EU E MINHA PRIMA MÍOPE

 -me salve
-você conhece aquele poema que descreve um casal dormindo?
-e que começa falando das partes do corpo que estão em contato
-"o queixo dela nas costas dele" -"o ombro dele no cotovelo dela"
-"o calcanhar dela na coxa dele"
-de uma forma que até um determinado ponto poderia ser tanto a descrição de uma briga
-como de uma transa entre contorcionistas
-mas no final dá pra perceber que é só um casal dormindo de conchinha
-e apesar do início do poema passar uma sensação de desconforto físico
-ele termina com algo parecido com
-"pelo menos assim parece/que eles estão indo na mesma direção"
-nossa, eu consigo quase reescrever o poema na cabeça
-mas não tenho idéia de quem seja
-de qual é o título
-se o autor é brasileiro ou não
-nem de onde o li pela primeira vez
-estou há duas horas no google tentando achar e nada

Mestres e sinos partidos: sobre «The Master of Petersburg»

 

‘I am far from being a master,’ he says. ‘There is a crack running through me. What can one do with a cracked bell? A cracked bell cannot be mended.’ A frase, dita pela personagem de Dostoievsky em The Master of Petersburg, captura uma das características mais difíceis de definir com precisão sobre os romances de Dostoievsky, um peso metafísico que define as personagens e as suas acções. Isto é uma nota possível sobre como o romance de J. M. Coetzee transporta o universo dos livros de Dostoievsky para um romance sobre Dostoievsky.

O romance centra-se num episódio da biografia do autor, o suicídio do jovem Pavel Isaev, filho adoptivo de Dostoivesky, de quem ele se torna único guardião após a morte da primeira mulher, Maria Isaeva. Muita da reconstituição biográfica do romance depende provavelmente da monumental biografia de Joseph Frank, Dostoevsky: A Writer in His Time.

O centro da acção é o processo de luto. Dostoievsky viaja de Dresden para São Petersburgo depois de receber a notícia da morte e depois de Pavel já ter sido sepultado. Aparentemente, não há muito que Dostoievsky possa fazer além de visitar a sepultura, recolher os pertences do filho e regressar a Dresden. Dostoievsky isolado no seu luto, oculto em São Petersburgo para não despertar a atenção dos muitos credores deixados para trás, Dostoievsky a tentar reconstituir os passos de Pavel, a tentar conhecê-lo o mais verdadeiramente possível, fora da sua perspectiva de pai, recuando até tentar entrar na perspectiva de Pavel.

A narrativa do luto de Dostoievsky não é uma narrativa de perda. Não é sobre consolo, resignação, substituição. É sobre a luta contra a dor. A dor que não se pode converter no substituto de Pavel. E Dostoievsky tenta puxar todos os nervos de que ela é feita para que também ela comece a bombear vida. Quando os críticos da tragédia grega tentam descrever como ela não oferece consolo mas fortalece, é disto que falam. 

De onde vem o peso metafísico nos romances de Dostoievsky? Não é uma coisa exterior às personagens, embora elas o projectem para fora de si até ele se tornar tangível nas suas vidas. É uma parte do que elas são, que contagia inevitavelmente tudo o que elas fazem. Uma espécie de compulsão que não pode ser evitada.

Todas as coisas que podiam redimir Dostoievsky falham, todas as coisas em que ele podia encontrar consolo: o amor de uma amante, descobrir o que aconteceu a Pavel, a evolução do seu pensamento político, sexo, o futuro na Rússia. Todas estas coisas se vão convertendo em outros tantos aspectos do seu combate com o luto. Como arrancar o corpo de Pavel sepultado numa ilha debaixo de neve e trazê-lo de volta à vida: estes são os termos em que Dostoievsky escolhe perseguir o seu luto.

No fim é o amor a Pavel que salva Dostoievsky. Não aquele que está com ele no princípio, quando ele regressa a Petersburgo, mas o que cresce a partir do fim, quando nenhum dever se pode contar como redenção. Nesse sentido, The Master of Petersburg é um romance sobre os limites do amor. O livro de Coetzee ensina-nos que eles não existem. 

Carmina Suburbana

Precisa-se de um nevermore, more than ever,
Mas nenhum perigo de pássaro ominoso
Se engancha no umbral da garganta,
nenhuma mão se espeta num prego,

As rugas da espera são de expressão apática-
Sem drama nem tragédia, porque nada,

Nada acontece, nada impõe a vida panicável
da sua presença, com os sentidos retesos,
puxados até mais não num alarido de alarmes
em parque de estacionamento

Nada, absolutamente, as coisas sucedem-se
numa célere redundância de carrossel,
de cores baças, confundíveis, indistintas,  
sem gritaria, gozo nem vertigem
de feira, cíclicas,

Sempre as mesmas no relógio não rodando
tédio nem desespero, não parado no seu loop
mecânico de ponteiros sem som
ou mutismo impessoal de smartphone,

