O Poeta Despede-se de Algo Infinito

Hei de regressar
mas será no inverno
em alguma casa
diante da praia:
o tédio, o sal,
a pele ferida,
ferrugem que a noite
põe nas dobradiças
das portas quebradas
e no coração
que ficou – brinquedo
também esquecido,
carrossel de ferro
que ainda gira entre
risos e ruínas.

No imenso amanhã
o início da chuva
lava até os ossos,
as gaivotas somam
o branco ao branco,
sombras e memórias
(bafejo de nada)
hei de regressar
na aurora depois
das questões inúteis:
brindar com arsênico,
abrir os pulmões
ao vácuo estelar,
escavar a luz
nos subterrâneos.

2. 

No imenso amanhã
um bafejo de sal
o início da chuva
que lava até os ossos
as gaivotas somando
o branco ao branco
e eu de regresso
sombra e memória
na aurora depois
das cogitações inúteis:
beber arsênico
abrir os pulmões
ao vácuo nas nebulosas
escavar a luz
no claustro subterrâneo
abandonar o meu nome
à sorte das raízes.

Um novíssimo veterano

Falar de poesia leva-nos quase sempre a falar de nós. A frase soa a lugar comum, a qualquer aforismo barato de redes sociais, mas se o enquadrarmos em determinados contextos é tão evidente quanto inevitável. É isso que sinto quando falo da poesia de Hugo Milhanas Machado, poesia que me está vizinha (roubando um certo sintaxe italiano aqui), mas sobretudo uma poesia que pude ver crescer ao longo dos anos. Sim, conheço o Hugo há mais de uma década; sim, tenho com ele uma forte amizade praticamente desde o primeiro dia; sim, no nosso percurso há muitos mais encontros que desencontros, como a Cooperativa Literária e callema, que valente e orgulhosamente erguemos com a malta, as bancas de poesia na FCSH e, caramba, porque não?, o Nauseabundo, onde nos divertíamos e conseguíamos chatear. Mas é esse percurso comum que nos faz tantas vezes ser mais críticos do que os críticos em si. Crescer, neste meio, é resistir a modas, a simpatias e sobretudo a clones. É saber encontrar a sua voz e não escrever com as mesmas palavras que já foram repetidas. É usar o léxico da forma mais simples possível mas também mais semanticamente cheia. Para mim isto é poesia e é o que o Hugo faz.

Dentro destas últimas palavras, Hugo Milhanas Machado – o poeta – é dos que mais me chama a atenção dentro na nova geração. O porquê pode levantar várias questões, mas será de consenso geral que a linguagem poética por ele apresentada é sem dúvida diferente e, mais importante, nova. É também um autor arrojado no sentido experimental, recorrendo a um léxico que não se encontra em mais nenhum poeta actualmente em Portugal, além de explorar muitas vezes campos semânticos que saem totalmente daquele que é considerado o cânone. Partindo de uma experimentação para uma concretização linguística totalmente nova, HMM pratica a ruptura não através da temática e da insatisfação objectiva, mas sim da linguagem. Rompe não só com as gerações anteriores mas também com aquela que será a sua própria geração. Tomemos como exemplo este seu novo poemário, Onde fingimos dormir como nos campismos.

Passados quase dez anos da publicação de Poema em forma de nuvem, a evolução na poesia de HMM é não apenas notória mas sobretudo admirável. Neste novo poemário encontramos um poeta muito maduro, muito seguro no seu ritmo e na arte poética. Tal como um baixista ou um ciclista, alguém que se mostra já calejado nestas andanças. HMM escreve aquilo que vê, como vê, mas também como o sente. E como sente constrói a sua linguagem não através de frases memoráveis ou versos que lembremos isoladamente: a sua poesia é una, são vários poemas divididos por capítulos mas que se podem ler como um único poema, um poema em continuação. Quando no poema “o encosto” se diz: “Mas a técnica melhora/ e sei acumular a maneira do gosto”, provavelmente a intenção não seria a de se definir a ele próprio, ou talvez sim. A questão que fica latente é a de uma poesia cerebral, ainda que humilde do ponto de vista da pretensão. Não quer ser, é. O querer ser não o faz ser. Ou como diz “outra pedra parecida”, “nenhuma voz se parte a falar”. Mas seria injusto para o leitor estar a desvendar interpretações que se querem tão pessoais, estar a retirar toda a possibilidade que uma língua pode concentrar nos seu aspecto físico.

