Sentado ao fogo, junto de minha mulher...

Rembrandt, Tobias e a sua mulher (1659)

Sentado ao fogo, junto de minha mulher, inquilina da minha solidão, recordo os anos da juventude. Nessa altura, o mosto fermentava nas caves da idade e nós aguardávamos o vinho maduro com a impaciência dos sóbrios. Tudo foi preparação. Os enforcados amavam as nossas travessias, as mães rezavam com as mãos postas sobre o linho corrompido pelo sal. Onde as aves desertavam, erguíamos um templo de suspeita e sedução. Eram os dias do amor e do arrependimento. Hoje sei que a embriaguez é só esta indiferença com que pressinto o sangue nos dedos da minha mulher que borda, e que a sabedoria nos abandona no fim. Ainda esta noite comungarei com Deus. Amanhã serei as uvas frescas na videira.

De Fome (inédito)

Sideral

Estando o termómetro avariado a chegada do tempo quente prova-se, um ano mais, através dos engarrafamentos na marginal. Levo três t-shirts e dois calções. Roupa interior dobrada e acomodada. Acabo de ganhar um prémio que dá para passar os meses de estio em Zagora, apenas interessado em mim e o resto que se lixe. Uma t-shirt a enxugar, outra vestida e a terceira à espera da sua vez.

Quantos serão capazes de uma ousadia como a minha? Estava praticamente sem dinheiro e devia conseguir o bastante para comer, pagar as contas e todas essas necessidades que fazem de ti um gajo responsável e maduro e também totalmente refém dos humores alheios. Não foi o que fiz, pensar em pequeno. Nunca faço o que é esperado. Dei várias voltas a um bairro que fica perto da estação, onde os bares cheiram a mofo e a fritos, onde param muitos senegaleses. Dei umas quantas voltas ao quarteirão. Não fui a nenhum casino. Nota após nota e logo moeda após moeda, depositei-as nas ranhuras correspondentes de uma tragaperras, e os velhos e as perras olhavam e eu continuava na minha. Não parava de largar dinheiro. Primeiro de um envelope que a minha mulher me tinha dado, o ordenado da quinzena. É cozinheira. Devia agradecer ver-se livre de mim. Depois da minha carteira e finalmente das calças, as últimas moedas saídas directamente dos bolsos traseiros das minhas calças gastas e confortáveis. Olhei em redor; ganhava, e depois? Bastava de expectativa. As moedas caíam na bolsa de canguru da máquina. Pedi um saco de plástico. A máquina estava atestada, os primeiros sons, ruído metálico, reproduzido sem variações, monótono, proporcionado a quem estivesse à volta, o som da inveja; olhei triunfante, esforçavam-se por ignorar-me, à altura dos meus joelhos, gajo alto, tombavam as primeiras moedas de dois euros; pareciam pelar as paredes onde eram vertidas, saltavam chispas, e moedas caíam sobre moedas e finalmente o som abafava-se. Pedi segundo e terceiros sacos, preferia reciclados, por favor, já me punha arrogante com o dinheiro repentino. Só havia de plástico grosso. A miúda, detrás do balcão, estendeu-me o saco sem me prestar a menor atenção. E não parava de jogar. Digo jogar para facilitar o entendimento bacoco, estava finalmente a recuperar o que me pertencia, apenas resgatado de um modo extraordinário. Aquilo que havia de ser meu, às mãos me havia de chegar, dizia o Saramago depois do Nobel. Também nunca perdi essa certeza e quando entrei naquele covil adivinhava a hora; porque não merecia sorte diferente. Cheirava a mofo, a desleixo, o ambiente que respirava sem cuidados. Uma vez entrei no casino e andei tenteando, atemorizava-me com os jogadores concentrados e em silêncio, as luzes a piscar, os sons agudos das máquinas multiplicavam-se em todas as direcções, quase perdia o equilíbrio não fosse um banco alto; o que se passou no casino foi de uma avareza inclassificável; mais tarde senti nojo, comportei-me como se a todo o momento o céu se abatesse e precisasse de protecção que só podia ser adquirida com o pouco que sobrava depois de pagas as contas e alimentado o gado, se alguém espera alguma recompensa é necessário abandonar tudo de uma vez e sem olhar para trás.

Bagagem de mão onde não cabe mais que o tecido suficiente para tapar o peito e as costas. Cobrir metade dos braços e metade das pernas. E depois volto. Para onde irei? E viver como sempre vivi, como sei viver, antes da tragaperras começar a bolçar moedas. Sobrevivendo e forçando o momento sideral que de novo altere a sorte da forma mais transitória possível. Porque eu sou grande e mereço que a fortuna seja piedosa, riqueza caída do céu, apenas um passo à minha frente.

