Da Tradução do Übermensch de Friedrich Nietzsche

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I

Numa conferência de 1813, acerca das várias maneiras de traduzir, Friedrich Schleiermacher notou que “por um lado, cada homem está dominado pela língua que fala; ele e o seu pensamento são um produto dela. Não se podendo pensar nada com total precisão fora dos seus limites.” Mas poucas linhas depois acrescenta: “por outro lado, todo o homem que pensa livremente, de forma independente, contribui para a formação da língua.” Portanto, o sentido emerge da língua a partir da qual vemos o mundo, para parafrasear livremente Pessoa, mas ela é o produto dos seus criadores, que assim fazem emergir novos sentidos (mais uma variação do círculo hermenêutico).

Vem isto a propósito da dificuldade em traduzir um termo que Nietzsche usa frequentemente, sobretudo em Assim Falava (ou Falou) Zaratustra: der Übermensch. Mais abaixo mostrarei por que optei por “sobre-homem”, em vez do habitual “super-homem”, por enquanto continuo, em jeito de warm up, com os labirintos da tradução, inspirado pela leitura de Dizer Quase a Mesma Coisa, de Umberto Eco. O grande pensador Alexander von Humboldt foi dos primeiros, em 1816, a afirmar que as traduções podem enriquecer a linguagem de chegada, ao nível do sentido e da expressividade. Para que isso aconteça é preciso dominar a língua de partida e estar acima das potencialidades medianas da língua de chegada, e por vezes sacrificar a transposição literal dos signos para elevar o estilo da língua de tradução. Aliás, já em 1420, Leonardo Bruni (De interpretatione recta) escrevia que o tradutor “deve fiar-se também no seu ouvido para não estragar o que num texto é exprimido com elegância e sentido de ritmo.” Ou seja, para preservar o nível do ritmo, o tradutor pode dispensar-se de seguir à letra o original.

Esta legitimação do “desvio”, coincide com o argumento etimológico de Umberto Eco: o termo latino “translatio” surge inicialmente com o significado de “transporte”, da passagem de dinheiro de um banco para outro, mas também de enxerto botânico, ou desenvolvendo um horizonte metafórico. Esta é a razão por que falha o Google Translate, ou outra ferramenta digital de tradução automática. A interpretação por transcrição ou substituição automática, como no alfabeto morse, não funciona. A ausência de decisões interpretativas, sem qualquer recurso a um contexto ou circunstância de enunciação resulta nas situações hilariantes que todos conhecemos. Compreende-se, pois, que Quine, no capítulo “Meaning and translation”, de Word and Object (1960), refira que é difícil estabelecer o significado de uma palavra sem se entender o contexto cultural onde ela se insere. Por exemplo, se um indígena pronunciar “gavagai!” apontando para um coelho que passa à nossa frente, o que quererá ele dizer: o nome daquele coelho, dos coelhos em geral, da erva que se movimentou com a sua passagem ou designar o espaço de tempo da sua passagem? Na verdade, cada língua exprime uma determinada visão do mundo.

Assim, uma tradução deve ser sempre precedida de uma interpretação (se não se tratar de traduções medíocres de textos medíocres, encomendados com a única finalidade de ganhar rapidamente dinheiro). “Os bons tradutores, diz Eco, lêem e relêem o texto antes de o começar a traduzir”. Neste sentido, ainda segundo Eco, “uma boa tradução é sempre uma contribuição crítica para a compreensão da obra traduzida. Ela orienta sempre para um certo tipo de leitura da obra”, levando a ver o original sob outras perspectivas. É por isso que, para os autores que convoquei, todo o acto de tradução é desde logo, e ipso facto, interpretação. Hans-Georg Gadamer (1960) repete-o, sublinhando que as traduções são o resultado de interpretações, feitas pelos tradutores na passagem das palavras originais às traduzidas. Esta ideia – a de que é preciso previamente interpretar um texto para depois o interpretar – assenta na impossibilidade da equivalência entre significados de línguas diferentes, apenas se pode coincidir na dimensão funcional, uma frase deve produzir o mesmo efeito na língua traduzida do que tinha na original. Fala-se então de igualdade de valor de troca. O caso exemplar está em traduzir Homero em prosa, visto que o género épico era na época de Homero o que a prosa narrativa é nos nossos dias.

Para que tudo isto aconteça, e aconteça bem, Umberto Eco – que acompanhou a tradução em várias línguas de muitos dos seus livros, em bom dizê-lo – recorre frequentemente à ideia de negociação. Devemos negociar o significado que a tradução deve exprimir porque, mesmo no quotidiano, negociamos sempre o significado que atribuímos às expressões que utilizamos. Neste sentido, o processo de tradução prolonga o processo dialógico do dia-a-dia.

 

II

           

            Na sequência do que acabei de dizer, considero essencial que as traduções de Nietzsche estejam envoltas num conhecimento profundo do seu pensamento (multifuncional e vivo), do contexto histórico de onde emerge (prolongando-o e criticando-o) e dos comentadores mais relevantes (que não apenas explicam, mas acrescentam sentidos à sua obra).