Com a lei do espírito do tempo sombreando,
Os homens-sujo-mostruário, sem nenhuma
Assombração, monstro, ameaça, apocalipse,
Castigo, némesis,

Vigiando esta escrita de severidade franzida
de sobrolho matemático, esta área sem ária,
leve ausência de metáfora, sinédoque, tropo, milagre,
qualquer coisa

Uma coisa que seja que em causa ponha,
subvertendo com a santidade musical do seu caos,
a ordem genérica das não-espantosas coisas 

Demasiado reais, içando-as içando-as em ombros
operaticamente oh fortuna oh fortuna
corais acima da sua própria condição

Redoma

 

Para a Rita

  

Falou-se tanto disto naqueles meses que enjoei. Houve quem ficasse farto e indiferente de tanta informação; a desinformação, as acusações pífias e as omissões cruzadas, a mim, causaram-me náuseas. Em Atenas, na sede do Parlamento Mundial, só anarquistas e colectivistas foram activamente contra; os escandinavos (voto quase sempre neles), os liberais, os conservadores, até algumas correntes libertárias foram a favor, chegaram mesmo a compromissos para os artigos da lei final. Desvalorizei que os populistas (ou, como se auto-intitulam, os «democratas de proximidade»), para além de mais estridentemente a favor, tivessem sido fundamentais nas negociações. Infelizmente para mim, nem sempre vendo cara a minha confiança.

 Até da educação e da cultura desviaram fundos para tornar possível a Renovação Democrática, como apelidaram o programa transnacional, o «plano de educação pública mais eficiente e ambicioso da História». Sem dúvida que é eficiente e ambicioso. Também é renovador: querem-nos como que de outra natureza. Com suficientes estudos académicos e a tecnologia certa em mãos não há como demover a vontade política, nem o reforço policial e securitário que a possibilita. E se a vontade política é a de, apregoam, tornar-nos mais empáticos, menos capazes de magoar os outros, quem ousa criticá-la em público? Nem lhe dariam tempo.

 Há cinco anos, cumpridos hoje, recebi a carta com que simpaticamente me compeliam a ser operado. Não tinha na altura, e não tenho hoje, dinheiro para a multa caso me apanhassem sem aquela coisa no cérebro. Naquele tempo obrigavam-nos a ter o chip e a punir os outros com um comando, decidindo de forma consciente (não esquecerei esta sordidez). Aplicávamos democraticamente choques eléctricos, mais leves ou mais fortes, dependendo de quão ofensivamente nos abordassem. Tanto quanto soube, a malta do politicamente correcto vivia dividida, mas eram tão pequeninos, a ponto de nunca expressarem dúvidas em público. Através do chip, o Sistema de Segurança Mundial detectava e registava automaticamente vocábulos atentatórios e tinha o poder de convocar judicialmente quer quem os proferisse, quer quem os ouvisse e não os punisse aplicando a voltagem adequada. A imprensa do sangue nunca viveu tão feliz: relatava abusos ultrajantes, desde vinganças arrepiantes aos crimes dos ultra-zelosos que humilharam familiares e amigos. Depois da confusão inicial, e dos processos que entupiram os tribunais de meio mundo, os inúmeros protestos pareceram-me servir de algo.

 Mas foi pior o que se seguiu, o que temos hoje. Não há comando, mas actualizaram o software do chip, agora ligado directamente aos neurónios. Acabaram os julgamentos arbitrários, só corrigíveis, mas nunca reparadores, pela Justiça; agora somos como doninhas mecanizadas: reagimos ao inesperado lançando imediata e inconscientemente secreções eléctricas sobre quem nos aborda de modo minimamente inesperado. Isolamo-nos, policiamos cada palavra que gostaríamos de proferir. É esta, sobretudo esta, a renovação com que nos tornaram mais democráticos: fraternos por compulsão, acabamos fechados nos nossos pensamentos, que raramente verbalizamos. Respeitamo-nos por educação (coisa que basta aos partidários da ordem acima de tudo), enquanto dentro de nós desfalecemos de medo, e elogiam-nos como a primeira civilização verdadeiramente democrática.

 Tenho a sorte de saber mais: até o belo, até o infinitamente belo, tem de existir no seio do podre. Recentemente tive a suprema felicidade de encontrar a mulher da minha vida (sei-o porque me é óbvio), a única pessoa com quem não tenho medo de conversar. Falo-lhe como se me falasse ao espelho; só por descuido poderia magoar uma pessoa que só me tem dito o que eu lhe diria se me tivesse ela feito as mesmas perguntas. Só com ela me sinto aliviado do auto-controlo que me implantaram no corpo. Ainda não chocámos, o que nos vem distinguindo da quase totalidade das relações humanas nestes dias. Isso tem-nos tornado inseparáveis, ainda que conscientes de que o risco de nos magoarmos é directamente proporcional ao nosso amor, que cresce dia após dia. Mas nada disso nos tem demovido de continuar.

