ECDISE

1. 

em milagres faria intervenções

transformaria as perdas

em pedras palpáveis e membros fantasmas

em ambiguidades 

e logo cada caminho seria recrutado por determinismos

na época das moscas e aranhas

de observadores são os muros e os matos

de barulhos embrulhados permanece o ar

cada criança corre sua vida 

e se apressa no desmanchar do casulo

em desfazer seu ninho

no deslembrar de seu nicho

mas

os lobos guardam

caminham calmos

os lobos sabem empacotar vontades

2.

montanhas não existem por aqui

os rios cortam mais que lâminas

tu não és peixe nem anfíbio nem réptil

e esse teu coração pulsa nas mãos

pula

teu coração pula 

dele saem regatos por teu pulso

o centro de tudo é consequência

por isso generalizações se formam

3.

os quero-queros não representam anseios

mas insistem

não me representam

não insisto

na pressa os pés

e o leite

choramos a dor e o derramado 

no chão as coisas estão no mesmo plano 

mas existem coisas que não são coisas

assim como aqueles regatos insistem em sair por teu pulso

as horas veiam a presença

e embrulham o dia com jornais antigos

cozinham a existência em etileno

4. 

na minha continuidade as pausas são necessárias

pra remontar céus azuis de dias regulares

pra que o fio da meada não me perca

nas presas achamos pares

principalmente quando elas retiram suas fantasias.

É Verão

É Verão. Há erva seca nos caminhos, estatuem-se no céu os vestígios da distância. Na terra, apenas a bugia das asas inflamadas das libelinhas assinala a decadência nos galhos que se quebram. (A tarde na vigia contra as investidas da noite. Tarde sangrando nas ameias do dia. Assim as minhas mãos, oscilantes e frias, agarradas ao estandarte fervente. Quando pelejam as coisas do mundo, os estilhaços da refrega sulcam a alegria dos homens.)

*

Nuvens de trovoada cercam o céu de Julho e o tumor selado do Sol. O pus da terra desce em aluvião pelas ruas, pesa uma escuridão pressentida.

São Luís dos Portugueses em Chamas

It’s good what’s happening
It’s good what is going to happen
even what’s happening right now 
it’s ok.

Zbigniew Herbert, “Maturity” 

Away from home: it has been so long since she used a metaphor! 

Lydia Davis

 

O vizinho está a construir uma estufa que há-de tapar a vista da minha janela. A vista dá para uma macieira raquítica, plantada no jardim dele, infestada de piolhos, que só pode ser descrita como um dente podre no sorriso do bairro. Já discutimos sobre isto na reunião dos condóminos, já lhe deixei bilhetinhos na caixa de correio e já o ameacei com uma denúncia ao council. Ele sorri-me educadamente e diz que quando a estufa estiver a prosperar me envia um cesto de morangos. Mas não posso ver a estrutura crescer, a montagem das vigas, mais tarde tapadas pelos blocos de vidro que formam as paredes, a carne a ligar-se aos ossos, sem ter a impressão que isto está a ser feito a partir do interior do meu corpo, como se a estrutura fossem os meus ossos e os meus músculos estivessem a ser substituídos por vidro. Evito meditar acerca deste problema correndo para o pub da esquina, versão de estufa para humanos, a esta hora infestado pelos portugueses do bairro, que, vésperas de natal, se juntam em bandos para recitar, com a fúria tresloucada de um bando de aedos exímios à solta em Delos, a longa lista de tudo o que vão comer e beber na eminente visita à ditosa pátria amada. Introdução ao choque cultural: entrar num pub e ouvir alguém pronunciar a expressão “sande de leitão”. A pesada mão de Rafael cai-me no ombro, “Miúda, valha-me São Luís dos Portugueses em Chamas, tu aqui a esta hora?” Eu pergunto a Rafael se ele tem a certeza que o São Luís dele em vez de estar em chamas não está antes em chagas, é que fazia mais sentido, não, ele diz que em chagas nem pensar, para que raio havia eu de querer um santo em chagas, para mais em quadra natalícia, eu vou a retorquir, sofrimento piedoso, martírio lento, e ele nem pensar, a arder, cá um santo todo escarafunchoso, eu ia acrescentar não necessariamente escarafunchoso, mas ele está à procura do isqueiro e lembro-me de que já tivemos esta conversa antes, é como tentar ter um diálogo com o Minotauro. Os santos de Rafael estão todos de alguma maneira trocados, exceptuando Santa Bárbara, santinha que ele nunca evoca porque trovoada por esta bandas vê-se muito pouco. 

Read More

Raposa em Fato de Homem

 

Michael Symmons Roberts 
De 
The Half Healed, Jonathan Cape, 2008
Tradução de Hugo Pinto Santos

 

 

Mascarada e enluvada, cerdas alisadas
sobre o dorso, enfraquecida debaixo do calor, 

a raposa fica em silêncio nas recepções,
atenta a palavras erguidas em defesa, fundos públicos.

Emissária dos bosques silvestres, agente
do lado de lá, a cabeça oscila

ao vinho, os canapés, dá-lhe vómitos o fedor
das pessoas, a carne e o suor delas.

Quando vêm táxis, esgueira-se por cozinhas,
põe-se de quatro (ainda em traje formal),

dispara a correr por ruas escusas
como um senhor ferino até dar com zonas limítrofes

onde – rasando a casca de uma árvore –
lhe sai a pele de homem

como uma sépala expõe a lisa vermelhidão de uma flor.
Uma língua que sorve no frio, 

focinho no bolor das folhas, fundura de juncos, cabos
de aço, de instinto. Só eu fui testemunha

e tomo-o como ressurreição (pele abandonada,
o além como alma de raposa), portanto observo

num pasmo e abrando o fôlego até que lhe seja
possível ver, e uiva, uiva.

Read More

nós somos

A grande verdade sobre todos nós é que todos
nós somos alguém que não somos:
a dolorosa vítima de ontem ou talvez,
com menos alarde e sem qualquer ênfase,
o secreto algoz do amanhã.
Somos todos nós algo que já existia
em qualquer manhã de sangue e horror
antes de nosso nascimento e sob o luar
somos todos o amor renovado apesar
dos mananciais da loucura e do ódio.
Nós somos todos porque tantas vezes
é preciso dar nomes aos aos cordeiros
e então somos todos Heitor
forte, sem os calcanhares de Aquiles
e ainda podemos ser todos Quixote
ou – e quem pode dizer o contrário? -
talvez sejamos todos Rocinante a pastar
a grama verde enquanto no céu
os abutres volteiam e a má sorte
se consuma: aquelas nuvens tão
brandas, amontoados de espuma
que, quando muito, traziam uma vaga
melancolia, mal o sabíamos,
era a neblina que nos cercava,
tripulantes caducos de um navio
que ancora num porto devastado
e ainda antes de dizermos “tarde demais”
murmuramos – como que diante
do espelho – todos nós somos
o outro e ao mesmo tempo
não somos e nesse ser ou não ser
talvez alguém minta: A grande verdade
é que todos nós somos Hamlet
embora muitos não sejam príncipes
e tantos outros sejam os assassinos
do rei – o que importa? O que talvez
defina o herdeiro do trono roubado
é uma certeza que todos nós temos: existe
algo de podre infestando os ares
como a lembrança de um pesadelo
que nos sobressalta sem nos despertar,
que nos leva a um sonambulismo
tão eloquente, a ânsia de gritar
“nós somos” porque, não fosse assim,
o que seríamos nós
além do mais negro silêncio?