Essa linguagem como possibilidade – pedindo o nome emprestado a um seu ensaio – colocam-no num patamar diferente e sobretudo faz dele o que de novíssimo nos oferece a poesia contemporânea em Portugal, ou aquilo que Joaquim Manuel Magalhães se referia no seu Projecto:

 “O que pode ou não surgir como novo, como muitos muito bem sabem, não depende estritamente da vontade de produzir o novo e ainda menos da aprendizagem de como produzir o cânone do novo de uma determinada época. A novidade é um condicionamento que rompe dos contextos tornado dominantes de toda uma realidade epocal.”[1]

Este ensaio escrito em 1989 já apontava para alguns problemas que iriam subsistir, e talvez ainda subsistam, como por exemplo o do excesso prosaico na poesia de então e que se tornou um modelo para os anos que se seguiram. Esse verso livre, verso em prosa, teria de ser substituído pelo fulgor e pujança da silaba métrica, ou como lhe chama Magalhães, do “equilíbrio polifónico” que marcasse a diferença. Recorrer à tradição para romper com a modernidade. Passados quase 25 anos não encontro melhor justificação do que esta para dizer o porquê de Hugo Milhanas Machado ser algo de diferente. Algo novíssimo.

 

[1] Joaquim Manuel Magalhães, Um pouco da morte, pág. 175, Editorial Presença, Lisboa, 1989.

«Salsa», Rita Dove

Tradução de Nuno Quintas

 

1. As Plantações

Um papagaio imita a primavera
no palácio, de plumagem verde-salsa.
Do pântano emerge a cana

para nos assombrar, e cortamo-la. El General
busca uma palavra; ele é o mundo
inteiro. Como um papagaio que imita a primavera,

deitamo-nos aos gritos enquanto nos perfura a chuva
e brotamos verdes. Não conseguimos dizer um r —
do pântano emerge a cana

e a montanha a que em rumores chamamos Katalina.
Os miúdos roem pontas de flecha.
Um papagaio imita a primavera.

El General encontrou a sua palavra: perejil.
Quem a disser vive. Ri-se, os dentes cintilam
no pântano. Emerge a cana

em sonhos nossos, açoitada por ventos e arroios.
E deitamo-nos. Por cada pingo de sangue,
um papagaio imita a primavera.
Do pântano emerge a cana.

 


2. O Palácio

A palavra escolhida pelo general é salsa.
É outono, quando a mente se ocupa
do amor e da morte; o general pensa
na mãe, como morreu no outono
e ele plantou a bengala dela no túmulo
e ela floriu, fria, formando todas as primaveras
flores de quatro estrelas. O general

calça as botas, pisa o palácio até
ao quarto dela, o que não tem
cortinas, o que tem um papagaio
num poleiro de latão. Enquanto anda pergunta-se:
Quem posso matar hoje. E por um instante
o nozinho de gritos
cala-se. O papagaio, que veio

este caminho todo da Austrália numa gaiola de
marfim, pratica, no recato de uma viúva,
a primavera. Desde a manhã em que
a mãe desmaiou na cozinha
quando fazia doces com a forma de caveiras
para os Finados que o general
detesta doces. Ordena que se traga
bolos à ave; chegam eles

cobertos de açúcar numa cama de renda.
Vai-se contraindo o nó na garganta;
vê as botas no primeiro dia de batalha
com pingos de lama e urina
enquanto um soldado lhe cai aos pés estupefacto
— como tinha um ar idiota! — ao som
de artilharia. Nunca pensei que cantasse,
disse o soldado, e morreu. Agora

o general vê as plantações de cana
de açúcar, açoitada por ventos e arroios.
Vê o sorriso da mãe, os dentes
que roem pontas de flecha. Ouve
os haitianos cantarem sem rr
enquanto agitam os grandes machetes:
Katalina, cantam, Katalina,

