O meu tronco nu

A outra metade seria 
a sereia enrugada, à venda 
numa banca do mercado em Samarcanda 
A sereia ressequida e embrulhada 
em papel de jornal 
 
O erotismo póstumo de uma sereia 
a quem levantassem a saia, ou a colhesse 
o arpão pela cintura. O meu 
tronco nu seria a praia 
onde a vinha encontrar um mercador 
 
Anelar, dividida ao estertor 
por um marinheiro bravo, ressente-se 
a sereia de sémen e suor, mas alicerça o canto 
 
mais acima, na prefloração da pelve 
em guelra ou maçã-de-adão, 
na várzea isquémica onde morre o peixe 
e restolha o sangue como a brisa entre a folhagem 

Sebastianópolis abandonada

É tamanha coisa o Rio de Janeiro da boca para dentro

(Gabriel Soares de Sousa)
 

                I 
         De madrugada mataram um rapaz aqui na rua. Os vizinhos me disseram que ele foi tirado da cama aos berros, todo mundo ouviu. Aí atiraram nele. Morreu de pijama, quase na altura da avenida da praia. Não tinha família, pelo menos isso – os vizinhos disseram. Assim ninguém sofre.
          Anteontem (23/05/2013) deixaram a cabeça de outro rapaz no colo da estátua do José de Alencar, ali perto do Lamas. Tenho o hábito de acenar para a estátua quando passo por ela. É quase sempre uma saudação morna – vivemos perto um do outro, olá, eu te reconheço e reconheço a cidade porque você está sentado aí há mais de um século. Raramente passamos da troca de cortesias. Anteontem eu acenei para uma cabeça decepada. Mal consegui almoçar.
          A estátua é verde. Tem uns olhos entediados, as coxas magras de quem passa muito tempo sentado. Um caderno quase caindo da mão esquerda. Parece exausta. Sempre achei que era um cansaço arrependido: José foi petrificado assim para expiar a culpa daquelas sete cartas de 1867, nas quais defendia a escravidão: "A escravidão caduca, mas ainda não morreu; ainda se prendem a ela graves interesses de um povo. É quanto basta para merecer o respeito". 

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Sangrar até secar

 Cortar uma veia para respirar mais livremente, como certos cavalos (Goethe em Werther). Respirar melhor quando a dama não nos deseja e nos sentimos outra vez, uma última vez  (juramos que é a última), abandonados. Como  no ano em que, entre promessas de um futuro esplendoroso, os progenitores se despediram para nunca mais voltarem. Como no ano em que começaram os abandonos. Para o ano que vem estamos juntos e depois felizes para sempre. Cortar as veias. O quarto escuro. Onde estão os teus casacos e a tua roupa suja empilhada?  Estancar o sofrimento. Os sapatos em que tropeçava, as montanhas de sapatos em que tropeçava, onde estão? Parar de somar dores. A felicidade e os sorrisos de outrora transformaram-se em dores. O amor que sinto por ti é uma dor. Hoje estás aqui e amanhã será a última vez. Nunca mais te vejo, restam fotografias e outras quinquilharias, como frascos de perfume em que te procuro.  Rastejo nestes tacos de madeira mal envernizados de que nos queixávamos, encontro cabelos, longos cabelos teus que guardo na carteira para nunca, mas nunca deixar de te ter. O que serão estas borboletas no estômago se não dores? Isto é o fim do mundo. Deus não dizia, não li na Bíblia que o fim do mundo teria lugar neste quarto vazio às duas da manhã. Não era suposto acabar assim. “Virar-se-ia para o tronco da árvore e desataria a chorar”, leio num livro de Kundera. Chorar por quem? Por mim, pelo amor que sinto por ti. Agarramo-nos a árvores e, egoístas, pedimos: mata-me com um tiro. Salvaste-me de mim mesmo, salvaste-me para me atirares para um buraco ainda mais fundo do que aquele em que estava quando me conheceste. Precisavas de Londres e de Nova Iorque e eu, travão, aparecia-te no sono como uma figura vilanesca que te atirava ao tapete. Não estive à altura dos teus sonhos, nem dos meus, quem é que está à altura do que quer que seja com esta casa vazia? Também aspirava a levar uma vida boa num país civilizado, talvez a dar aulas ou a escrever. Talvez a descascar batatas. Queria ir contigo para Boston.  Não me escreves. Foi ontem, foi hoje, quanto tempo se passou desde a última vez que te vi? Dois anos, uma hora, o desespero bate com a mesma intensidade. O telefone toca, é do banco, do não sei quantos card. O telefone toca outra vez, é da companhia telefónica. O telefone toca, não és tu. Certo como ser noite, sempre noite no meu quarto, é que eu e tu não nos voltaremos a ver. Mostro o meu desprezo pelo mundo morrendo porcamente. Pinto o teu nome a sangue na parede do quarto e no meu peito e no fémur e no chão e espalho gasolina e com um fósforo respiro mais livremente, corro sem me cansar. 

