«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
“Em Busca Do Tempo Perdido”
/“You belong to me and all Paris belongs to me and I belong to this notebook and this pencil.”
Ernest Hemingway, “A Moveable Feast”
Nem cheiro de Hemingway, e de Miller só um toque nas costas lá para os lados da descida da
torre,
Enquanto se espera, arrisca-se, de Pigalle muitas promessas de dildos e bolinhas no cu, as
luzes
Lá estão e as adolescentes bêbadas, sem necessidades, só vontade de vomitar nas ruas, ecos
De avós e visavós, deslumbramento precoce das traças pelos candeeiros e a alienação da
massa,
Demasiada gente enlatada à espera dos mausoléus, disto ou daquilo para chegar a tão pouco
ou nada,
Ou apenas a sinceridade real de uma desilusão, só nos copos de vinho excessivamente
espremidos
Se encontra o bigode de Django Reinhardt e o brilho de outros tempos que só as paredes
conheceram,
Sonha-se na viagem, as ruas encerram tudo, o copo vazio desmistifica a neblina, o vento frio
entorpece
A caneta e os dedos, não há outra aventura além do risco da violência inocente na
madrugada da metrópole,
Metropolitain e muito barulho das luzes, vende-se a ilusão a pratos cheios e quentes,
diferentes
Da Dobrada à Moda do Porto e no final as casas de banho só escondem cheiro a mijo e ecos
do que cada
Um pode imaginar segundo as suas experiências, o cansaço eleva razões para o salto nas
cidades
Virgens de libertinagem, apesar de tudo, sente-se a vibração latente nos olhos dos que
procuram
A possibilidade de um filme de Woody Allen, mesmo que patológica a nostalgia como a
saudade,
Um dia também a poderá conhecer e explorar numa cidade onde arrefecem pratos, onde
renasceu
Zombie poeta um aldeão viciado na passagem e na paisagem, imediatamente se esquece o
verdadeiro
Sabor e fica apenas a recordação do gosto quente, nas palavras nunca arrefece, por isso
sonho
Com Paris dos livros, aqui, neste Paris onde os copos se esvaziam, adiando o sono e a visita a
ecos de génios.
08-02-2014
Montmartre
Dois poemas de David Harsent
/Tradução de Hugo Pinto Santos.
Ambos os poemas foram anteriormente publicados na edição online do Público
Franco-Atirador
Estou abrigado aqui e longe da vista. Estou abrigado aqui em cima
na torre sineira de Nossa Senhora da Vingança: aqui é o meu lugar,
bem provido e com tudo em ordem. Esta torre foi erguida no ano de
tal e tal, o ano do corvo, ano da nossa desgraça.
Estou abrigado aqui em cima à sombra da cruz,
com abafos para os ouvidos, tenho a minha manta e um colchão de palha,
ajoelhado, mas olho para baixo, como um homem a rezar.
Uma mulher atravessa a praça levando água.
Corre lenta, corre para não verter. Depois uma criança, à vista
desarmada, segue numa diagonal e corre como uma lebre
numa esquiva. Estou aqui ao abrigo, certinho, com uma salsicha e uma cerveja,
um fogareiro para me deixar os dedos livres. Passam os dias.
Estou perfeitamente aqui neste aconchego, a minha toca;
tenho onde pousar a cabeça, lugar onde mijar
e, como contraditório cómico, as aves dos ares.
Com um olho sobre a mira, o mundo fica por perto,
particular: este avô que abraça uma sobra, cabelo a cabelo
na cabeça, olhos orvalhados, no bolso a moeda
de antes da guerra, presa a uma corrente, o tecer do casaco. Além,
junto ao meu amigo, o Homem da Marlboro, é onde
me sentava a beber um café de manhã: o café do Arno,
uma máquina de flíperes, a jukebox, a rapariga com a cara da Madonna
até lhe vermos os detes; inclinava-me na cadeira
contra a parede a apanhar sol. Vão a medo. Vão com medo
de mim. E aonde vão, vão com as minhas boas graças.
Estou aqui em cima com muita coisa de reserva.
O céu da noite inunda-se, depois clareia, desfralda uma só estrela,
e a cidade recolhe ao silêncio debaixo da minha arma.