 Ouvi um qualquer deputado, não lembro de que país, dizer que o fim último da Renovação Democrática é a pureza de sentimentos e comportamentos com eles concordantes. Sou por vezes crédulo, como disse, mas duvido quase sempre das intenções de quem me governa – porque tem, e sabe que tem, poder sobre mim, e porque se chegou a essa posição de poder foi porque o convidaram e aceitou, quis-se poderoso. É por isso que nem o sublime desta relação saboreio despreocupadamente: sou um privilegiado, sim, e aspiro as palavras dela como oxigénio. Mas, porque a amo, sinto-me duplamente auto-censurado, não só por não me livrar do juízo deles em mim, como todos os outros mortais, mas sobretudo por nada poder fazer (sem que me magoem) contra esta busca colectiva de pureza prostituída, que atemoriza e adia o amor. Por isso escrevo.

Oração fria de Antonio Gamoneda

A arte de traduzir é, simplesmente, uma das mais elevadas e secretas. Poucos humanos conseguem levar poemas para uma outra língua com essa estranha e árdua fidelidade que reproduz a ebriedade, o ritmo, e o pensar cosido à música da vida da qual nasce o poema. Mais difícil ainda frente ao sentir popular, é fazer viajar a poesia para uma língua aparentemente familiar ou próxima. Mudar, verbo escolhido por Helberto Helder para este facto sagrado que sempre convoca a apropriação de outra voz e a recriação oral e escrita do poema, um verbo que, Gamoneda aceitou e recebeu com gosto. Sempre tem que ser um poeta a mudar a voz de outro poeta e sempre que isto acontece nota-se logo a partir do início da leitura.

            E é neste caso, o labor de João Moita que atesta da validade de todas estas intuições: não só a escolha de poemas de Moita é feliz como a tradução aparentemente mais fiel e menos mudada parece apontar uma facilidade de trabalho que talvez na verdade não exista. Talvez por uma das qualidades essenciais da poesia deste autor espanhol ser a própria musicalidade e a simplicidade do verso, facilite e até explique em grande medida a magnífica e bem-sucedida antologia portuguesa do autor.

            Como dizia, a apresentação da vida e da obra do autor feitas pelo antologista são muito pertinentes e oportunas para o leitor português. A antologia que tem como base uma outra recolha aparentemente definitiva feita pelo autor (Esta luz. Poesía reunida (1947-2004), Galaxia Gutenberg, 2004) é uma boa oportunidade para estabelecer um diálogo panorâmico com esta voz imprescindível pela autenticidade da sua voz ímpar, e onde a musicalidade e o pensar poético se encontram absolutamente fundidos.

            É preciso notar também que a antologia efectuada por João Moita acrescenta cinco poemas presentes no último livro, até ao momento, de Antonio Gamoneda: Canción Errónea. Facto que considero deveras importante por se tratar de um livro que no meu entender supõe um píncaro essencial da obra do autor, uma espécie de planalto a partir do qual a voz poética olha o passado e a ausência futura. A inclusão de alguns poemas deste livro facilita, melhora e acolhe uma necessária impregnação da obra do autor na perspectiva do tempo. Canción Errónea é um livro que supõe a maturidade total da voz e a sabedoria poética, onde alguns dos poemas fazem arrepiar pela profundidade e clareza da voz na perspectiva deste tempo ou desta morte vivida que é sempre a poesia: [...]Amo este corpo velho e a substância/da sua miséria clínica. /O esquecimento / dissolve a matéria pensante  /diante dos grandes vidros / da mentira. /Já /tudo está dirimido. / Não há causa em mim. Em mim não há /mais que cansaço e /um extravio antigo: /Ir /Da inexistência /à inexistência. /É /um sonho. /um sonho vazio /mas acontece. /Eu amo /Tudo quanto cri /vivente em mim. /Amei as grandes /mãos da minha mãe e /aquele metal antigo /dos seus olhos e aquele /cansaço cheio de luz /e de frio. /Desprezo /a eternidade. /Vivi /e não sei porquê. /Agora hei-de amar a minha própria morte /e não sei morrer. /Que equívoco.

            Poética vital, poesia vital que intensifica a vida. Assunção do mistério, diálogo com o invisível, reconhecimento do rosto na memória, consciência e afirmação da presença na ausência futura, vivência do corpo informe do símbolo, criação da beleza no impossível, são elementos essenciais de uma poética que resulta já imprescindível no nosso confuso tempo de poéticas barrocas, instranscendentes, superficiais e pacatas, cheias de um sentir quotidiano situado fora da imanência do sagrado que a vida impõe. Só na humildade, na aceitação profunda do símbolo poético pode nascer uma poesia autêntica e intemporal, onde nenhuma palavra é decorativa senão essencial, palabra esencial en el tiempo, definição da poesia de Antonio Machado que bem honra a escrita de Antonio Gamoneda. Quem queira penetrar no segredo da poesia que foge do acidental, quem queira fugir da poesia que nasce da experiencia passageira e intrascendente, acidental, deverá ler estes versos.

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