No Preâmbulo a Assim Falava Zaratustra (ZA), Friedrich Nietzsche lança o sentido principal do termo Übermensch: “Der Übermensch ist der Sinn der Erde. Euer Wille sage: der Übermensch sei der Sinn der Erde!”. Ele torna-se o sentido da Terra (arrisco a maiúscula), o sentido do sentido, visto que nada há para além da Terra, sabendo-se que Deus morreu (ou das ideias fundamentais de ZA). Por isso, ZA será o livro do Übermensch (e do conceito de Eterno Retorno, porque é preciso um novo tempo, cósmico e ético, para o nascimento desse outro homem), e a opção de tradução ganha uma relevância que não teria noutra circunstância. Fiquemos então com a minha justificação pela opção de “sobre-homem”.

O “sobre-homem”, ao contrário do Superman, não é uma nova estrutura sobre-pulsional do animal humano. Mas também não concentra todos os bons valores humanos, constrói-se na distância, na procura de novas possibilidades de vida mais singulares. Daí figurar-se melhor na “criança” do que no “leão” de “Von den drei Verwandlungen”, ZA. O sobre-homem é muito mais um criador do que um destruidor (embora seja através da destruição que se instaura o prólogo da liberdade), só a criança, diz Nietzsche, consegue criar valores porque a sua vontade afirmativa desligou-se totalmente do que é, ela é inocência e esquecimento. Ainda que quase no final do cap. “Von der Selbst-Ueberwindung”, ZA II, refira que quem quiser ser criador dentro do bem e mal deverá antes ser aniquilador de valores.[1] Mathieu Kessler distingue-o do superman porque em vez de um poder excepcional, o Übermensch é o homem a quem “falta qualquer coisa”.[2] É esta falta, embora pensada noutros termos, que destaca Jean Granier ao dizer que o prefixo “über” indica que o Übermensch tem o seu fundamento na Selbstüberwindung.

Daí que uns dos primeiros problemas está na própria tradução de Übermensch (Übermenschen, no dativo), a opção habitual em português europeu (Obras Escolhidas para a Relógio de D’Água) por “super-homem” (às vezes, sem um critério suficientemente sólido, “sobre-humano”)[3] inviabiliza, na minha perspectiva, uma adequação mais precisa entre os sentidos nietzscheanos e os da prática comum na língua portuguesa. É verdade que quem lê e estuda frequentemente Nietzsche faz um ajustamento ao deslocar o “super-homem” da vulgarização semântica para sentidos mais próximos do autor, desligando-se sobretudo das propostas hollywoodescas ou dos altares fascistas do herói energizado. O próprio Nietzsche, percebendo os potenciais equívocos do termo, faz em Ecce Homo, “Warum ich so gute Bücher schreibe” §1, uma acusação pedagógica aos leitores, presentes e futuros, de não compreenderem o que significava a palavra “Übermensch” na boca de Zaratustra, de a ligarem às teorias darwinistas, aos “cultos de heróis” (Heroen-Cultus) super-humanos.[4] Ainda assim, julgo que é uma boa opção traduzir o termo alemão/nietzscheano por “sobre-homem”. Perceba-se, todavia, que o “sobre” não significa simplesmente a elevação quantitativa dentro de uma hierarquia, com ele quero, à falta de melhor (pensei no “outro-homem”, mas ficaríamos muito longe da hermenêutica habitual), dar conta do prefixo “über” como movimento para lá da antropologia humanista, deslocamento que exige outra escala de valores. Pretendo sobretudo resistir à possibilidade de se interpretar a partir da polarização Übermensch/Untermensch, o Übermensch é principalmente o resultado de uma Überwindung (superação, mas não hegeliana), por vezes tão extrema que, como refere Pierre Boudot, “Em Nietzsche, o homem vai tão longe no seu próprio coração para descobrir o que deve ser superado que não estamos certos de o ver reaparecer.”[5] Por outro lado, desejo também assegurar-me que a figura do Übermensch é do porvir (combatendo muitas das apropriações mais politizadas), ele há-de constituir-se, talvez assimptoticamente, através da auto-superação do homem, é assim que leio o que diz em ZA II, “Von der Priestern”: “Ainda nunca houve um sobre-homem”.[6] É por isso que se deve privilegiar o sentido dinâmico da Selbstüberwindung (auto-superação). Müller-Lauter tem razão quando defende que o sobre-homem não quer o poder-em-si, como não tem um único objectivo, uma linha definida de desenvolvimento, ele é um caleidoscópio de vontades de sobre-abundâncias.[7]