O ESPECTADOR EMANCIPADO

O ESPECTADOR EMANCIPADO

No passado dia 27 de Março comemorou-se o dia mundial do teatro, e eu tive a honra de ser convidado pelo amigo de longa data Miguel Graça, dramaturgo no Teatro Experimental de Cascais, para assistir à estreia da sua peça, ICTUS, no Estoril.

Este texto serve dois propósitos principais: §1) reflectir sobre a ontologia do teatro e o papel/lugar do espectador. §2) Recensear a peça ICTUS. Como introdução discutirei a relevância do dia mundial do teatro. Será pois um texto que pode interessar por partes aos leitores, façam o favor de entrarem quando quiserem e onde quiserem, saiam também quando muito bem entenderem.

§0

Os “dias mundiais” parecem resultar de exageros quase caricaturais, discriminação positiva profundamente culturalista e antropocêntrica (mesmo quando se trata de louvar a natureza, já que é uma natureza humanizada). Mas bem, é assim, e creio não ter forças para alterar o curso desta história, um milímetro que seja. Fiquemos, pois, com o que têm de positivo, no caso do teatro podem ser impulsos para se encenarem mais peças do que é habitual, estrear nesse dia é profundamente simbólico, e torna-se mais fácil envolver a comunicação social. Ainda que as pessoas continuem a ser felizes sem teatro. Uma das prerrogativas das sociedades capitalistas avançadas é terem alquimisado a felicidade: tudo pode dar prazer, massificaram-se os “pratos de lentilhas”. Contudo, tenho quase a certeza que sem teatro as sociedades ficam menos auto-reflexivas, mais pobres na capacidade e vontade de pensarem e fazerem promessas de futuro. 

O horizonte de afectos, de inteligibilidade e de acção política que este ano rodearam as comemorações do dia a nível mundial foi traçado pelo dramaturgo sul-africano Brett Bailey. No texto que escreveu como carta de intenções para esta arte encontrar o tom adequado ao espírito do tempo, refere que “Onde quer que exista, manifesta-se na sociedade humana o seu espírito irrepreensível de representação.” Por isso, a responsabilidade de quem faz parte do mundo do teatro é de uma exigência assustadora: figurar nos palcos esses impulsos primordiais do humano. Bailey compõe depois um pequeno manifesto contra as injustiças sociais e a degradação ambiental, dizendo que as artes, do palco ou outras, devem fazer parte da agenda social, influenciar as decisões políticas para se alterar o statu quo ante. Tudo correcto, e creio que sincero. Já não é preciso pertencer às esquerdas libertárias/teleológicas ou sair de um mosteiro para sentir um profundo nojo perante a porcaria de sistemas político-económicos que impõe a pobreza mais extrema a uma parte significativa das suas comunidades. Já não é preciso ser um ecologista fundamentalista para combater aquilo e aqueles que conspurcam, destroem os locais mais naturalmente belos do planeta; para defender com unhas e dentes a sustentabilidade ambiental como uma das primeiras prioridades das agendas política e económica; para lutar a favor de um estatuto jurídico para os animais não humanos, distinguindo-os legalmente de meros “objectos”. Percebe-se mal que ainda não lhes tenhamos atribuído garantias legais que os dignifiquem e protejam da voragem aniquiladora dos humanos.

Como referi, vou dividir o que resta deste artigo em dois §, no primeiro falarei da questão do espectador, sobretudo a partir de Nietzsche, textos de juventude, e Jacques Rancière (Le Spectateur émancipé / O Espectador Emancipado). No segundo recensearei ICTUS, encenado por Carlos Avilez, no Teatro Experimental de Cascais (até dia 27 de Abril).

 

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