«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
Ateologia
/“Se Deus não existe então tudo é permitido!” (Dostoievski).
Jacques Lacan inverte a fórmula.
Porque a existência de Deus é, creio, uma espécie de rede que nos apara quando escolhemos o mal (neste pequeno texto a crença e realidade confundem-se). Podemos ser castigados em modo tragédia, levar com a espada de Dâmocles no meio da cabeça, sofrer uma vingança servida fria... Mas com a companhia de Deus (não interessa o desenho ontológico) quando escolhemos o lucífero há ainda a esperança do perdão ou do sofrimento redentor, no fundo que Deus reponha a ordem.
Uma rede que não nos deixa cair em tentações indescritíveis vai sendo tecida para evitar que construamos, por nossa conta e risco, um grande interdito, uma auto-censura mil vezes pior do que a do Inferno. Sem a moral divina talvez nos tornássemos hiper-morais, em cada um de nós, constato isso todos os dias, vive um Tomás de Torquemada.
ogede
/a mulher tem a noite
que acalma os meninos
tem no olho
e tem no útero
De «Cenas de uma vida conjugal»
/A noite num punhado de fábulas,
amarelecida de prazer, curtida
de fulgor e música decepada.
Estamos soltos – e retomo a
cabeça em minúsculo chocalho
contra o tempo dos outros –
com o som final em torno da garganta
e o estremecimento ridículo do pé.
A película quente da terra nos dentes,
vou amanhecendo no andar. Obedecer
aos gorgolejos sincopados do coração:
estou longe da tua voz, finalmente.
