num comboio para Viena, e nós descobrimos o que afinal aconteceu: Jesse aparecera seis meses depois, Celine não. Mais velhos, Jesse e Celine estavam também mais desiludidos com o caminho que as suas vidas tinham levado, e com a mágoa de nunca terem sabido o que poderia ter acontecido se tivessem ficado juntos.

Agora, em Before Midnight, eles estão mesmo juntos, com filhos, a passarem férias na Grécia. E eu tenho com este filme o mesmo problema que já tivera com Before Sunset: não sei se eles deviam sequer existir. Pois a sua mera existência como que “estraga” o primeiro filme, ao revelar o que acontece após o seu final. Eu não queria saber se Jesse e Celine se voltavam a ver ou não, se tinham um futuro juntos ou não; o que interessava era que, naquela altura em que se despedem um do outro, ambos queriam voltar a ver-se, e ambos temiam que isso não viesse a acontecer. Podia ser um final em aberto, mas era um final, e um final perfeito. Com duas sequelas, o “final” deixa de o ser.

Mas talvez seja aí que esteja o mérito destes três filmes, tomados em conjunto: a vida, ao contrário dos filmes, não tem finais. Continua. E as sequelas de Before Sunrise são o filme sobre o que acontece depois do fim do filme. Mostram como, por muito “mágico” que possa ser um momento das nossas vidas, elas continuam. Mostram que aquilo que receamos - ou aquilo que queremos que aconteça - pode mesmo acontecer, e temos de lidar com isso. Before Sunrise era um filme perfeito, um exemplo de como o cinema pode ser – mais uma vez – “mágico”. Before Sunset e Before Midnight, só por existirem, mostram-nos como a magia do cinema é um truque, uma ilusão. A existência das duas sequelas “estraga” mesmo Before Sunrise, mas aquilo que as faz estragá-lo é precisamente o que as torna brilhantes. Este é um texto sobre um filme que não vi, sim, mas também sobre um filme que quero ver.

Bruno Alves

 

Falar a mesma língua

Conheci o poeta J. A. no meio de uma manifestação dessas que agora se convocam por meios remotos. Primeiro surpreendi-me ao vê-lo. Por bem-intencionado que fosse o objectivo da aglomeração sabia que as multidões não o entusiasmavam. Passada a surpresa, não podia perder a ocasião de falar com ele. Procurei a melhor posição e tentei mantê-la, separavam-nos poucos metros, eu seguia atrás. Ele avançava sozinho e não posso dizer que participasse nas palavras de ordem.

O protesto acabou e todos dispersavam. O poeta J. A. deu uma volta sobre si próprio, de mãos nos bolsos, e fazia menção de tomar uma direcção. Mudou de ideias no segundo seguinte para imobilizar-se e dar um passo escolhendo um ponto cardeal distinto do momento anterior, enfim, não podendo estar perdido estava pelo menos bastante indeciso. Foi aquele comportamento errático que me deu o empurrão final para chegar a abordá-lo.

É escusado contar como meti conversa com ele. Sentámo-nos na escadaria e ficamos até ser noite. Era eu que o acompanhava – uma sorte, mas podia ser qualquer outra pessoa, naquele momento, ele teria contado igualmente as mesmas coisas, a mesma história de busca do autêntico ou do genuíno. Lembrei-me imediatamente de um conto do escritor albanês Ismaíl Kadaré que versava sobre a relação de amor entre um poeta octogenário e uma mulher jovem. O poeta tinha sido convenientemente transferido pelo Partido para uma pequena cidade de província onde se supunha que o efeito nefasto da nostalgia presente nos poemas não causaria tantos estragos à energia, à doutrina, ao optimismo inculcado, ao realismo socialista, que se vivia na «capital». Abundavam as frases contra a nostalgia. Afastada do poeta, a mulher demorou tempo a procurá-lo e chegou demasiado tarde.

O poeta J.A., ainda longe de ser octogenário mas triplicando-me a idade, contava-me a história de um encontro que procurava repetir. Depois da primeira vez nunca mais existiu um dia igual ao Passado. Procurou-a vezes sem conta sobretudo nos momentos mais insuspeitos, como aquela manifestação que terminara. Resumia-me as palavras anteriores que eu, sem grande experiência, encontrava absolutamente apaixonadas e apenas pressentindo o esencial de uma procura muito além do conforto, uma procura outra que ainda não desistia: «Foi o espanto que me deixou paralisado e não queria acreditar no que ouvia. Regulava-me por outras fantasias que não passavam de embustes e que agora encontro odiosos. Depois disso raras vezes a vi. E nunca mais encontrei ninguém que falasse a mesma língua que eu.»

 

Antonio Gamoneda, de «Canción Errónea»

 Tradução: João Moita 

O leite entra nas profundidades côncavas, o leite urdido nas rosadas úberes de grandes vacas silenciosas. São torpes as vacas silenciosas. Fazem, porém, doação muito branca
à paixão enferma
de viver.
Viver: avançar cegamente
para o grande sono branco.
Suportado por mãos inocentes, sempre
o leite desce do cântaro habitado por sombras
até à fraternidade do pão no seu leito de vimes
e na sua descida traz uma assistência que convém ao cansaço
do nosso corpo transitivo.
                                                Jan Vermeer
pôs nas mãos de uma antiga rapariga
estas suaves matérias que nos perdoam e
nos permitem repousar vertebrados, desconhecer, mentir,
envelhecer,
ignorar por algum tempo a afiada pureza
dos limites.
Antonio Gamoneda, Canción Errónea, pp. 77-8

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Les paradoxes de l'échafaud

— Vous croyez donc qu'ils sont morts parce qu'on les a guillotinés, vous?
— Sans doute.
— Eh bien! On voit que vous ne regardez pas dans le panier quand ils sont là tous ensemble; que vous ne leur voyez pas tordre les yeux et grincer des dents pendant cinq minutes encore après l'exécution. Nous sommes obligés de changer de panier tous les trois mois, tant ils en saccagent le fond avec les dents. C'est un tas de têtes d'aristocrates, voyez-vous, qui ne veulent pas se décider à mourir, et je ne serais pas étonné qu'un jour quelqu'une d'elles se mit à crier: Vive le roi!

 

Alexandre Dumas apud Pierre-Jean-Georges Cabanis, Note sur le supplice de la guillotine.