mi madle, mi amol en muelte. Sabe Deus
que a mãe estúpida não era; conseguia
enrolar um r como uma rainha. Até
um papagaio consegue enrolar um r! No quarto nu
as penas garridas arqueiam-se numa paródia
de verdura, enquanto as derradeiras migalhas
somem, pálidas, sob a língua enegrecida. Alguém

brada o seu nome numa voz
tão parecida à da mãe, pinga uma lágrima
surpresa na biqueira da bota direita.
Minha mãe, meu amor na morte.
O general recorda os raminhos verdes
que os aldeões punham nas capas
para honrar a morte de um filho. Vai
ordenar que, desta vez, se matem muitos

por uma palavra só, bela.

 

 

Notas: A 2 de Outubro de 1937, Rafael Trujillo (1891–1961), ditador da República Dominicana, ordenou a matança de 20 mil negros por não conseguirem pronunciar a letra r em perejil, palavra espanhola para «salsa».

 

 

 

 

1. The Cane Fields

There is a parrot imitating spring
in the palace, its feathers parsley green.
Out of the swamp the cane appears

to haunt us, and we cut it down. El General
searches for a word; he is all the world
there is. Like a parrot imitating spring,

we lie down screaming as rain punches through
and we come up green. We cannot speak an R—
out of the swamp, the cane appears

and then the mountain we call in whispers Katalina.
The children gnaw their teeth to arrowheads.
There is a parrot imitating spring.

El General has found his word: perejil.
Who says it, lives. He laughs, teeth shining
out of the swamp. The cane appears

in our dreams, lashed by wind and streaming.
And we lie down. For every drop of blood
there is a parrot imitating spring.
Out of the swamp the cane appears.
 
 

2. The Palace

The word the general’s chosen is parsley.
It is fall, when thoughts turn
to love and death; the general thinks
of his mother, how she died in the fall
and he planted her walking cane at the grave
and it flowered, each spring stolidly forming
four-star blossoms. The general

pulls on his boots, he stomps to
her room in the palace, the one without
curtains, the one with a parrot
in a brass ring. As he paces he wonders
Who can I kill today. And for a moment
the little knot of screams
is still. The parrot, who has traveled

all the way from Australia in an ivory
cage, is, coy as a widow, practising
spring. Ever since the morning
his mother collapsed in the kitchen
while baking skull-shaped candies
for the Day of the Dead, the general
has hated sweets. He orders pastries
brought up for the bird; they arrive

dusted with sugar on a bed of lace.
The knot in his throat starts to twitch;
he sees his boots the first day in battle
splashed with mud and urine
as a soldier falls at his feet amazed—
how stupid he looked!— at the sound
of artillery. I never thought it would sing
the soldier said, and died. Now

the general sees the fields of sugar
cane, lashed by rain and streaming.
He sees his mother’s smile, the teeth
gnawed to arrowheads. He hears
the Haitians sing without R’s
as they swing the great machetes:
Katalina, they sing, Katalina,

mi madle, mi amol en muelte. God knows
his mother was no stupid woman; she
could roll an R like a queen. Even
a parrot can roll an R! In the bare room
the bright feathers arch in a parody
of greenery, as the last pale crumbs
disappear under the blackened tongue. Someone

calls out his name in a voice
so like his mother’s, a startled tear
splashes the tip of his right boot.
My mother, my love in death.
The general remembers the tiny green sprigs
men of his village wore in their capes
to honor the birth of a son. He will
order many, this time, to be killed

for a single, beautiful word.

 

 

Notes: On October 2, 1937, Rafael Trujillo (1891-1961), dictator of the Dominican Republic, ordered 20,000 blacks killed because they could not pronounce the letter “r” in perejil, the Spanish word for parsley.

 

 

Rita Dove, «Parsley» in Museum (Pittsburgh: Carnegie Mellon University Press, 1983).