O mais triste sou eu

Disseste que me vias como a pessoa mais infeliz de Lisboa e que me ajudarias a sair do buraco e que conquistaríamos o mundo, tu com a tua força e eu com a minha luz por revelar. Acreditei na tua energia durante horas, dias, não sei durante quanto tempo, acreditei que me tirarias do poço. Corremos e sorri, coisa rara, sorri contigo naquele triste fim de verão. Um verão ainda assim diferente por no meu peito existir uma esperança de fugir, de apanhar um avião e desaparecer para um sítio onde ninguém me conhecesse, um sítio onde eu não me conhecesse e pudesse renascer e transformar-me em fogo e raios de alegria. Pensava em ti desde aquele jogo de futebol transmitido em ecrã gigante no jardim, desde que me dirigiste aquele olhar que desvalorizei por pura timidez, por me achar o mais feio. Mirava-te de esguelha em qualquer evento em que estivesses presente, aproveitava qualquer oportunidade em que estivesses distraída para te contemplar. "Vem comigo", disseste-me certa vez. Deste-me a mão, subimos a rua, entrámos em tua casa. O meu casaco ainda guarda o teu perfume, meses depois, o teu cheiro na minha roupa, cheiro que evito para não me afundar mais. Deste-me a mão. Só os dois e o escuro e o teu cheiro e os teus braços a puxarem-me. A minha estupidez não tem limites, afasto aqueles que me amam. Cruel destino que me fez largar-te e mentir-te e desaparecer na noite escura e cobrir-me de silêncio. Fui hipócrita naquela tarde em que afirmei que precisava de me descobrir, não me tencionava descobrir mas voltar aos velhos hábitos, à vidinha, às pisadelas. Os teus abraços e pedidos para que te olhasse nos olhos e negasse o que sentia, o teu choro quase animalesco, na altura nojento, sei lá porquê, nojento como eu me sentia, o teu choro e o meu peito apertado, eu sabendo que aquilo era um erro, que talvez tivesse desperdiçado a última chance de mudar. Fiz-te mal, soube que por minha causa tiveste vontade de morrer. Todo os dias penso em morrer e recordo aquela vista linda da tua casa e aqueles dias maravilhosos que nunca passaremos juntos. Depois tenho ideias erradas, como pedir que me envies uma fotografia tua ou sentar-me à entrada do teu prédio ou telefonar-te ou escrever-te ou procurar-te até te encontrar ou ficar deitado na cama pensando nos sonhos destroçados pela cobardia e nos novos sonhos que também a cobardia um dia destroçará ou implorar de joelhos para que me perdoes, para que não esqueças aqueles dias e me recordes como aquela pessoa envergonhada para pedir um copo de água e ao mesmo tempo vaidosa o suficiente para se despir no meio da tua sala e fazer flexões como se fosse o maior garanhão do pedaço. 

 

Dois poemas do novo livro de Cláudia R. Sampaio

Cláudia R. Sampaio, 'Os dias da corja', Do lado esquerdo, 2014

Cláudia R. Sampaio, 'Os dias da corja', Do lado esquerdo, 2014

A margem

 

Ando feita de crisântemos
luz, banhos de ouro
e perfumes franceses.
Nota-se assim que falo
que um outro eu me substituiu.
Sou agora quase feita de
anúncio de tv,
cara de porcelana e alma
de fermento.

Sonhei.

Os demónios da boca seca
fizeram-me levantar da cama e
suspensa por um fio de vida
redimi-me à margem solta
de um suspiro que ainda
falta.

 

Desfez-se-me o fermento e
a alma, encolhida,
coube-me perfeitamente na
fronha da almofada.

 

O peso dos outros

 

Ao Homem tanto faz a natureza
se anda abismado, com outros
às cavalitas
quando chega à meta
já os perdeu a todos
e depois é que olha o céu
e sente a chuva, tão nova

ao Homem tanto faz o verbo
se se multiplica pelos actos
quando dá por ele, já são muitos
e depois a terra abala-se
e é a cabeça que inventa deus

a mim, tanto me faz o Homem
sou espuma na onda
desfaço-me mas volto
e só existo de vez em quando.

 

Cláudia R. Sampaio

Os dias da corja

do lado esquerdo 2014

(a sair em breve)

O corpo diz o que as palavras não conseguem (ou não querem ou não podem)

© sonja valentina

© sonja valentina

Finalmente, beijámo-nos. 

