Sexta Conjugação, 6

Não sabiam sequer que navegavam
por mais mar que houvesse.
Para eles a água não tinha terra
como quando aprenderam a ter sonhos
e a calar o que aprenderam.
Numa parte deles nasceram âncoras
que os fizeram por pouco tempo pescadores,
chamando redes à sua prisão de cais.
Outros foram morrendo afogados
à procura de terem de respirar.
Outrora não havia rios nem ventos
e os vulcões faziam falésias no gelo,
e os roncos dos meninos adormecidos
mimavam as luas que se formavam.
O tempo de uma esquisita chuva
que se vertia como um pássaro
e sibilava como uma áspide.
Tomavam o seu veneno de madrugada -
se soubessem onde estava o norte -
e já quase doentes comiam o que havia.
Quem nasceria primeiro, que ruína
faria templos na memória deles?
De quem há eco só a poesia
guarda o pouco que se perdeu,
aquele nada de milhões de pensamentos
que faz uma espécie ter música
e nascer para navegar.

Notas tiradas na pastelaria

Negras fúrias, negra fúria, coração, cabeça. Pensava em títulos para um novo blogue. Pensava e lia no metro, lia enquanto caminhava, lia rodeado de sovacos apodrecidos, de brutamontes habituados a cumprimentar com encontrões o cidadão introvertido. Lia algo desapontado A Death in the Family, de Karl Ove Knausgaard. Não que o livro não fosse bom, que não merecesse todos os elogios que recebeu de James Wood. Quanto maior é a expectativa, maior é a desilusão. Li o livro em dois dias, ansioso por encontrar aquilo que todos encontraram, e nada encontrei que me desse vontade de comprar o segundo de uma obra de seis volumes, tão pretensiosamente apelidada de A Minha Luta. Habituado que estou a assumir a culpa (por tudo), aceito que me possa ter escapado algo, que exista imensa profundidade na obra de Knausgaard. A culpa é nossa. A culpa é minha. Se James Wood elogia, quem sou eu? Quem sou eu em comparação com quem quer que seja? Só posso ser responsável pelas minhas palavras. Responsável por dizer: acho obra x cinzenta, cinzenta. 

Entro às nove e meia da manhã na pastelaria cheia. Com o calhamaço de capa dura aberto na página duzentos e tal, custa-me segurar tabuleiros e levar com os empurrões da turistada frenética. Peço um sumo de laranja e um croissant misto com manteiga. Repito porque não me ouvem. Um sumo de laranja com duas pedras de gelo. Sem croissant e sem manteiga que a manhã veranil encharca-me a roupa de suor. Leio o melhor de Knausgaard cercado por japoneses fanáticos por máquinas digitais. Eis um excerto daquilo que mais me cativou na obra do nórdico: “When you didn’t just see the incomprehensible in it but came very close to it. Something that didn’t speak, and that no words could reach, consequently forever out of our reach, yet within it, for not only did it surround us, we were ourselves part of it, we were ourselves of it.” Trata-se de uma parte do livro em que se fala da nossa necessidade de tornar compreensível o incompreensível, de intelectualizar tudo, até a morte, até a morte do pai. A necessidade de enterrar um corpo, de esconder o pavor para que possamos continuar a viver sem receio do desconhecido. 

Li algures que a obra de Knausgaard revelava muito da sua vida. Talvez tenha sido o próprio escritor que numa entrevista terá dito que despejou a sua alma nestes livros. Chegamos aos factos. Como é que um escritor lida com os factos? É possível escrever sem escrever sobre a realidade que nos rodeia? Philip Roth refere em The Facts que a ficção começa nos factos. Esta frase, óbvia, tem levado muitos leitores ao engano. Começar nos factos não quer dizer que se acaba nos factos. Escrever sobre um tio não é a mesma coisa que tirar uma fotografia de um tio. É a escrita. Começa-se num facto. Por exemplo: o tio cuspiu-me. E a partir daí chegamos ao espancamento e à vingança daquele que foi cuspido. Podemos escrever memória. Podemos tentar fazer a nossa auto-biografia. Quando somos escritores, só sai ficção. Esta é uma ideia muito importante, a de que não há para o escritor a hipótese de escolher entre ficção e realidade. Para o escritor só há ficção. É aqui que me aborrece pensar em Knausgaard. Estamos perante uma ficção sem estilo. Uma ficção desinteressante. Uma nuvem cinzenta. 