Epifania 3

tudo que carregava era pouco. desse pouco, tudo era poroso. e essas frases em branco continuam a aparecer. próprias, conscientes de si e de sua abrangência descontextualizada.
me vejo andar. ando e me vejo andar. a consciência é mais forte que o fazer.
não é momento, nem passagem. não é um mito. nem um ritual. não é porra alguma.
as fendas se abrem.
eu caio, despenco: aceito.
te submeto. te encaminho. te mando pelos correios. por sedex. com aviso de recebimento e tudo mais. me despeço, despedaço. extravio.
desmantelo, e nem mesmo sei onde se encaixam as lacunas, os nós, os conchaves. nem mesmo sei o que é desmantelar.
entendo bem de inutilidades, desmoronamentos, laços, maquinações, permanências e substantivações.

o centro de tudo é consequência, por isso generalizações se formam na minha continuidade e as pausas necessárias remontam céus azuis de dias regulares. tudo isso para que o fio da meada não me perca como perco a mim em botões de repetitivas funções padronizadas e opções limitadas.
a gente é cópia. transmutação; sei a prática. nossa teoria é sombra embaixo dos pés.

Da Tradução do Übermensch de Friedrich Nietzsche

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I

Numa conferência de 1813 sobre a tradução, lida na Real Academia de Berlim a 24 de Julho, (Sobre os Diferentes Métodos de Traduzir), Friedrich Schleiermacher notou que se por um lado "O indivíduo não pode pensar com completa determinação aquilo que estiver fora das fronteiras da sua língua. […] Porém, por outro lado, cada indivíduo que pensa livremente, com autonomia espiritual, está por seu turno a formar a língua.” Portanto, o sentido surge da língua a partir da qual vemos o mundo, para parafrasear livremente Fernando Pessoa, mas ela é o produto dos seus criadores, que assim fazem emergir novos sentidos (mais uma variação do círculo hermenêutico).

Vem isto a propósito da dificuldade em traduzir um termo importante de Nietzsche, presente sobretudo em Assim Falava (ou Falou) Zaratustra: der Übermensch. Mais abaixo demonstrarei por que opto por “sobre-homem”, em vez do tradicional “super-homem”, por enquanto continuo, num escurso que pretende enquadrar o problema, com os labirintos da tradução, acompanhado pela leitura de Dizer Quase a Mesma Coisa, de Umberto Eco. Alexander von Humboldt e Friedrich Schleiermacher foram, no início do século XIX, dos primeiros a afirmar que as traduções podem enriquecer a linguagem de chegada, ao nível do sentido e da expressividade. Para que isso aconteça é preciso dominar a língua de partida e estar acima das potencialidades medianas da língua de chegada, e por vezes sacrificar a transposição literal dos signos para elevar o estilo da língua de tradução. Mas já em 1420, Leonardo Bruni (De interpretatione recta) escrevia que o tradutor “deve fiar-se também no seu ouvido para não estragar o que num texto é exprimido com elegância e sentido de ritmo.” Ou seja, para preservar o nível do ritmo, o tradutor pode dispensar-se de seguir à letra o original.

Esta legitimação do “desvio”, coincide com o argumento etimológico de Umberto Eco: o termo latino “translatio” surge inicialmente com o significado de “transporte”, da passagem de dinheiro de um banco para outro, mas também de enxerto botânico, ou desenvolvimento de um horizonte metafórico. Esta é a razão por que falha o Google Translate, ou outra ferramenta digital de tradução automática. A interpretação por transcrição ou substituição automática, como no alfabeto morse, não funciona. A ausência de decisões interpretativas, sem qualquer recurso a um contexto ou circunstância de enunciação resulta nas situações hilariantes que todos conhecemos. Compreende-se, pois, que Willard Quine, no capítulo “Meaning and translation”, de Word and Object (1960), refira que é difícil estabelecer o significado de uma palavra sem se entender o contexto cultural onde ela se insere. Por exemplo, se um indígena pronunciar “gavagai!” apontando para um coelho que passa à nossa frente, o que quererá ele dizer: o nome daquele coelho, dos coelhos em geral, da erva que se movimentou com a sua passagem ou designar o espaço de tempo da sua passagem? É incontornável, cada língua exprime uma determinada visão do mundo.

