Método e Equilíbrio

21. MÉTODO

Sentia-se tão bem no escuro que um dia arrancou os olhos*.

* Podia ter escrito “que um dia cegou”, mas a verdade é que evito, sempre que posso, as metáforas.

28. EQUILÍBRIO

Ele amava-a tanto que se transformou num homem melhor, só para lhe agradar. Tornou-se mais belo, mais instruído, mais bem-sucedido e muito mais rico.
Ela não mudou nem um bocadinho; continuou a não acreditar no amor.

O casaco

O casaco estava lá mas ele não. Estava à espera de qualquer coisa, um som, ou a sensação que se experimenta quando um tendão se rasga. Era aquilo ali e agora, mas não era bem isso. Assim, tão banal como uma gaveta de roupa que não se compõe porque faltam duas camisas. Atirou as tralhas para dentro da pasta, o moleskine, os livros, o computador. Na sua imaginação lírica, a parte mais apelativa da sua imaginação, pensava que devia haver uma reacção física que tornasse isto objectivo, por exemplo, gritar ou sangrar do nariz. 
Reage, mulher, pensou. Pensou, levanta-te!, e sentou-se no sofá. 
Apoiou os cotovelos nos joelhos. Nada. Então daí entendeu. Sacanice. Estava à espera disto. Qualquer coisa em modo Cassandra, de longe, muito antes, eu conheço este cheiro. E, no entanto, estava ainda à espera de qualquer coisa vinda de fora que pudesse traduzir a mudança. Torná-la real. Um acontecimento pode ocorrer sem que cheguemos a ver nenhum gesto, muitas coisas se fazem sem o sangue, até isso, era uma frase naquele livro que tinha andado a ler a semana toda. Até isso. Uma coisa pode acontecer sem que nada no mundo a manifeste. Sem que haja qualquer testemunha do seu movimento. Viste? Não vi.

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Peter Reading, Ésquilo

Tradução de Hugo Pinto Santos

 

Havia uma razão, mas agora escapa-me,
para eu fixar o céu, de olhos a piscar.
A sua brandura crepuscular empapa-me,
ainda que isso não o possa explicar.

Quando eu era miúdo, li que um poeta
trágico, por trágica ironia, ou por Fado,
morreu por tartaruga e águia cegueta
que lhe tomou a cachola por penedo.

Quem senão talvez um comediante avant-garde,
ou Darwin postulando a bordo do Beagle
sobre a evolução das barbatanas da tartaruga,
podia visualizar a tartaruga tão malvada
que levantasse voo e depois fosse importunar
poetas sossegados em busca do seu pesar.

Agora passo toda a vida, grave, a duvidar,
acho tudo na terra reptiliano e hórrido,
e o Céu manhoso, perigosamente pérfido.

 

Peter Reading, Collected Poems, vol. 1: Poems 1970-1984, Bloodaxe Books, 1995

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CALEIDOSCÓPIO


A suspensão coloidal das nuvens no trânsito.
O número de habitantes de Singapura
(新加坡共和国, 5 000 000, [114.º]).
Estar de joelhos onde acabem as tuas costas.
A cor azul dos teus atacadores no tapete
da entrada. Uma péssima tradução de Aristóteles.
Andar para trás na Pan-American Highway.

Como não há semelhanças entre um vinil dos Smiths
e um moinho de vento? São ambos processos
de fragmentação: please please please
let me get what I want

Os solavancos homéricos do autocarro nas manhãs
onde não beijo ninguém. O crânio dançante das galinhas.
Saber que o jazz se ouve de barriga para o ar.
O rapaz que me disse aos 6 que eu era uma varanda
ensinou-me o que era uma metáfora. A + B = C.
Saber quantos fonemas tem a língua portuguesa.
Expulsar o gato. Ficar a sós com Schrödinger
na caixa. “Só plantará um jardim de cabeça para baixo
quem não ler a Historia plantarum”. Naná quem disse.
Uma ferida é a interrupção da continuidade do tecido
corpóreo. Nonsense Botany foi o que escrevi
num bilhetinho para Naná. Naná não respondeu. São 31.

Se Sócrates sorriu para a morte de dedo em riste,
por que não haveria eu de te sorrir na fila do metro?
A primeira nódoa na camisa foi a tua boca.
A indecisão do pássaro em afogar-se no charco ou
o primeiro salto dos jogos olímpicos. Pintar um quadro
numa praia de nudistas. O movimento centrífugo
que os mamíferos desenham antes de deitar-se.
Aprender que o amor não é um rondó: três couplets,
quatro ritornelos, um coração só, A-B-A-C-A-D-A
mão no seu lugar: aos ombros te carrego pelos lábios.
A tosse pneumática a 15 de novembro. As unhas raspadas.
O suicídio do hamster Tobias a 5 de janeiro. Cf. Werther.
A minha festa de aniversário em 1999. A tua saia. Tu.
O último massacre do Sudeste Asiático, quão caro está
o tabaco, o preço da papaia, uma nação nas meias.
Ser perpendicular à porta de tua casa. A vermelha,
que rodopiava. O lavatório, o queixo. Dois olhos
no espelho: girl, girl that I see,/ is there a literary-est
mirror than me?