A mulher, a criança, o avô, não são coisa nenhuma, ou nada mais
do que a história pode ignorar, ou o amor apagar.
Mergulho
Um pouco mais fundo, a luz perde-se dela. Primeiro
mal se pode tocar a superfície – há formas que podiam ser nuvens
pássaros em voo... Ela pousa a cara na espuma,
a ver pela última vez o mundo de onde veio, uma frágil
impressão de vozes que esmorecem enquanto ela se escoa
desde a alvorada até ao anoitecer, um sombrear glauco que vai
primeiro ao azul, depois mais que azul, e logo a um azul nunca visto
por ninguém que não ela, e aquele lento curso descendo disposto a cindir
tudo quanto ela tinha ou queria, tudo o que ela havia sido.
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Jonas
/a William Zeytounlian
E veio a palavra do SENHOR a Jonas, filho de Amitai, dizendo: Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até à minha presença. Jonas foge. Quem era ele para ir a Nínive, pregar? Dele riem já em sua aldeia, e Nínive é tanto maior. Embarca para Társis, ou qualquer dos pontos mais próximos do abismo, onde acaba o mundo quadrado. Céu de bonança, os ventos enfunam as velas, logo Társis ou o fim do mundo, longe de Nínive e da voz de toró e trovejadas do Senhor. À noite, no barco que balouçava tranquilo sobre as águas, tem um pesadelo terrível, uma tormenta se abate sobre eles, ameaça estraçalhar barco e tripulação, os viajantes clamam cada qual a seu deus, promulga-se de Jonas a culpa, lançam-no barco afora, um grande peixe o engole, três dias e três noites de digestão, a sua. Acorda, encharcado de suor. Chegaram a Társis, sãos, salvos. Jonas ali se estabelece. O tempo passa. Chegam notícias de que um homem, um certo Jonas, recebera a palavra do Senhor, fora a Nínive, pregara, os habitantes o ouviram, vestiram-se de saco de estopa, lançaram cinzas sobre a cabeça, o Senhor deles se apiedou, arrependeu-se do mal que queria fazer sobrevir-lhes, perdoou-os. Jonas sente uma nostalgia inexplicável, sem nome, dedica-se à plantação de aboboreiras, os negócios progridem, exporta para os quatro cantos, inclusive para Nínive. Mas há o sonho recorrente, o mesmo, que deixa de ser pesadelo, sonho pelo qual anseia toda noite, Jonas de volta no barco, uma tormenta se abate sobre eles, ameaça estraçalhar tudo e todos, os viajantes clamam cada qual a seu deus, promulga-se de Jonas a culpa, lançam-no barco afora, um grande peixe o engole, três dias e três noites de digestão, a sua. Mas Jonas agora avança na narrativa do sonho, passa a cada ano um pouco mais do ponto em que despertara naquela primeira noite do pesadelo agora sonho, Jonas no grande peixe, três dias e três noites, clama, clama, clama, o Senhor o ouve, apieda-se, o grande peixe o vomita nas areias, Jonas vai a Nínive, prega, os habitantes o ouvem, vestem-se de saco de estopa, lançam cinzas sobre a cabeça, o Senhor deles se apieda, arrepende-se do mal que queria fazer sobrevir-lhes, perdoa-os, é ele o Jonas de que outro Jonas, em Társis, ouve falar. Mas é apenas um sonho. Ele está em Társis, tem o monopólio da plantação de aboboreiras, mas caminha como se algas rodeassem sua cabeça, Jonas é um grande peixe com um Jonas em suas entranhas. Quando morre, rodeado de seus filhos e netos, seu testamento consiste de uma única sentença: Enterrem-me em Nínive. Proibitivos os custos, questões de saúde pública, transportar cadáveres em longas viagens pelos mares, cheiro de decomposição enojando os passageiros no convés. Os filhos decidem cremá-lo. Suas cinzas, espargem no mar.
Dois poemas de "Fonte Breve" de João Miguel Henriques
/estranho o livro
estreita a fonte e dura
a minha fronte sobre o livro
os livros inteiros
em magotes acesos
incendiariam as ondas
*
dançam as aves, crêem
ter-se ido já o gelo frio
assim do logro nasce o canto
do engano um corropio
de penas sobre o duro manto
Fonte Breve de João Miguel Henriques, é o mais recente livro da Tea For One.