Assim, a tradução deve ser sempre acompanhada de interpretação (excepto em trabalhos expresso orientados para o “mercado”), e isso exige tanto uma atenção cuidada ao contexto cultural (lato sensu) onde nasceu a obra, como às palavras que a compõem. Neste sentido, ainda segundo Eco, “uma boa tradução é sempre uma contribuição crítica para a compreensão da obra traduzida. Ela orienta sempre para um certo tipo de leitura da obra”, levando a ver o original sob outras perspectivas. É por isso que, para os autores que convoquei, todo o acto de tradução é desde logo, e ipso facto, interpretação. Hans-Georg Gadamer (1960) repete-o, sublinhando que as traduções são o resultado de interpretações, feitas pelos tradutores na passagem das palavras originais às traduzidas. Esta ideia – a de que é preciso previamente interpretar um texto para o poder traduzir bem– assenta na impossível equivalência linear entre signos de línguas diferentes, embora se deva coincidir na dimensão pragmática, isto é, no sentido que produzem. De forma a que ler a mesma obra em línguas diferentes dê a pensar coisas muito semelhantes. Fala-se então de igualdade de valor de troca. O caso exemplar está em traduzir Homero em prosa, visto que o género épico era na época de Homero o que a prosa narrativa é nos nossos dias.

Para que tudo isto aconteça, e aconteça bem, Umberto Eco – que acompanhou a tradução em várias línguas de muitos dos seus livros, é bom dizê-lo – recorre frequentemente à ideia de negociação. Negociar o significado que a tradução deve exprimir, até porque é isso que fazemos no uso quotidiano da língua. Neste sentido, o processo de tradução prolonga o processo dialógico do dia-a-dia.

II

        

Na sequência do que acabei de dizer, considero essencial que as traduções de Friedrich Nietzsche estejam envoltas num conhecimento profundo do seu pensamento (multifuncional e vivo), do contexto histórico de onde emerge (prolongando-o e criticando-o) e dos comentadores mais relevantes (que não apenas explicam, mas acrescentam sentidos à sua obra).

No Preâmbulo a Assim Falava Zaratustra (ZA), Friedrich Nietzsche define o sentido principal do termo Übermensch: “Der Übermensch ist der Sinn der Erde. Euer Wille sage: der Übermensch sei der Sinn der Erde!”. Ele torna-se o sentido da Terra (arrisco a maiúscula), o sentido do sentido, visto que nada há para além da Terra, sabendo-se que Deus morreu (outra das ideias fundamentais de ZA). Por isso, ZA será o livro do Übermensch (e do conceito de Eterno Retorno, porque é preciso um novo tempo, cósmico e ético, para esse outro homem), e a opção de tradução ganha uma relevância que não teria noutra circunstância. Vejamos, então, a justificação para a opção de “sobre-homem”.

O “sobre-homem”, ao contrário do Superman, não é uma nova estrutura sobre-pulsional do humano, nem um messianismo hipermoral, é um ser da distância, erigindo possibilidades de vida mais singulares. Daí apresentar-se melhor na figura da “criança” do que na do “leão” de “Von den drei Verwandlungen” (ZA I). O sobre-homem é muito mais um criador do que um destruidor (embora seja através de uma destruição inicial que se instaura o prólogo da liberdade), só a criança, diz Nietzsche, consegue criar valores, porque a sua vontade afirmativa separou-se do que era, podendo agora ser inocência e esquecimento. Ainda que quase no final do cap. “Von der Selbst-Ueberwindung” (ZA II) refira criar dentro do bem e mal implica primeiramente aniquilar valores.[1] Mathieu Kessler distingue-o do superman porque em vez de um poder excepcional, o Übermensch é o homem a quem “falta qualquer coisa”.[2] É esta falta, embora pensada noutros termos, que destaca Jean Granier ao dizer que o prefixo “über” indica que o Übermensch tem o seu fundamento na Selbstüberwindung (auto-superação).