Não se pense, contudo, num neologismo, foi pelo menos usado por Novalis, Heinrich Heine e Goethe. Nietzsche recupera-o para o prólogo de ZA, porque o homem é algo que “deve” (soll e não muss) ser superado, daí a importância do ensino de Zaratustra.[8] Foi no Inverno de 1882-83 que Nietzsche percebeu o poder desta ideia para a sua axiologia, um novo tempo (do eterno retorno) e um novo homem (o sobre-homem) para valorizações fiéis à Terra.[9] O sobre-homem será aquele que é capaz de dizer sim à vida na sua eterna repetição. Mas antes de ZA já Nietzsche usava o adjectivo “übermenschlich[10] e outras designações (“espírito livre”, “ouvinte estético”, “homem supra histórico”...) mostrando como desde muito cedo quis desviar-se dos humanismos do seu tempo, compor um homem mais livre, mais alegre, mais saudável... Como refere Arthur Danto, sem qualquer instinto de domínio sobre seguidores, não um senhor de escravos, mas um soberano afortunado.[11] Também para Patrick Wotling os Übermenschen não são mestres, mas deuses epicuristas pouco preocupados com os outros, animados pelo “pathos da distância”.[12]

É a partir disto que justifico a opção de “sobre-homem” para traduzir der Übermensch nietzscheano.

 

 

[1]Und wer ein Schöpfer sein muss im Guten und Bösen: wahrlich, der muss ein Vernichter erst sein und Werthe zerbrechen.”. (KSA 4, 149).

[2] Cf. “Le Nihilisme et la nostalgie de l’être”, in Jean-François Mattéi (dir.), Nietzsche et le temps des nihilismes, Paris : P.U.F., 2005, p. 47-48.

[3] Esta última opção está perigosamente perto da de “sobre-humanidade”, que me parece dever ser evitada. Como refere Pierre Klossowski, a humanidade não interessa em nada a Nietzsche, ele apenas se preocupa com os casos singulares. (Cf. Nietzsche et le cercle vicieux, Paris: Mercure de France. 1969, p. 223; de Nietzsche, e.g., os Fragmentos Póstumos de 1880, 6[70], – não há um fim da humanidade, cada homem deve colocar a sua própria finalidade –; 1881, 11[222], – recusa a ideia de uma humanidade unitária – e de 1888, 15[8], – escreve que a humanidade não avança porque muito simplesmente não existe; mas sobretudo o final do “Vorwort” de Anticristo (ou Anticristão) onde escreve que é necessário ser superior à humanidade, pela elevação e pelo desprezo.

[4] Logo no prefácio desse livro, §2, escreve que a última coisa que prometeria seria a de melhorar a humanidade. François Warin, retomando as metáforas do camelo, leão e criança de ZA, defende que o Übermensch é a “criança”, não o “leão” que depois de tomar consciência da subserviência do “camelo” se revolta e destrói o que está estabelecido. Ele é a “criança” que abandonou a violência, não odeia, não teme, não destrói nem deseja. É um pacifismo da força. (Cf. François Warin, Nietzsche et Bataille, Paris: P.U.F. 1994, p. 231-3).

[5] Nietzsche et les écrivains français, Paris: 10/18, 1970, p. 89

[6] KSA 4, 119: “Niemals noch gab es einen Übermenschen.”

[7] Cf. Nietzsche: His Philosophy of Contradictions and the Contradictions of his Philosophy, Chicago: University of Illinois Press, 1999. p. 80.

[8]Ich lehre euch den Übermenschen. Der Mensch ist Etwas, das überwunden werden soll. Was habt ihr gethan, ihn zu überwinden?” (ZA, “Vorrede” §3; KSA 4, 14).

[9]Der Übermensch ist der Sinn der Erde. Euer Wille sage: der Übermensch sei der Sinn der Erde!” (ZA, “Vorrede” §3; KSA 4, 14).

[10] E.g. Segunda Inactual, §6; Humano Demasiado Humano I §143, II §73; Aurora §27, 60, 113, 548.

[11]The Übermensch, accordingly, is not the blond giant dominating his lesser fellows. He is merely a joyous, guiltless, free human being, in possession of instinctual drives, which do not overpower him. He is the master and not the slave of his drives, and so he is in a position to make something of himself rather than being the product of instinctual discharge and external obstacle.” (Arthur Danto, Nietzsche as Philosopher, New York, Macmillan, 1965, p. 199-200).

[12] Nietzsche et le problème de la civilisation, Paris: P.U.F., 1999, p. 342-43. Por isso, continua Patrick Wotling, não lhes interessa a supremacia política, mas a transfiguração da existência em direcção a uma maior soberania. Todavia, o “deus epicurista” serviu sobretudo para a escrita do ZA II e Fragmento Póstumo de 1883, depois disso parece “por vezes” (parfois) desviar-se para a procura da dominação. (Idem, p. 344). Wotling realça também a proposta de um novo homem assente no critério do alargamento das perspectivas que incarna, cita em apoio o Fragmento Póstumo de 1887 10[17], texto que mostra a vontade de um homem cheio de “luxos excedentários”, o contrário exacto dos especialistas, dos homens redutoramente especializados. Refere ainda o de 1884, 26[119], onde Nietzsche assegura que o homem mais sábio seria o mais rico em contradições e, da mesma época, o 27[59] sobre a grande diversidade de instintos e impulsos necessária ao homem supremo.