Há muito que havia trocas de olhares e de sorrisos, toques cúmplices e abraços demorados, conversas que apenas não duravam indefinidamente porque eram sempre interrompidas por alguém. Há muito que havia vontade. Há muito que o primeiro beijo era imaginado e antecipado, desejado, fantasiado. Mas apenas hoje aconteceu. 

E foi uma decepção. Quando nos separávamos, ainda sentia o sabor da sua saliva na minha boca; mas o que pensava era isto: será possível anular um beijo? Como voltar atrás, como retirar um beijo que demos a alguém?

Não sei o que esperava; mas julgo que sempre acreditei que o primeiro beijo que dou a alguém deverá ser mágico, deverá ser insuportavelmente intenso e transcendental; deverá fazer-me tremer, fazer-me voar, deverá fazer-me morrer e ressuscitar em simultâneo. Talvez seja excessivamente romântica, talvez seja excessivamente idiota; mas acredito que um primeiro beijo deverá ser tão forte que me faça sentir que, após esse beijo, nada mais será igual, algo mudará de forma subliminar mas inquestionável e irreversível. Contudo, nada disso aconteceu; o nosso primeiro beijo foi, simplesmente, murcho. Tão murcho que desejei apagá-lo, eliminá-lo; para que depois pudesse haver uma segunda tentativa de primeiro beijo? Ou para que o pudesse esquecer para sempre? Não importava, queria apenas retirar algo que dera.

O que me decepcionou mais foi a sua apatia; um beijo sem paixão, sem amor, sem desejo, sem voracidade, sem desespero, sem fome; apenas algo rotineiro e eficiente, algo necessário, algo agradável; na verdade, apenas mais um beijo (pior: apenas mais um toque). Foi isso que me decepcionou: perceber que, para ele, um beijo, cada beijo, não é algo único e irrepetível, mágico, sagrado. Perceber que, para ele, um beijo pode ser apenas uma rotina. Perceber que, para ele, o primeiro beijo pode ser tão indiferente e banal, tão mecanizado, como os beijos de um casal que vive junto há cinquenta anos e não se ama há quarenta. Porque foi algo semelhante a isso que senti: o seu beijo pareceu-me o de um velho que já deixara de acreditar, desejar, sentir.

E o que fazer depois de um beijo assim? O passado não se apaga, é impossível anulá-lo ou cancelá-lo. Contudo, o pior é a incapacidade de apagar a memória; afinal, o passado talvez seja inofensivo e inócuo, o que nos perturba e destabiliza é a memória. Mas como impedir que o passado, ou a memória desse passado, nos condicione o presente, nos faça infelizes agora? 

Recordava a forma mole como a sua língua acariciara a minha e perguntava-me se, apesar da completa inaptidão do seu beijo, aquele poderia ser o homem da minha vida. E se estivesse a permitir que um mau beijo condicionasse todo o meu futuro? Afinal, até ao momento em que os nossos lábios se tocaram acreditara (ou melhor, fantasiara) que aquele homem poderia ser o meu futuro. E se o beijo tivesse sido apenas um erro momentâneo, um equívoco passageiro? Já se sabe que, por vezes (muitas vezes), o corpo diz aquilo que as palavras são incapazes de transmitir; deveria, por isso, escutar o que o seu corpo me dissera. As suas palavras tinham-me comunicado desejo e amor (sim, amor), enquanto o seu corpo transmitira-me rotina e apatia (na verdade, o seu corpo gritara-me: “foge”). Mas será que os corpos não se enganam, por vezes? Será que apenas as palavras são ilusórias e ardilosas? E os corpos, não?

Porque deveremos sempre acreditar nos corpos? Será que eles nunca mentem?

O beijo aconteceu ontem ao fim do dia, no escritório. Separámo-nos e durante a noite, pela primeira vez em muito tempo, não trocámos mensagens. Dormi mal, acordei mal. Apeteceu-me fugir (o que é um desejo estúpido, já que a decepção e a dúvida me perseguiriam, pois estão dentro de mim, são parte de mim); mas, neste momento, aguardo que a porta do elevador abra; entrarei no escritório e ele estará lá, à minha espera. Não sei o que acontecerá; o que dirão os corpos? E as palavras que acabarão por ser ditas que significado verdadeiro terão? Não sei mesmo o que acontecerá, apenas que no princípio haverá um olhar.

E tenho medo.