Daí os problemas de tradução que se levantam. Na opção comum em português europeu, Übermensch (Übermenschen, no dativo) é normalmente traduzido por “super-homem” (Obras Escolhidas para a Relógio de D’Água) ou, às vezes, sem um critério suficientemente sólido, por “sobre-humano”[3]. Na minha perspectiva, isto inviabiliza uma adequação mais precisa entre os sentidos nietzscheanos e os da pragmática comum na língua portuguesa. É verdade que quem lê e estuda frequentemente Nietzsche faz um ajustamento ao deslocar o “super-homem” do significado mais literal para sentidos próximos dos do autor, recusando sobretudo as propostas hollywoodescas ou os altares fascistas de herói energizado. O próprio Nietzsche, percebendo os potenciais equívocos do termo, faz em Ecce Homo, “Warum ich so gute Bücher schreibe” §1, uma acusação pedagógica aos leitores, presentes e futuros, de não compreenderem o significado da palavra “Übermensch” na boca de Zaratustra, de a ligarem às teorias darwinistas, aos “cultos de heróis” (Heroen-Cultus) super-humanos.[4] Ainda assim, julgo que se justifica traduzir o termo alemão/nietzscheano por “sobre-homem”. Na condição, todavia, de o “sobre” não denotar simplesmente a elevação quantitativa dentro de uma hierarquia. Com ele quero, à falta de melhor (testei “outro-homem”, mas ficaríamos demasiado distantes da hermenêutica habitual), dar conta do prefixo “über” como movimento para lá da antropologia humanista, mudança que exige outra escala de valores. Pretendo sobretudo resistir à possibilidade de se interpretar a partir da polarização Übermensch/Untermensch, o Übermensch é principalmente o resultado de uma Überwindung (superação, sem o negativo hegeliano), por vezes tão extrema que, como refere Pierre Boudot, “Em Nietzsche, o homem vai tão longe no seu próprio coração para descobrir o que deve ser superado que não estamos certos de o ver reaparecer.”[5] Por outro lado, procuro também imprimir-lhe a dimensão do porvir (combatendo muitas das apropriações mais politizadas), ele há-de constituir-se, talvez assimptoticamente, pela auto-superação do homem, é assim que leio o que diz em ZA II, “Von der Priestern”: “Ainda nunca houve um sobre-homem”.[6] É por isso que se deve privilegiar o sentido dinâmico da Selbstüberwindung. Müller-Lauter tem razão quando defende que o sobre-homem não quer o poder-em-si, como não tem um único objectivo, uma linha definida de desenvolvimento, ele é um caleidoscópio de vontades de sobre-abundâncias.[7]

Não se pense, contudo, num neologismo forjado especialmente para a sua “doutrina” do novo homem. Foi, pelo menos, usado por Novalis, Heinrich Heine e Goethe. Nietzsche recupera-o no prólogo de ZA, porque o homem é algo que “deve” (soll e não muss) ser superado, daí a importância do ensino de Zaratustra.[8] No Inverno de 1882-83 percebeu o poder desta ideia para a sua axiologia, um novo tempo (Eterno Retorno) e um novo homem (sobre-homem) para valorizações fiéis à Terra, uma imanência soberana.[9] O sobre-homem será capaz de dizer sim à vida na sua eterna repetição. Mas antes de ZA já Nietzsche usava o adjectivo “übermenschlich”[10] e outras designações também próximas (“espírito livre”, “ouvinte estético”, “homem supra histórico”...), mostrando como desde muito cedo quis desviar-se do humanismo do seu tempo, compor um homem mais livre, mais hedonista, mais lúcido... Como refere Arthur Danto, sem qualquer instinto de hétero-domínio, não um senhor de escravos, mas um soberano afortunado.[11] Também para Patrick Wotling, os Übermenschen não são mestres, mas deuses epicuristas pouco preocupados com os outros, animados pelo “pathos da distância”.[12]

É a partir disto, desta linha hermenêutica, que justifico a opção de “sobre-homem” para traduzir o der Übermensch nietzscheano, tradução de sentido mais do que tradução à letra, única forma de nos aproximarmos da intenção do autor.  