Rouge

saindo de lisboa lia um livro sobre lisboa 
sobre os jardins coloniais de lisboa 
aquele café do lado da torre de belém 
sobre o aqueduto e as meninas de óculos redondos 
de lisboa e sobre os senhores que falam francês 
quando em lisboa não se fala francês 

também sobre a procissão das quatro da manhã 
do bairro alto até o cais do sodré 
sobre como meus olhos brilhavam e você dizia 
regarde, le sol est rouge 
sobre como a rua estava tomada de gente dizia 
rouge! rouge! 

percebe as coisas se esfregam de um jeito 
os livros não 
mas o caminho da augusta até o tejo 
e os comerciantes e as drogas que não fazem efeito 
e as lojas de chapéu e as pastelarias 
e a fila para a cidade subterrânea: apenas três dias ao ano 

sobre como meus olhos brilharam quando um rapaz 
já no último dia bem no fim da fila 
quando deveríamos dizer: já não há mais tempo 
lia um livro sobre o brasil e sobre as coisas do brasil 
e sobre o o rio de janeiro do passeio público 

foi então que percebi 
exatamente então que percebi (ou seria o barulho do elétrico?) 
que nunca tinha lido nada sobre lisboa 
que nunca levaria nada de lisboa 
que lisboa para mim seria a mesma coisa que é 

o domingo quando o parque fica aberto 
a forma como o motorista do autocarro me diz pronto já está 
seu sotaque bem longe de um sotaque de lisboa 
ou os nomes 

saber o nome das ruas de lisboa não é saber lisboa 
saber o caminho para o miradouro (e chegar 
ainda com o sol dentro de uma parte da vinte 
e cinco de abril) não é saber lisboa 
como um tipo lendo o livro sobre o brasil não é saber o brasil 
como partir em um par de dias não era estar no brasil 
                                                 era: não estar em lisboa 
                                                 era: não 

como estar no brasil não é ser tropical 
não é ter em casa palmeiras não é discutir futebol 
cherrie, você não sabe o que é o futebol 

hoje suas insinuações de vir me agradam 
muito mais do que a presença por isso 
planejo uma vingança sem precedentes 

esse chão amarelo limpo 
essa decoração azul 
a casa ainda sem móveis 
você dançando bêbado por exemplo 

Ética e Estética mortíferas

Este cliché passaria por uma variação bem-aventurada da técnica perspectívica da pintura renascentista, reprodução imagética à procura da exacta adequação à visão humana. Porém, o enquadramento geométrico é atacado, de todos os lados, por facadas de dor, angústia e morte  (um rastro subtil leva-nos até à Última Ceia de da Vinci, na técnica da composição e na atmosfera tanatológica). Os sinais de balas na parede, os restos de sangue denunciando um corpo/alma escorregando contra ela até ao pó da terra, a figura feminina aparando uma tristeza infinita, capaz de suspender o tempo pela falta de esperança que o passado sanguinolento projecta no futuro. Uma parede frágil, fragmentada, disposta a cair, testemunha material da vida (cada vida é a vida toda) que a procurou para se agarrar ainda à luz, talvez, num último esgar de lucidez, sufocando com o absurdo de se apagar tão cedo. Lá dentro, no centro do ponto de fuga geométrico, continuam outras vidas  (invertendo a realidade de A Última Ceia: o transcendente passa a imanente), uma árvore, outras pessoas, e, podemos imaginá-lo, sons e gestos.

No meio disto tudo, assusta-nos a beleza apolínea da imagem, o juízo de gosto achar belo um lugar mortífero. O extremo equilíbrio da composição, a paleta de cores, a centralidade do feminino..., nada convida, sem a vocação actual para a interpretação trágica, a olhá-lo com uma consciência ao mesmo tempo revoltada e resignada à condição desta humanidade esquecida da bondade, que, apesar de tudo, lhe é própria (queremos acreditar nisto). É como se começássemos este século apostando tudo numa ética da destruição maldosa, um estilo de vida que deseja a morte. Falou-se muito de algo semelhante entre as duas Guerras (Freud em particular, com o par eros/thanatos), mas agora aliamos uma tecnologia que mata à distância (como o Apolo mítico, aliás) com lâminas afiadas degolando ou enterrando-se no corpo para rasgar o interior frágil, mas vital, que lhe dá a vida. Voltamos a resvalar para uma “banalidade do mal”, hoje, como quando Hannah Arendt cunhou o termo na reportagem sobre Eichmann (esse insignificante homenzinho que conduziu à morte centenas de milhares de seres humanos com a eficiência burocrata de um bom gestor de transportes nazis), viver parece valer menos que um prato de lentilhas. Voltamos a ignorar o que fazer do extraordinário dom da vida, preferimos-lhe cada vez mais a morte, uma ética e estética do mortífero, olhe-se para as encenações imagéticas e discursivas dos mártires actuais, onde a ética recorre ao teológico e a propaganda à estética pimba de festas provincianas.