[1] “Und wer ein Schöpfer sein muss im Guten und Bösen: wahrlich, der muss ein Vernichter erst sein und Werthe zerbrechen.”. (KSA 4, 149).

[2] Cf. “Le Nihilisme et la nostalgie de l’être”, in Jean-François Mattéi (dir.), Nietzsche et le temps des nihilismes, Paris : P.U.F., 2005, p. 47-48.

[3] Esta última opção está perigosamente perto da de “sobre-humanidade”, que me parece dever ser evitada. Como refere Pierre Klossowski, a humanidade não interessa em nada a Nietzsche, ele apenas se preocupa com os casos singulares. (Cf. Nietzsche et le cercle vicieux, Paris: Mercure de France. 1969, p. 223; de Nietzsche, e.g., os Fragmentos Póstumos de 1880, 6[70], – não há um fim da humanidade, cada homem deve colocar a sua própria finalidade –; 1881, 11[222], – recusa a ideia de uma humanidade unitária – e de 1888, 15[8], – escreve que a humanidade não avança porque muito simplesmente não existe; mas sobretudo o final do “Vorwort” de Anticristo (ou Anticristão) onde escreve que é necessário ser superior à humanidade, pela elevação e pelo desprezo.

[4] Logo no prefácio desse livro, §2, escreve que a última coisa que prometeria seria a de melhorar a humanidade. François Warin, retomando as metáforas do camelo, leão e criança de ZA, defende que o Übermensch é a “criança”, não o “leão” que depois de tomar consciência da subserviência do “camelo” se revolta e destrói o que está estabelecido. Ele é a “criança” que abandonou a violência, não odeia, não teme, não destrói nem deseja. É um pacifismo da força. (Cf. Nietzsche et Bataille, Paris: P.U.F. 1994, p. 231-3).

[5] Nietzsche et les écrivains français, Paris: 10/18, 1970, p. 89

[6] KSA 4, 119: “Niemals noch gab es einen Übermenschen.”

[7] Cf. Nietzsche: His Philosophy of Contradictions and the Contradictions of his Philosophy, Chicago: University of Illinois Press, 1999. p. 80.

[8] “Ich lehre euch den Übermenschen. Der Mensch ist Etwas, das überwunden werden soll. Was habt ihr gethan, ihn zu überwinden?” (ZA, “Vorrede” §3; KSA 4, 14).

[9] “Der Übermensch ist der Sinn der Erde. Euer Wille sage: der Übermensch sei der Sinn der Erde!” (ZA, “Vorrede” §3; KSA 4, 14).

[10] E.g. Segunda Inactual, §6; Humano Demasiado Humano I §143, II §73; Aurora §27, 60, 113, 548.

[11] “The Übermensch, accordingly, is not the blond giant dominating his lesser fellows. He is merely a joyous, guiltless, free human being, in possession of instinctual drives, which do not overpower him. He is the master and not the slave of his drives, and so he is in a position to make something of himself rather than being the product of instinctual discharge and external obstacle.” (Arthur Danto, Nietzsche as Philosopher, New York, Macmillan, 1965, p. 199-200).

[12] Nietzsche et le problème de la civilisation, Paris: P.U.F., 1999, p. 342-43. Por isso, continua Patrick Wotling, não lhes interessa a supremacia política, mas a transfiguração da existência em direcção a uma maior soberania. Todavia, o “deus epicurista” serviu sobretudo para a escrita do ZA II e Fragmento Póstumo de 1883, depois disso parece “por vezes” (parfois) desviar-se para a procura da dominação. (Idem, p. 344). Wotling realça também a proposta de um novo homem assente no critério do alargamento das perspectivas que incarna, cita em apoio o Fragmento Póstumo de 1887 10[17], onde se mostra um homem cheio de “luxos excedentários”, o contrário exacto dos especialistas, dos homens redutoramente especializados. Refere ainda o de 1884, 26[119], no qual o homem mais sábio seria o mais rico em contradições e, da mesma época, o 27[59] sobre a grande diversidade de instintos e impulsos necessária ao homem supremo.